?Em uma destas noites, fui acordado pelo ranger da cama improvisada em meu quarto com os solavancos dos movimentos que os indivíduos sobre ela faziam. Eu estava virado para a parede oposta. Voltei-me para ver o que ocorria; o ranger e os murmúrios abafados entre dentes exigiam meus olhos. O quarto estava escuro; a única claridade vinha do corredor, invadindo a fresta da porta mal encostada, iluminando parcialmente o interior. A cena que vejo: meu primo deitado e meu pai sobre ele. Meu primo, de constituição magra e esguia, suportando sobre as costas o corpo forte e pesado de meu pai, comprimindo-o. Calado como estava, fiquei. Os olhares de ambos fixaram-se em mim, arregalados, e pararam como que surpreendidos. Neste instante, meu pai diz:
?— Acordou? O pai estava brincando de lutinha com o Breno, olha como o Breno é mole!
?O brilho fosco da luz externa brilhava em seus olhos e no branco dos dentes do seu sorriso arfante. Passou o braço em volta do pescoço do meu primo aplicando-lhe um mata-leão, colou o peito másculo, desnudo e cabeludo nas costas franzinas dele e recomeçou os movimentos firmes de investida com a cintura em direção ao quadril do Breno sob ele, em repetições frenéticas e pontuais. O Breno fazia um esforço ainda maior para conter os gemidos por causa do choque que o corpo de meu pai causava ao dele, ali imobilizado, fechando os olhos e cerrando os dentes. De repente, meu pai solta um rugido como o de um leão, descola o seu corpo do corpo do Breno brevemente e enfia a mão em direção aos membros inferiores ajeitando a roupa e sai de baixo do lençol, terminando de arrumar o short branco de futebol que vestia. Vitorioso, exclama:
?— Perdeu de novo, Breno. Eita bicho ruim de lutinha, homem!
?E sai do quarto. O Breno se cobre completamente, volta-se para a parede e dorme. Eu me levanto para encostar de vez a porta; prefiro o escuro para dormir bem. Por fim, escuto os passos pesados do meu pai subindo as escadas para deitar-se ao lado de minha mãe, que na época provavelmente deveria estar no terceiro sono. Deito pensando: meu pai tem razão, o Breno é realmente mole para lutinha, até eu ganho dele quando brincamos disso. É lógico que para o meu pai, que é forte e tem um e noventa, até eu perderia. Após a breve interrupção do sono naquela madrugada fria... Finalmente silenciosa, volto a dormir.