A academia sempre foi um lugar neutro pra mim. Até ela aparecer.
Loira, quarenta anos, corpo normal — nada exagerado, nada feito pra chamar atenção. Ainda assim, chamava. Havia algo na postura, na forma concentrada como ajustava os pesos, como se o mundo ao redor não importasse. Aliança no dedo. A minha também estava lá.
Nos conhecemos sem nos conhecer. Primeiro no espelho. Depois dividindo aparelhos. Frases curtas, educadas demais pra esconder o que crescia no silêncio entre uma série e outra.
Descobri que ela morava na Granja Viana, condomínio SP2. Um detalhe que ficou ecoando na minha cabeça mais do que deveria. Talvez porque combinasse com ela: organizada por fora, cheia de tensão por dentro.
Nunca falamos de desejo. Nunca foi preciso. Bastava o jeito como ela me observava ajustar os pesos. Ou como demorava um segundo a mais pra tirar o fone quando eu falava.
Tudo permaneceu sob controle… até não ficar mais.
Naquela noite, saímos quase juntos. O estacionamento estava úmido da chuva fina que caía desde o fim da tarde. Ela caminhava alguns passos à frente. Eu poderia ter ido embora. Devia ter ido.
— Você vai embora agora? — perguntei, mais baixo do que o normal.
Ela virou devagar. — Vou… mas sem pressa.
Ficamos ali, entre os carros, como dois adolescentes fingindo maturidade. Conversa boba. Comentários irrelevantes. Tudo menos o que realmente importava.
Até que ela abriu a porta do carro e, antes de entrar, me olhou de um jeito diferente. Não era mais a mulher concentrada da academia. Era alguém que já tinha decidido.
— Quer continuar essa conversa… sentado? — disse, apontando pro banco do passageiro.
Entrei.
O carro fechou, isolando o mundo. O cheiro do perfume dela era mais forte ali. O silêncio, mais denso. Falávamos de qualquer coisa, mas nossos corpos já tinham parado de fingir.
Ela virou o rosto na minha direção. — Isso é uma péssima ideia — murmurou.
— Eu sei.
Ficamos próximos demais para recuar. Não houve pressa. Nenhuma mão apressada. Apenas aquele espaço mínimo entre nós, carregado de tudo o que evitamos sentir por semanas.
O beijo aconteceu como se fosse inevitável. Lento. Contido. Um beijo que dizia “eu resisti até onde deu”. Quando nossos lábios se tocaram, senti que não era só desejo — era reconhecimento.
Ela fechou os olhos por um instante, depois se afastou só o suficiente pra sussurrar: — Isso não vai ser simples.
Respondi sem pensar: — Nada que vale a pena é.
Ela sorriu. Um sorriso cúmplice. Perigoso.
Saí do carro com a certeza de que aquele beijo tinha mudado tudo. Ou talvez só tivesse revelado o que já existia desde o primeiro olhar no espelho da academia.
E, enquanto ia embora, percebi:
não era o fim de uma traição.
Era o começo de uma história que nenhum de nós planejou… mas ambos aceitaram.
Conitnua....