Água e Ouro

A estrada que levava a São Jerônimo do Vale não era feita apenas de asfalto — era feita de memória.

Curvava-se pelas montanhas de Minas Gerais como se obedecesse a um traçado antigo, anterior a mapas, anterior a decisões humanas. Havia trechos em que o nevoeiro se deitava sobre o caminho como um véu, e o ônibus atravessava aquela bruma com a solenidade de quem invade um segredo.

Diego não dormia.

Mantinha os olhos fixos na janela, acompanhando o ritmo irregular das árvores, dos barrancos, das cercas tortas que apareciam e desapareciam como pensamentos mal resolvidos. No reflexo do vidro, via o próprio rosto — mais duro do que lembrava, mais fechado.

O motorista quebrou o silêncio:

— Primeira vez no Vale?

Diego demorou um segundo para responder.

— É.

O homem assentiu, como quem já sabia.

— Terra boa… — disse, puxando o ar com satisfação — café forte, povo quieto.

Uma pausa.

— E muita história.

Diego desviou o olhar.

— História boa ou ruim?

O motorista deu um sorriso enviesado, desses que evitam compromisso.

— Aqui, moço… história nunca é só uma coisa.

O ônibus freou com um leve solavanco. Parada.

Uma mulher entrou carregando uma cesta coberta por um pano de prato bordado. O cheiro veio antes dela — café recém-passado, quente, denso, com aquele amargor doce que invade a memória antes mesmo de chegar à boca.

Ela se acomodou no banco ao lado de Diego sem pedir licença.

— Aceita um? — perguntou, já estendendo um copinho de alumínio.

Diego hesitou. Não pelo gesto — mas pela familiaridade dele.

— Obrigado.

O café queimou levemente sua língua. Era forte, quase agressivo.

— Não é daqui, né? — disse a mulher, observando-o de lado.

— Dá pra perceber?

— Dá. Quem é daqui não olha as montanhas assim.

— Assim como?

Ela deu de ombros.

— Como se estivesse procurando alguma coisa nelas.

Diego não respondeu.

Porque estava.

O ônibus voltou a andar. A paisagem mudou aos poucos — as montanhas se abriram, revelando pequenas casas espalhadas, telhados de barro, varais com roupas que dançavam no vento. Ao longe, uma igreja branca surgia no alto de uma colina, como se vigiasse tudo.

A mulher ao lado continuou:

— Vai trabalhar na mineração?

A pergunta veio direta demais.

— Vou.

— Com o seu Carlos?

Agora não era mais curiosidade.

Era conhecimento.

Diego virou o rosto lentamente.

— Você conhece ele?

Ela soltou um riso curto.

— Aqui, meu filho… a gente não precisa conhecer. A gente sabe.

Silêncio.

O tipo de silêncio que não encerra a conversa — apenas a aprofunda.

— Dizem que ele manda mais que prefeito — continuou ela, ajustando o pano da cesta. — Mais que padre, às vezes.

— Dizem muita coisa — respondeu Diego, firme.

— Dizem mesmo.

Ela o encarou por um instante mais longo.

— Só cuidado pra não acreditar em tudo… nem desacreditar também.

O ônibus reduziu a velocidade.

— São Jerônimo! — gritou o motorista.

Diego se levantou. Pegou a mala.

Antes de descer, a mulher tocou levemente seu braço.

— Moço…

Ele virou.

— Quem chega aqui com pergunta demais… geralmente não gosta das respostas.

Diego sustentou o olhar dela.

— Eu não vim gostar.

Desceu.

O ar da cidade era diferente — mais frio, mais seco, como se carregasse partículas invisíveis de algo antigo. O chão de pedra irregular exigia atenção, como se cada passo precisasse ser consciente.

A praça principal estava quase vazia. Um cachorro dormia à sombra de um banco. Um grupo de homens conversava baixo perto de um bar. Ao fundo, o sino da igreja soou uma vez — grave, lento.

Diego caminhou alguns passos.

Parou.

Olhou ao redor.

Aquilo não era apenas um lugar.

Era um sistema.

E ele estava entrando nele.

Com a mão dentro do casaco, retirou um papel dobrado. Abriu com cuidado. As letras estavam gastas nas dobras repetidas:

Relatório técnico: falha estrutural. Óbito imediato.

Abaixo, um nome:

João Ferraz.

Seu pai.

Diego fechou os olhos por um instante.

E então amassou o papel lentamente.

— Acidente… — murmurou, quase sem som.

Guardou o papel de volta.

Levantou o olhar.

No alto da cidade, acima das casas e da igreja, as montanhas se erguiam — silenciosas, impenetráveis.

Guardando o que ninguém queria dizer.

— Eu sei que não foi — disse, agora em voz baixa, mas firme.

E começou a caminhar.

Sem saber que, naquele exato momento, em uma casa ampla do outro lado da cidade, alguém já havia sido informado de sua chegada.

E estava esperando.


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Ficha do conto

Foto Perfil Conto Erotico castrobi

Nome do conto:
Água e Ouro

Codigo do conto:
257043

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
17/03/2026

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