O ambiente era diferente do que imaginava.
Nada exagerado ou vulgar. A iluminação quente, a música baixa e o aroma suave de baunilha criavam um clima elegante, quase acolhedor. As prateleiras exibiam lingeries delicadas, perfumes, velas e acessórios sofisticados organizados com cuidado.
Mesmo assim, Laura sentia o coração acelerar.
Ela caminhava lentamente pelo corredor, fingindo observar os produtos enquanto tentava controlar o constrangimento de estar ali sozinha. Foi então que aconteceu.
Ao virar uma esquina estreita entre duas estantes, esbarrou em alguém.
A caixa preta que segurava escapou de suas mãos.
— Meu Deus, desculpa… — ela começou, assustada.
Mas antes que a embalagem atingisse o chão, um homem a segurou com rapidez.
Os dois olharam automaticamente para o objeto.
E congelaram.
Na embalagem elegante, em letras discretas e sofisticadas, estava estampada a imagem de um cintaralho de luxo.
O silêncio durou dois segundos longos demais.
Laura fechou os olhos imediatamente.
— Ok… eu aceito desaparecer daqui nesse momento.
A risada baixa dele fez o rosto dela aquecer ainda mais.
— Honestamente? Essa foi a entrada mais memorável que alguém já fez numa conversa comigo.
Ela puxou a caixa rápido demais.
— Não é o que parece.
— Essa frase normalmente significa exatamente o contrário.
Laura tentou segurar o sorriso, mas falhou.
Ele tinha um jeito tranquilo que a deixava ainda mais desconcertada. Não parecia debochado nem invasivo. Apenas divertido… e interessado.
Vestia camisa escura com as mangas dobradas até os antebraços, e havia algo perigosamente seguro no modo como sustentava o olhar dela sem pressa.
— Você deve estar adorando isso — ela comentou.
— Um pouco — admitiu. — Mas admiro a coragem.
— Coragem?
— A maioria das pessoas passa meia hora fingindo interesse em velas aromáticas antes de chegar nessa seção.
Ela acabou rindo alto pela primeira vez.
A tensão inicial começou a virar outra coisa.
Curiosidade.
Química.
Enquanto conversavam, passaram a andar juntos pela loja quase sem perceber. Comentavam produtos absurdamente caros, embalagens sofisticadas demais e objetos cujo funcionamento nenhum dos dois admitia conhecer totalmente.
Em determinado momento, Laura percebeu que ainda segurava a caixa do cintaralho contra o corpo.
— Ah, não… eu esqueci de devolver isso.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Então talvez você realmente tenha vindo procurar velas aromáticas.
Ela o encarou por alguns segundos antes de responder:
— Talvez eu só tenha encontrado algo mais interessante.
O silêncio que veio depois fez o ar parecer mais quente.
Perto do fundo da loja havia um espelho grande cercado por luzes suaves. Laura lançou um olhar rápido para o reflexo dos dois e depois para a embalagem em suas mãos.
Uma ideia impulsiva atravessou sua cabeça.
— Você parece curioso demais sobre isso — ela provocou.
Ele sorriu de canto.
— Talvez um pouco.
Laura sentiu o coração acelerar outra vez. Então, movida pela mistura de vergonha, ousadia e adrenalina, abriu discretamente a embalagem.
— Isso é uma péssima ideia — murmurou, mais para si mesma.
Mas não parou.
Virando-se parcialmente para o espelho, ajustou o acessório rapidamente por cima da calcinha rendada que usava sob o vestido. O gesto foi rápido, quase uma brincadeira provocadora — ainda assim íntimo o suficiente para deixar o ambiente carregado de tensão.
Quando levantou os olhos, encontrou o reflexo dele observando-a pelo espelho.
O silêncio entre os dois ficou intenso.
Laura sentiu o calor subir pelo corpo inteiro.
— E então? — perguntou baixinho, tentando sustentar a confiança.
Ele demorou um instante antes de responder.
— Acho que você acabou de transformar uma terça-feira comum numa história impossível de esquecer.
Ela mordeu o lábio para conter o sorriso.
Pela primeira vez naquela noite, não desviou o olhar.
Lá fora, a chuva continuava caindo sobre a cidade enquanto, dentro da pequena loja iluminada, dois desconhecidos permaneciam presos naquele instante improvável — entre provocação, desejo e a sensação deliciosa de que algo inesperado acabava de começar.
pika-grossa-mg