Olá, tudo bem? Espero que curtam esse relato.
Tem certas situações que acontecem sem que a gente imagine que realmente poderiam virar alguma coisa. Essa foi exatamente uma delas.
Sempre peço pizza no mesmo lugar — daqueles estabelecimentos que a gente já conhece pela qualidade, pelo atendimento e até pela frequência. Eles vivem trocando os entregadores, então dificilmente vejo o mesmo rosto duas vezes.
Até que apareceu o Diego.
Moreno claro, cerca de 1,70m, corpo enxuto na medida certa, talvez uns 70 quilos. Não devia ter mais de 25 anos. Algumas tatuagens apareciam pelos braços enquanto segurava a caixa de pizza, e aquele bigodinho fino dava um ar de cara safado que parecia saber exatamente o efeito que causava.
Nas primeiras entregas, era tudo rápido: um cumprimento curto, o pagamento, um “valeu” quase automático e cada um seguia seu caminho.
Mas, aos poucos, alguma coisa mudou.
Numa noite comentou sobre o tempo. Na outra perguntou se eu sempre pedia os mesmos sabores. Depois começou a aparecer com aquele sorriso de quem já chegava procurando conversa. E eu percebia que ele demorava alguns segundos além do necessário na porta, como se estivesse esperando qualquer motivo pra prolongar a entrega.
Ele tinha aquela confiança despretensiosa de quem flerta naturalmente, sem esforço. Às vezes vinha sem capacete, o cabelo levemente bagunçado da corrida, a camiseta marcada no corpo e aquele jeito provocador escondido em comentários aparentemente inocentes.
Era sábado, começo de mês, temperatura baixa. Eu estava a fim de comer uma pizza e tomar um vinho pra dar uma relaxada depois de uma semana intensa. Resolvi pedir no lugar de sempre — pela qualidade e, admito, também pela chance de dar uma olhada no entregador que, puta merda… era um tesão.
O interfone tocou avisando que a pizza tinha chegado.
— Hoje a temperatura despencou de vez, né? — comentou enquanto tirava o capacete e esfregava as mãos por causa do frio.
— Frio desse jeito devia dar direito a ficar embaixo das cobertas o dia inteiro — respondi, pegando a pizza.
Diego riu baixo.
— Concordo. Trabalhar hoje tá sendo sofrimento.
— Pois é… clima perfeito pra ficar em casa sem fazer nada.
Ele deu aquele sorriso torto.
— Ou acompanhado.
Dei risada enquanto aproximava o cartão da maquininha.
— Aí já é privilégio de poucos.
— Pior que eu tô ultimamente só fazendo serviço sem nota…
Ele arqueou a sobrancelha na hora, segurando o sorriso.
— Ih… igual música sertaneja das perigosas.
— Sem garantia, sem recibo… e se der problema ninguém acha o responsável.
Ele segurou o sorriso de canto, passando a língua devagar pelos lábios antes de responder:
— Relaxa… diferente de muito serviço por aí, eu dou garantia.
— Ah é? E cobre o quê exatamente?
Diego aproximou um pouco mais o corpo da porta.
— Atendimento completo. Pós-venda, retorno técnico… e, se gostar, manutenção periódica também.
— Tá parecendo propaganda agora.
Ele riu baixo.
— Cliente satisfeito é a melhor divulgação que existe.
Continua