O Homem de 60 Anos - Parte 01

Eis o homem de sessenta anos: o peito peludo e branco, a cara peluda e branca, o pau veiudo babando. Até certo ponto você espera um ser arquejante de pés rachados, portanto se assusta quando tromba o fodedor perfumado com relógio apertando o pulso e camisa marcando o braço.
— Faz biquinho, faz — disse ele. — Isso, faz assim com a boquinha.
Você não tá entendendo nada. Vou começar de outro jeito.

Seu nome é Ricardo. É representante comercial de uma empresa de artigos de papelaria e aparecia todo mês no escritório em que eu trabalhava para renovar suas vendas e manter a boa relação. Foi assim que nos conhecemos. Tem dois filhos adultos, porque foi casado com mulher, e três netos.

Tento pôr ordem nos acontecimentos: as primeiras vezes, segundas e terceiras, ápices e inflexões. Quando nos vimos, nos falamos, o som de sua voz, minha baixa autoestima decidindo por mim, agindo por mim. Mas as memórias que tenho são tão irrefreáveis quanto ele próprio. Se impõem sobre minha vontade. Fazem de mim seu servo.

A gente já tinha entendido, deixado claro através de olhares, o desejo que havia entre nós. Sabíamos onde queríamos chegar. Faltava a oportunidade. Ele parou em minha mesa e puxou assunto. Pareceu escandaloso o simples ato de me dar atenção em voz alta diante de todos. Não me lembro do assunto ou o que respondi. Mas me lembro daquelas mãos sobre a superfície da mesa. O tamanho e a firmeza. Ele a deslizava, pressionava, depois batia o dedo no tampo. Unhas cortadas. Pelos, veias. A pulseira vermelha de sete nós para proteção. A partir da mão pode-se vislumbrar o resto de um corpo, sua vitalidade, seus estados ao longo do tempo, passado e futuro. A partir da mão, eu juro, eu vi tudo.

Outra lembrança.

Pulo da cama e paro na porta para olhá-lo. Dou um tapa na minha bunda e digo vem. Ele vem. Estamos no apartamento que eu alugara num átimo de ousadia, jurando que conseguiria pagar. Tinha acabado de pegar as chaves, tudo o que havia era uma garrafa d’água, o lençol quadrado no chão de madeira e dois putos pelados molhando tudo. Num canto esquecido, tênis, cuecas, mochilas jogados. Ele vem. O pênis rígido balança a cada passo, úmido, recém-saído de dentro de mim, lustrado pelo próprio esperma que jorrou lá dentro. "Vai servir seu macho?", pergunta. Dá um passo largo e me alcança na sala. Enreda os dedos em meu cabelo e me estica o pescoço, desliza a língua, aperta coxas, vai fincando as unhas para marcar posse. O membro se acomoda entre minhas nádegas, ele afasta e aproxima o quadril, quer entrar sem usar as mãos. Me esfrego, desço e subo. "Mia pra mim, meu gatinho", diz ele. "Faz miau".

"Miau".

Ele solta um urro e entra fervendo, crepita, irradia minhas tripas, pulsa como um coração na linha de chegada. Ele gosta quando topo suas brincadeiras. Eu gosto também. Reviro os olhos. Chego a babar ao senti-lo metendo. Eu aceitei todos os jogos desde o início sem saber que os limites seriam alargados encontro a encontro. Mas o que é o sexo senão isto: sorrir olhando nos olhos, aceitar tudo, até mesmo a morte, fazer juras e subjugar-se, oferecer a vida para alcançar o fim?

Você me acha exagerado, mas vai acabar concordando comigo.

Eu estava para fazer 30 anos. Queria tomar atalho, ganhar dinheiro e não falar mais com a família. Eu estava pronto para ter outra vida. Ricardo ouvia meus desejos com o mesmo meio sorriso até o fim. Não dizia nada. Nos beijávamos e o encontro seguia o curso de outras vezes. Me pergunto se, com o pênis guardado, eu o entediava. Faço suposições. O homem de 60 já desvendou os 30, já lambeu 30 bundas, encheu de porra 30 cus. Aprendeu 30 jeitos diferentes de se manter vivo no mundo. Ele sabe que irei gemer manhoso assim que meter a língua na minha. Ele sabe que o servirei porque o que mais anseio é roubar um pouco de sua destreza, sua exibição coronária, seu balanço de quadris enquanto resolve problemas, recebe recompensas e segue adiante por mais um dia, como se cada dia fosse novo.

Ricardo e eu nos relacionamos durante um ano e três meses. Houve eleição, processos jurídicos por conta da inteligência artificial, casas desabaram na serra paulista durante o período das chuvas. Eu poderia contar a história do Brasil como moldura de nosso sexo. Ou o contrário. Eu talvez tivesse ideia de como a inflação chega na minha cozinha, como as decisões na câmara de vereadores marcham na minha rua. Mas nunca tinha me perguntado como essas coisas rastejam para debaixo da cueca. Como a cultura, os ideais de beleza e os reality shows trazem e levam um homem. A história do Brasil se inscreve na borda de meu cu. Em um ano e três meses eu coletei os olhares, os cuspes, os jatos. Criei um museu com o nome: o homem e suas posses.

Este relato é uma visita guiada.


Faca o seu login para poder votar neste conto.


Faca o seu login para poder recomendar esse conto para seus amigos.


Faca o seu login para adicionar esse conto como seu favorito.


Twitter Facebook

Comentários


foto perfil usuario mordred24

mordred24 Comentou em 22/01/2026

Você escreve bem. Tomara que continue logo a sequência de experiências com o Coroa de 60 anos.




Atenção! Faca o seu login para poder comentar este conto.


Contos enviados pelo mesmo autor


Ficha do conto

Foto Perfil erosdando
erosdando

Nome do conto:
O Homem de 60 Anos - Parte 01

Codigo do conto:
252678

Categoria:
Coroas

Data da Publicação:
19/01/2026

Quant.de Votos:
2

Quant.de Fotos:
0