A noite não trouxe descanso. No quarto, sob o dossel de seda, Maria Eduarda enfrentou o pesadelo de olhos abertos. O corpo protestava a cada movimento: a área íntima estava inchada e dolorida, uma sensação de laceração que tornava o simples ato de sentar-se um suplício. Em seus sonhos curtos, as mãos calejadas de Bento se transformavam em serpentes que a sufocavam, enquanto o riso de seu pai ecoava ao longe, celebrando sua "pureza".
No café da manhã, o sol era um insulto. Maria Eduarda estava rígida. O vestido de gola alta, escolhido por Eulália, servia para ocultar os hematomas no corpo, mas nada podia esconder a palidez de seu rosto.
O Coronel Matias, cego pelo próprio orgulho, caminhava pelo escritório. — Ela é a criatura mais pura destas províncias, Eulália — dizia ele, batendo o anel de sinete na mesa. — O advogado Dr. Rodrigo busca um altar intocado. E é o que ele terá.
Eulália, que ouvira os abafados soluços da filha na madrugada e compreendera a tragédia apenas pelo olhar, assumiu seu papel. — Certamente, Matias. Maria Eduarda é o reflexo da virtude. Ela está pronta.
À noite, o brinde ao acordo com os Araruna foi um jogo de tortura. Bento estava à porta, uma presença macabra. Maria Eduarda sentia o peso do olhar dele; não era desejo, era a satisfação de ter corrompido sua pureza. Quando o copo em sua mão tremeu, a mão de Eulália desceu sobre a sua como uma garra de aço.
— Ela está apenas emocionada, Matias — mentiu a mãe, enquanto apertava o pulso ferido da filha por baixo da mesa.
Após o jantar, Eulália arrastou a filha para o quarto e trancou a porta. O silêncio ali era denso. A mãe abriu uma pequena caixa de veludo, mas dentro não havia joias. Havia uma navalha de barbear, de lâmina fria e afiada.
— Escute-me bem — sussurrou Eulália, segurando o rosto da filha com uma força desesperada. — O Dr. Rodrigo virá. Ele exigirá o sangue no lençol para selar a honra do seu pai. Se ele não encontrar, seremos jogadas aos cães.
Maria Eduarda recuou, os olhos cheios de lágrimas, mas Eulália não cedeu. — Na noite de núpcias, quando as luzes se apagarem, você usará isto. Um corte rápido na parte interna da coxa. O sangue que Bento lhe roubou será substituído pelo sangue que você mesma derramará. A dor da navalha será o preço do nosso segredo.
Eulália guardou a navalha sob o travesseiro de Maria Eduarda. O pacto estava selado: a virgindade seria uma encenação sangrenta, uma última mentira esculpida na carne para que a Fazenda Santa Isabel continuasse a parecer um paraíso.
No isolamento do quarto, Eulália não trazia apenas a navalha, mas também um frasco de vidro escuro, cujo conteúdo exalava um odor metálico e de ervas apodrecidas. Com o rosto endurecido pela determinação, ela serviu o líquido em uma caneca de estanho.
— Beba tudo — ordenou, segurando o queixo da filha com força. — É uma infusão de arruda, sabina e metais que comprei de uma velha na vila. Se aqueles negros deixaram alguma semente de sua raça dentro de você, este remédio a expulsará.
Maria Eduarda bebeu, sentindo o líquido queimar sua garganta e descer como veneno para o ventre já castigado, enquanto Eulália limpava o canto da boca da filha, preparando-a para ser a noiva impecável que o mundo exigia.
Na semana seguinte ao som das rodas da carruagem contra o cascalho da entrada soou como uma sentença de morte para Maria Eduarda. No andar de cima, ela foi obrigada a se vestir com a ajuda de Eulália, que apertou o espartilho com uma firmeza punitiva, ignorando os gemidos de dor da filha. Cada movimento fazia a inflamação em seu corpo protestar, uma queimação constante que a lembrava da brutalidade de Bento.
— Sorria — ordenou Eulália, retocando o pó no rosto pálido da jovem. — Esconda esse olhar de bicho acuado. Se ele perceber que você teme o toque, ele investigará o porquê.
Quando desceram as escadas, o Dr. Rodrigo estava de pé no centro da sala. Ele vestia um terno escuro impecável. Ao lado dele, o Coronel Matias exibia um sorriso triunfante, como quem apresenta um troféu valioso.
— Dr. Rodrigo — disse o Coronel, a voz trovejando orgulho — apresento-lhe minha filha, Maria Eduarda. Como eu lhe prometi, uma joia lapidada no recolhimento e na castidade.
Rodrigo caminhou em direção a ela. Bento, posicionado estrategicamente no canto da sala para servir o vinho, não desviava os olhos da cena. O capataz assistia a tudo com um sorriso de soslaio, saboreando a ironia de ver o nobre beijar a mão que antes, agarrava o feno em desespero.
Quando Rodrigo tomou a mão de Maria Eduarda, ele sentiu a frieza da pele dela e o leve tremor que a mãe não conseguira conter.
— É uma honra, senhorinha — disse ele, a voz calma e profunda. — Seu pai falou muito de sua virtude. Confesso que, nesta capital tão cheia de vícios, encontrar uma alma que parece nunca ter conhecido a maldade é um alento.
Ele permaneceu segurando a mão dela por um segundo a mais do que o necessário, seus olhos fixos nos dela, buscando algo além da superfície. Maria Eduarda sentiu uma onda de náusea. O peso da navalha escondida sob o colchão em seu quarto parecia queimar em sua mente.
Durante o jantar, a dor física de Maria Eduarda tornou-se uma tortura silenciosa. O inchaço e a sensibilidade tornavam o ato de sentar-se uma agonia que ela mascarava cravando as unhas na própria palma da mão.
Rodrigo, observador por profissão, notou a rigidez da noiva. — A senhorinha parece desconfortável — comentou ele, com uma gentileza que escondia um escrutínio agudo. — O clima da fazenda está pesado hoje, ou é a minha presença que lhe causa esse nervosismo?
Eulália interveio antes que o silêncio de Maria Eduarda se tornasse uma confissão. — É apenas o recato, Doutor. Minha filha foi criada para este momento, e a proximidade do compromisso a deixa... sensível.
Rodrigo sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. Ele olhou para Bento, que servia o vinho, e depois de volta para Maria Eduarda. Havia algo na atmosfera daquela casa que não cheirava a incenso, mas a medo.
Ao final da noite, quando Rodrigo se retirou para os aposentos de hóspedes, Maria Eduarda voltou ao seu quarto, escoltada pela mãe. Eulália fechou a porta e foi direto para a cama, tateando sob o travesseiro até sentir o metal frio da navalha.
— Ele é inteligente demais — sussurrou Eulália, o pânico começando a vazar por sua máscara de ferro. — Ele vai procurar sinais. Você terá que ser convincente. Amanhã, no altar, e depois, na alcova... lembre-se: o sangue que sairá de você amanhã à noite é o que salvará seu pescoço da forca social.
Maria Eduarda desabou no chão após a saída da mãe, abraçando as próprias pernas, o corpo ainda pulsando com a dor da violação e a alma aterrorizada pela mutilação que teria que cometer contra si mesma para sobreviver a um casamento falso.
O casamento fora uma névoa de incenso e palavras latinas que Maria Eduarda mal ouviu. Agora, no quarto nupcial da fazenda Araruna, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo estalar das velas que se consumiam. O Dr. Rodrigo, já sem o paletó e com a camisa entreaberta, observava a esposa com uma calma analítica que a aterrorizava.
As dores no corpo de Maria Eduarda haviam passado. Quando Rodrigo a conduziu para a cama, o peso do corpo dele sobre o seu fez cada fibra de seus músculos protestar.
Durante o ato, Maria Eduarda entregou-se a uma atuação desesperada. A cada estocada de Rodrigo, que atingia as áreas ainda sensíveis e inchadas, ela deixava escapar gemidos arrastados e sofridos. Para o marido, aqueles sons eram o despertar da inocência, a mistura de dor e prazer que ele esperava de uma virgem; para ela, eram gritos de socorro camuflados. Ela cravava as unhas nos lençóis e soltava suspiros trêmulos, escondendo o rosto no ombro dele para que ele não visse as lágrimas de agonia física que brotavam de seus olhos.
Quando Rodrigo finalmente se deu por satisfeito e o peso de seu corpo se afastou, ele se acomodou ao lado dela, mergulhando em um sono pesado e confiante. Maria Eduarda, porém, permanecia alerta, o coração martelando contra as costelas. Era a hora do ato final.
Com a mão gelada e trêmula, ela tateou o vinco do colchão até sentir o toque gélido do aço. Sob o lençol de linho branco — que continuava imaculado, pois a brutalidade de Bento não deixara marcas visíveis para um leigo — ela posicionou a navalha contra a pele macia da parte interna de sua coxa.
Ela cerrou os dentes e cortou.
A dor aguda e súbita da lâmina rasgando a carne foi um choque elétrico. Um gemido baixo, desta vez real e carregado de um estranho alívio, escapou de seus lábios. Ela sentiu o calor viscoso do sangue jorrar e se espalhar, ensopando o lençol e criando a mancha rubra que selaria sua "honra". Limpou o metal na própria pele, escondeu a arma do crime e fechou os olhos, esperando que aquele sangue sacrificado fosse o suficiente para aplacar a sede de verdade do marido ao amanhecer.