Logo quando nasceu, esperavam que ele tivesse o saco roxo. Eram o que os avós antigos diziam e, felizmente, hoje não dizem mais. Pra quê esse inutilismo? A cor da pele é apenas um pigmento natural pra ajudar a proteger do sol. Independente dele ser africano, europeu, asiático, miscigenado, indígena... Quando era pequeno, todos ao redor já planejavam uma vida pra ele. Estudar e trabalhar sem descanso, como um perfeito soldadinho/robozinho escravo de uma estrutura social falida. Ainda na infância, o deixavam brincar de "polícia e ladrão", de estilingue, de futebol, de lutinha. Ensinaram a ele as merdas que ele deveria enfrentar, apostar a vida em atividades primitivas e violentas. Quando muito - se ele percebesse essa merda que estavam jogando pra cima dele - ele iria brincar com seus carros, aviões, navios, computadores, rádios e telescópios. Iria para a escola encontrar outros amiguinhos e ficaria em desespero com a falta de algum parente. "Homem não chora", repetiriam essa merda desgraçada na cara dele de vez em quando. Pra quê esse inutilismo? O homem é o que consegue ter as emoções com a melhor qualidade. Vocês é que nunca falam isso pra ele. Preferem contar pra ele a mentira de que são as mulheres que são mais sensíveis. Mas depois ele cresceu, começou a chorar menos, começou a fazer as necessidades sozinho, aprontou várias. Certamente apanhou mais, porque o "homem deve aguentar mais a dor física do que a mulher". Mesmo ele descobrindo, anos mais tarde, que no BDSM as mulheres é que mais curtem levar uns tapinhas de leve. Enfim, ele chegou na adolescência, o corpo dele vai se desenvolver um pouco melhor que o da mulher. É a benção da genética masculina. Talvez ele tenha sentido vergonha das espinhas, de ter ficado de pênis duro algumas vezes pensando em alguma menina mais bonitinha, de estar confuso demais sobre essas tais mudanças físicas, até dos pelos da barba e do sovaco aumentarem. Mas para isso bastaria ele aprender sobre a depilação e, com um boa espuma e barbeador novo, ficaria lisinho e limpinho como sempre. Mas preferem dizer pra ele que mulher gosta de homem "cabeludo". Aliás, dizem pra ele agora que cabelo muito grande é coisa de mulher. Que incontáveis detalhes de roupas e acessórios já estão definidos. Que ele, como "homem", deve respeitar as mulheres e parar de se comportar como uma criança na frente delas, nas ruas, nos bares, nas festas, nos empregos... Pra quê esse inutilismo? Se, a hora que o homem cresce e aprende as habilidades ditas como "femininas", ele já tem toda a base para viver sozinho e nunca depender de relacionamentos cagados. É aí que ele estuda, vai para a faculdade, se forma em tudo. Entra para um curso técnico, aprende algumas línguas e ruma ao emprego. Em algum momento ele sonhou com uma esposa bem bonita e desejável, já deve ter tido algumas experiências sexuais com namoradinhas, ou então pagou uma prostituta normalmente. E onde estão os sentimentos dele? O "amor" para ele só se resume a alusão sexual da mulher? Repetida exaustivamente pelas incontáveis donzelas que se vestem com pouquíssima roupa na rua? Pelas revistas "masculinas" e pornografia que ele encontrou aqui e ali? Neste ponto, a vida dele já está feita e definida. É assim que o homem vive. Independente dele ser o filho do riquinho, do banqueiro, do empresário, do cineasta, do músico... indo até o filho do pedreiro, do carpinteiro, do cozinheiro, do policial, do motorista. É sempre a repetição de uma masculinidade que segue um roteiro bem bosta. Conforme os anos passam, aumenta a amargura. Ele desconta tudo na cerveja e no cigarro. São produtos "de homem", ele diz a si mesmo, para aliviar o stress de uma rotina entediante e mortífera do trabalho. Pra quê esse inutilismo? Enquanto a mulher curtiu muito mais, dançou muito mais, foi mais paparicada ao longo dessa vida, ele ficou lá se lamentando e internalizando, erroneamente, que aquilo era "apenas a vida de homem". Mas, se ele detestar a hipocrisia e a contradição, detestar tudo que o machuca e o humilha, detestar padrões já estabelecidos ou confusos demais, ele acorda! Ele acorda! Ele acorda para a realidade! Ele nunca mais vai construir uma cultura e comportamento para si mesmo, tomando de inspiração os benefícios do outros sexo, que sempre teve uma vida mais suave e saudável do que a dele. O da mulher. Ele vai usar os mesmo argumentos. Ter os mesmos benefícios. E foda-se o resto. Acordar é simples: basta você saber o quão fudido é o padrãozinho bosta de homem, que elas querem que você engula. Afinal, para quê ele deve se limitar a um roteiro de vida bem bosta? Você pode acordar aos 20, 30, 40, mas é sempre melhor acordar agora do que nunca. Deixe a sociedade inteira se matar nesse inutilismo.
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