Saí de casa com o corpo em alerta, a mente inquieta, como se algo estivesse me puxando pelo instinto. O destino era claro. O cine adulto no coração de Vitória me recebeu em silêncio, envolto naquele escuro cúmplice que parece guardar segredos de quem entra disposto a se perder.
Fiquei no canto por alguns minutos, respirando fundo, deixando os olhos se acostumarem à penumbra. Ali, ninguém pergunta nomes. Os olhares falam mais que qualquer palavra. Quando me senti parte do ambiente, caminhei lentamente até o fundo, onde o ar parecia mais denso, mais carregado de intenção.
Sentei-me em uma daquelas cadeiras que não existem por acaso. Postura aberta, expectativa contida. Não demorou. A presença se anunciou primeiro pelo calor, depois pelo toque seguro. Um homem se aproximou sem dizer nada, ajoelhando-se como se já soubesse exatamente o que eu queria. Fechei os olhos. O tempo ali funciona diferente. Quando a tensão ameaçou transbordar, um gesto meu foi suficiente para mudar o rumo.
Ele se levantou, e os papéis se inverteram. O gosto do proibido, o risco do olhar alheio, tudo se misturava. Outros dois se aproximaram, formando um círculo silencioso, atento, faminto. Não havia pressa, só entrega. Cada um à sua maneira, cada momento guardado na memória como uma chama acesa no escuro.
Levantei-me. Os corpos se encontraram naquela dança sem coreografia, pele contra pele, respiração acelerada. Um deles me tomou por trás, urgente demais para controlar o próprio desejo. Mal começou e já era fim. Sorri por dentro.
Outro assumiu o lugar com mais calma, mais presença. O tempo voltou a desacelerar. Ao lado, o mais intenso de todos apenas observava, tocando-se, deixando o próprio prazer crescer até não caber mais. Quando aconteceu, foi como um ponto final silencioso em uma frase que ninguém ali esqueceria.
Saí do cine com o corpo leve e a mente em brasa. Algumas histórias não precisam ser contadas em voz alta. O escuro sabe guardá-las bem.