No concreto e na pele. Parte 1/9

O prédio ainda era só ossos.
Vigas expostas, cheiro de poeira úmida e o vento atravessando os andares vazios como um sussurro constante. Àquela hora da manhã, a obra estava deserta, era cedo demais até para os primeiros operários.
Paulo gostava disso. Gostava do silêncio antes das máquinas, antes das vozes, antes de precisar ser o homem firme que todos esperavam. Caminhava em direção ao terceiro andar, conferindo tudo com o olhar experiente de quem passara a vida entre concreto e ferrugem.
Foi quando ouviu o som de um arrastar fraco. Irregular.
Ele parou. Resolveu perguntar:
— Tem alguém aí?
Nenhuma resposta. Claro, nunca tinha ninguém da obra naquele horário.
O som veio de novo, atrás de uma pilha de sacos de cimento. Paulo contornou devagar, o coração acelerando por um motivo que ele não saberia explicar.
Um homem estava no chão, apenas de cueca rasgada, coberto de poeira branca que parecia o pó do concreto onde ele estava deitado, como se tivesse sido moldado junto com o próprio prédio. A pele marcada de frio, um corte seco na lateral da cabeça já escurecendo.
Paulo ajoelhou-se ao lado dele.
— Ei… você tá me ouvindo?
Os olhos do desconhecido abriram devagar. Escuros. Perdidos. Bonitos demais para aquela cena.
— Onde… eu tô? _ A voz saiu áspera.
— Num prédio em construção e como entrou aqui? Desse jeito...
O homem piscou várias vezes, como se a informação não fizesse sentido.
— Eu não sei... eu estava acompanhado por... _ E então fechou os olhos de novo, exausto.
Paulo passou a mão pelos próprios cabelos grisalhos, sentindo algo estranho crescer dentro do peito — uma mistura de preocupação, curiosidade… e uma atração inesperada que ele não experimentava havia meses. Talvez anos.
— Certo, garoto _ murmurou _ você vai me explicar isso quando acordar direito.
Mas já sabia que aquela manhã tinha quebrado alguma coisa na rotina. E que nada ali voltaria a ser simples.
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Do outro lado do terreno, Gabriel observava.
Ele havia chegado cedo para sua meditação antes de entrar na obra, uma atitude que o ajudava desde que perdera Teo, dois anos antes. O movimento dos operários, os ruídos, a vida acontecendo… e ele ali de olhos fechados e na tentativa de concentrar ajudavam a preencher o silêncio do apartamento vazio.
Mas naquele dia havia algo diferente. Viu quando Paulo saiu apressado, apoiando o desconhecido pelos ombros, levando-o para o container do escritório. Gabriel parou atrás da grade, os dedos apertando o metal frio. Observador por natureza. Solitário por circunstância. Sentiu um arrepio percorrer o corpo pesado. Algo estava começando ali.
Ele só não sabia ainda que também faria parte disso.
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Paulo saiu do escritório deixando o moço ali, deitado na pequena longarina do seu espaço de trabalho indo até o estacionamento, sabia que tinha algumas peças de roupas ali .Demorou alguns segundos dentro do carro antes de sair.
O motor já desligado, o silêncio pesado, o cheiro familiar de estofado aquecido pelo sol da manhã. Ele apoiou as mãos no volante, respirando fundo, tentando organizar o turbilhão estranho que havia tomado conta dele desde que encontrara o rapaz no chão da obra.
Foi então que percebeu.
A mancha discreta no tecido da calça. Ele ficou excitado vendo aquele homem de cueca. Que bizarro, ele pensou, pois o rapaz estava machucado e ele sendo atraído pela pele e pelo volume discreto e mole da cueca.
Prendeu a respiração, como se alguém pudesse vê-lo ali dentro, sozinho. Passou a mão pelo rosto, irritado consigo mesmo, com a situação, com o próprio corpo reagindo de forma tão involuntária quanto inconveniente.
— Que merda… _ murmurou.
Não era excitação simples. Era tesão acumulado por semanas de silêncio, rotina e desejos empurrados para debaixo de camadas de concreto emocional.
Pegou a calça e a camiseta no banco de trás e saiu do carro sem olhar para trás.
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Quando voltou ao container, o estranho permanecia sentado, os ombros caídos, os olhos acompanhando cada movimento como se ainda tentasse entender o próprio lugar no mundo.
Paulo deixou as roupas ao lado dele.
— Trouxe isso.
Deitado ainda, o homem tocou o tecido devagar, como se fosse algo precioso.
— Você pode… me ajudar? Eu ainda tô meio tonto.
O pedido saiu baixo, quase constrangido.
Paulo assentiu.
Ajudou-o a levantar, sentindo novamente a instabilidade no corpo dele. Quando puxou a cueca rasgada para baixo, fez isso com cuidado, lento e acolhedor demais para alguém que sentia o coração batendo tão forte.
Mas o jovem percebeu. Não disse nada. Apenas desviou o olhar por um instante, respeitando um silêncio que parecia importante para os dois. Vestir a calça foi mais difícil. Ele apoiou as mãos nos ombros de Paulo, a testa quase encostando na dele por um segundo longo demais.
Respirações misturadas.
Nenhum comentário.
Quando terminaram, Paulo deu um passo para trás rápido, como se precisasse recuperar ar.
O rapaz abriu a boca pra falar...
- Não sei muita coisa, na verdade não lembro... mas o meu nome é Hugo. Sou de Belo Horizonte.
Paulo ficou em silêncio olhando para o rapaz que agora estava recomposto.
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Do lado de fora, Gabriel assistia a tudo através da abertura estreita da porta mal fechada.
O gesto cuidadoso. A proximidade. O tempo que demoraram.
Seu peito apertou com uma mistura de curiosidade e algo mais quente, mais urgente, que ele não sentia havia muito tempo. Ficou ali, imóvel, observando como quem invade um momento que não lhe pertence.
Interpretou à sua maneira. E foi embora antes que o coração denunciasse sua presença.
“Então é isso”, pensou.
“Paulo continua com suas aventuras e não precisa mais de mim.”
A conclusão doeu mais do que ele gostaria de admitir. Ainda atordoado, Gabriel quase não viu quando esbarrou em alguém no caminho.
— Desculpa.
O jovem operário apenas inclinou a cabeça, aceitando o pedido sem falar nada.
Foi então que Gabriel notou a mão direita dele envolta em uma faixa de gaze muito branca limpa demais, recém-colocada, como se o ferimento tivesse acontecido há pouquíssimo tempo. Não havia poeira, nem marcas de uso, apenas o contraste estranho daquele branco quase clínico no meio do cinza da obra.
Aquilo não combinava com nada ali. Gabriel abriu a boca como se fosse perguntar algo, mas o rapaz já havia seguido. E ele também.
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Paulo deixou Hugo sentado na cadeira do pequeno escritório improvisado. Foi ao refeitório buscar uma água. Ali encontrou Gabriel e pensou que seria melhor ter uma testemunha do fato. Levou o companheiro de trabalho ao escritório e explicou a Gabriel, de forma seca, o que tinha acontecido.
- Encontrei ele desacordado lá em cima. Não lembra de nada direito. Disse que mora em BH.
Gabriel observou o rapaz em silêncio. Hugo parecia deslocado dentro do próprio corpo, os olhos percorrendo o ambiente como se procurassem alguma âncora na realidade.
- A gente precisa levar ele num hospital _ Gabriel disse por fim.
Paulo concordou com um aceno curto, mas saiu antes que qualquer outra conversa começasse. Precisava de ar. De silêncio. Ou de qualquer coisa que o afastasse da confusão que estava se formando dentro dele.
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O banheiro da obra estava vazio.
Porta trancada, placas de metal que fazia seu papel de parede, bem frias, o eco do próprio respirar. Paulo apoiou as mãos na pia por alguns segundos, encarando o próprio reflexo cansado. Havia anos que não se sentia assim: desestabilizado, inquieto, tomado por impulsos que julgava enterrados.
Abriu o zíper da calça, passou a mão pela cueca sentindo seu cacete engrossar ali dentro. Ele amava essa sensação. Enfiou a mão sem tirar o seu pau pra fora. Masturbava lentamente, sua mão abraçava o membro agora já rigído, melado... era um tamanho que não incomodava, mas que tinha presença. Ele fazia questão de medir: 18 cm. A sensação da punheta dentro da cueca era deliciosa. Mas como de costume nesses momentos de improvisação gozou logo. E na cueca, queria deixar a porra se misturar com seu suor do dia. Já tinha feito isso e sabia que chegaria em casa e tomaria um belo banho com aquele cheiro de putaria.
Quando finalmente saiu da cabine, ainda evitando olhar diretamente para o espelho, percebeu que não estava mais sozinho.
Leonard, o estagiário, estava encostado na pia ao lado, lavando as mãos com calma, como se estivesse ali havia tempo suficiente para entender tudo sem ter visto nada.
Jovem demais. Seguro demais. Ele ergueu os olhos pelo reflexo do espelho e sorriu de canto.
— Dia puxado já, hein?
A frase parecia simples, mas o tom tinha outra camada, como se dissesse mais do que as palavras permitiam. Paulo não respondeu e apenas saiu. Mas sentiu aquele olhar nas costas até a porta se fechar.
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Gabriel levou Hugo ao hospital no próprio carro.
O trajeto foi silencioso, interrompido apenas pela respiração irregular do rapaz e pelo som dos pneus no asfalto quente.
Já na sala de espera, pouco antes de ser chamado para os exames, Hugo apertou a própria testa, como se tentasse segurar uma lembrança escorregadia.
— Eu… eu tava num hotel…
Gabriel se inclinou na mesma hora.
— Que hotel?
— Não sei… as paredes eram verdes… tinha um notebook branco na mesa… e… — ele fechou os olhos com força — eu preciso encontrar o chef de cozinha.
— Chef?
Hugo assentiu, confuso, como se a palavra fosse a única coisa sólida naquele vazio de memória.
Gabriel pegou um pedaço de papel amassado que encontrou no bolso e anotou tudo rapidamente, com medo de que aquelas informações evaporassem.
Minutos depois, Hugo foi chamado para os exames.
Gabriel ficou do lado de fora, sozinho, segurando o papel entre os dedos, sentindo que aquelas poucas palavras eram o primeiro fio de um novelo muito maior.
E que puxá-lo mudaria a vida de todos eles.
Do lado de fora, o dia seguia normal.
Mas algo havia começado.
Algo que nenhum deles ainda conseguia ver por inteiro.

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Ficha do conto

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juliobear

Nome do conto:
No concreto e na pele. Parte 1/9

Codigo do conto:
257177

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
18/03/2026

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