AYESKA E A BIBLIOTECA DE GASPAR

O vestido se movia sozinho. Ondulava, lento e inquieto. Escorria pelos ombros, revelando seus seios… fartos. Aquela coisa parecia uma criatura fingindo ser roupa.
Por alguns segundos achei que estivesse enlouquecendo. Pisquei algumas vezes, tentando me convencer de que estava enganado. Era outra pessoa. Não, não podia ser ela.
E quem era aquele sujeito? Penetrava-a com uma violência que me deixou desconfortável. Tinha asas imponentes e músculos que pareciam ter sido esculpidos à mão.
Mas calma aí, acho que estou te contando essa história da forma errada. Tenho esse problema. Quando alguma coisa me deixa inquieto, acabo me atropelando nas palavras.
Tudo começou duas semanas antes, quando a lenda Joseph Collins apareceu na faculdade para uma palestra. Britânico, mas morava no Brasil há tanto tempo que já parecia mais brasileiro do que muita gente nascida aqui. O homem publicava artigos em revistas do mundo inteiro. Arqueólogo, historiador e sabe Deus mais o quê, foi ele quem me fez escolher o curso de História.
Naquele dia o ônibus quebrou e cheguei em cima da hora. Pensei que talvez não conseguisse um lugar no auditório, mas quando entrei não tinha mais do que uns vinte gatos pingados na sala. Um absurdo para alguém do calibre de Joseph Collins.
Gaspar, reitor da faculdade, fazia o discurso de abertura. Sentei numa das últimas fileiras e, poucos segundos depois, a lista de presença chegou até mim.
Quem me entregou a folha foi ninguém menos que Maritsa Mollive.
Maritsa… Sentada sobre a própria perna dobrada, descalça como sempre, se inclinou por cima de duas carteiras para alcançar minha fileira.
Assim que Gaspar terminou, Joseph subiu ao palco sob uma salva de palmas. Trazia um colar na mão, claramente antigo.
— O Deserto da Judeia. Um lugar intrigante. Estive lá algumas vezes em busca de objetos, vestígios, qualquer coisa que pudesse revelar um pouco mais da história daquele lugar. E foi na última expedição que encontrei isto aqui. No meio da areia do deserto.
Ele ergueu o colar para a plateia.
— Cheguei a pisar nele, foi um achado inesperado. Uma das peças até quebrou... — sorriu, observando o objeto. — Mas ainda assim está em ótimo estado. Datado de aproximadamente 70 d.C., é uma espécie de amuleto de proteção. Usado pelos beduínos que se refugiavam nas cavernas da região durante o cerco romano.
A sala inteira estava hipnotizada. E claro, eu também. Ou pelo menos até a porta do auditório abrir. Minha caneta travou no meio das anotações vendo-a encostar a porta com cuidado.
Entrou sem cumprimentar ninguém e sentou perto do corredor, duas fileiras à minha frente. Apesar da cara de poucos amigos, andava morando na minha cabeça havia meses. Cabelos vermelhos compridos, óculos de aro grosso, jeans rasgado e a surrada camiseta do Depeche Mode. Ela devia gostar muito daquela banda.
— O Deserto da Judeia, assim como tantos outros, é tomado por um folclore misterioso. Miragens, demônios, feras desconhecidas e outras coisas que costumam habitar o imaginário popular...
Estranho. Nunca imaginei que ela fosse o tipo de garota que chegaria cedo, num sábado, para assistir à palestra de um velho arqueólogo. Tentava me manter atento ao assunto, mas era involuntário. Bastavam alguns minutos e eu já estava olhando para ela de novo.
Tirou os óculos, limpou as lentes na barra da camiseta e colocou de novo. Quando cruzou as pernas, apareceu o coturno preto. Impunha respeito.
Então levantou a mão.
Joseph interrompeu a explicação.
— É verdade que o senhor encontrou a marca de Lilith durante essa expedição?
A pergunta pareceu sugar o ar da sala.
Joseph parou de falar. Parecia ter esquecido onde estava.
— Como se chama, jovem?
— Ayeska.
— Gostei desse nome. Yanomami? Baniwa?
— Polones. Nasci no Brasil, mas minha família é de Sanok.
— Ah, sim. Sudeste da Polônia. Lugar fascinante...
Joseph pareceu refletir por alguns segundos.
— Ayeska... Parece que realmente não posso confiar minhas histórias a todo mundo. Sua fonte é bem fofoqueira.
A sala riu.
— Vou publicar mais detalhes na próxima edição da Mistérios Sem Fim, mas sim, aconteceu. Fui até lá por causa de inscrições encontradas ao pé do Monte Al-Qamar, numa expedição realizada em 1978. Das outras vezes não conseguimos explorar a região devido a grupos rebeldes que haviam tomado o lugar. Dessa vez encontramos a região desocupada. Numa noite de lua crescente, estávamos acampados. Éramos umas dez pessoas. Ventava muito. Foi quando uma sombra passou pela minha barraca. Me levantei. Espiei o acampamento. Não havia ninguém. Todos dormindo. Quando saí da barraca, vi aquela figura no topo do monte. Apenas uma silhueta. Durou poucos segundos. Depois desapareceu.
Joseph fez uma pausa.
— Não era a marca dela.
Ele observou o auditório por um instante.
— Era ela.
Ninguém falou nada.
— Enfim... sobre isso não posso entrar em mais detalhes.
Eu não consegui pensar em mais nada. Se Ayeska já mexia comigo antes, agora estava apaixonado de vez por aquela estranha que parecia tão nerd quanto eu.
No final da palestra a encontrei na cantina da faculdade. E olha que, para um cara tímido como eu, falar com ela era um desafio considerável.
— Também gosto de civilizações antigas e dessas lendas...
Ela me encarou por cima dos óculos.
— Lilith não é uma lenda. Ela habita entre nós, transfigurada. Ela bem poderia ser eu... — sorriu de um jeito que me fez arrepiar. — Ou a nossa professora de História Contemporânea.
— Ela é sinistra, não é?
Rimos.
Talvez fosse minha camiseta do Legião Urbana ou meu jeito meio escocês. Ou talvez ela apenas estivesse de bom humor. O fato é que o sorriso que apareceu no canto daquela boca me pegou desprevenido. Aquela simpatia não combinava nem um pouco com o resto da embalagem.
Ficamos sentados no pátio conversando. O tempo passou, o movimento diminuiu e o segurança precisou nos lembrar de que os portões iriam fechar. Era estranho. Parecia que aquela conversa já tinha começado muito antes daquele dia.
Nos dias que se seguiram, me contou histórias arrepiantes da região de onde sua família veio. Falou da Dama de Sanok, dos espíritos das florestas do sul da Polônia e de um monte de outras lendas que eu nunca tinha ouvido. Gostava de ouvir Post-Punk, New Wave e Gothic Rock. De fato era fã do Depeche Mode mas odiava Legião Urbana.
Quando assustei, estávamos bem próximos. Mas adivinha o que aconteceu? Como quase sempre acontecia comigo, acabei virando o amigo confiável da história.
Enquanto eu ainda morava com meus pais, Ayeska se mostrava mais independente. Morava sozinha num pequeno apartamento em um cortiço no Bexiga. Certo dia fui até lá para fazermos um trabalho de Antropologia Cultural. E porra, quando abriu a porta usando apenas um blusão de moletom, quase perdi o raciocínio.
O moletom parecia pertencer a alguém muito maior que ela. Um namorado. Um ficante. Alguém.
Nunca tive coragem de perguntar se ela tinha alguém. Sei lá por quê. Medo, talvez. E ela também nunca falava nada. Melhor assim. Seria humilhante demais virar seu conselheiro amoroso.
Sentei no sofá enquanto ela caminhava até a cozinha dizendo que iria fazer café. Quando ficou na ponta dos pés para alcançar alguma coisa no armário, o moletom subiu.
Caralho.
Calcinha preta. De renda. Minúscula.
Por um instante fiquei encarando como um idiota. Ela se virou e desviei o olhar tão rápido que quase dei um torcicolo, pegando o primeiro livro que encontrei pela frente.
— Esse livro sobre os astecas é muito bom.
— Sim... — minha voz deu uma fraquejada. — Vai ser útil.
Mudei de lugar e fui sentar no sofá do lado oposto. Respirei fundo.
Instantes depois ela voltou usando uma calça branca de malha cheia de ursinhos desenhados e uma blusinha rosa. Olhei para ela, talvez por tempo demais, e acabei rindo.
— Você me surpreende a cada dia.
— Besta... Em casa, claro que prefiro algo mais confortável.
Ela respondeu enquanto deixava a garrafa de café sobre a mesinha de centro. Depois sentou ao meu lado.
— E então, por onde começamos?
— Acho que podemos falar dos costumes, crenças e superstições de várias culturas. Mostrar como tudo isso ajudava a dar sentido ao mundo. Como influenciava a vida das pessoas.
Eu tentava parecer concentrado no trabalho. Tentava mesmo. Mas era difícil manter o foco com Ayeska sentada tão perto. Ainda mais depois de tudo que eu tinha acabado de ver. E, como se eu já não estivesse nervoso o bastante, o seio dela roçava no meu braço de vez em quando. Será que fazia aquilo de propósito?
— Sabe, Dan, tive uma ideia esses dias, mas não sei se você teria coragem.
As bochechas dela ganharam um tom avermelhado.
— Coragem para quê?
— Descobri que Gaspar tem uma coleção excêntrica de livros no último andar. Poderíamos subir até lá e dar uma espiadinha.
— Ele é apaixonado por civilizações antigas. Já tivemos uma conversa sobre isso uma vez.
— Pois é! Quero saber o que ele esconde lá.
— Mas como? O acesso é vigiado.
— Não o tempo todo. Descobri que o segurança sempre cochila depois das oito. Percebi isso num dia em que fiquei na biblioteca até mais tarde.
Olhei para ela. Havia um brilho nos seus olhos que tornava impossível recusar qualquer proposta.
Nas primeiras quatro tentativas não tivemos sucesso. Por algum motivo, o segurança resolveu ficar acordado justamente nos dias em que precisávamos dele dormindo. Mas numa noite, aguardávamos ansiosos na biblioteca quando, de repente, ele atravessou o salão apressado em direção ao banheiro.
— Parece que está com piriri.
Ayeska abriu um sorriso.
— E por acaso a senhorita não tem nada a ver com isso, né?
Ela levou uma das mãos ao peito.
— Euuu? Jamais.
Subimos as escadas atentos. No andar superior demos de cara com uma longa fileira de salas. Seguimos devagar, lendo as placas pregadas nas portas.
— Nossa, Dan... Que nomes estranhos. Cela 13, Quarto 411, Pétalas de Sangue. Será que é alguma homenagem? Mas a quê? Não me lembro de nada com esses nomes.
— Sei lá. Parece título de alguma coisa escrita pelo Lucchetti.
Tentamos abrir algumas delas, mas todas estavam trancadas.
— Estranho mesmo. Eu já estive aqui uma vez. As salas tinham outros nomes.
Ela me acertou dois tapas no braço.
— E por que não me contou isso antes?
— Não queria estragar a sensação de uma grande investigação.
Ayeska fechou o punho e estreitou os olhos.
— Idiota.
Em seguida voltou a atenção para o ambiente. Puxou o ar devagar.
— Está sentindo esse cheiro de incenso?
Puxei o ar também.
— Sim. Tem alguma coisa diferente rolando aqui.
Ouvimos então o som de uma fechadura sendo destravada em algum ponto daquele andar. Congelamos. Por alguns segundos ficamos sem saber para onde correr.
Foi então que a sorte resolveu nos ajudar. Ayeska apoiou a mão na primeira maçaneta ao seu alcance. A placa dizia Câmara Escarlate.
A maçaneta girou.
Ela arregalou os olhos.
— Entra.
Passamos pela porta e a fechamos atrás de nós.
— Puta que pariu...
Antes que eu continuasse, ela tampou minha boca.
Fiquei petrificado.
Era Maritsa Mollive. Sentada numa cadeira, completamente nua. Os braços presos para trás, as pernas atadas aos pés do móvel e os olhos vendados. Algumas marcas avermelhadas se espalhavam pelo corpo. Preferi não examiná-las com muita atenção.
Passos ecoaram do lado de fora.
Prendemos a respiração. Quem quer que fosse seguiu adiante sem parar diante da sala.
— Quem está aí?
A voz saiu fraca.
— Eu... Ayeska e o Dan.
O corpo de Maritsa tensionou por completo.
Aproximei-me da cadeira.
— Fica tranquila. Vamos tirar você daqui.
Levei as mãos às amarras.
— Não. Por favor.
Pisquei algumas vezes.
— Como assim, não?
Ela se encolheu na cadeira, tentando se afastar de mim.
— Vocês precisam ir embora.
Voltei os olhos para Ayeska sem entender nada.
O mais estranho era que ela não parecia chocada. Observava Maritsa com uma calma desconcertante. Eu estava perdido. Ela não.
Ayeska deu um passo à frente.
— Onde fica a coleção de livros de Gaspar?
Maritsa soltou um longo suspiro.
— Última porta no fim do corredor.
Ergui uma das mãos.
— Calma aí. A gente não vai tirar ela daqui?
— Eu quero estar aqui.
Aquilo me desmontou completamente.
— E por favor, não contem isso a ninguém.
Procurei alguma reação em Ayeska, mas ela apenas segurou minha mão.
— Vem.
Saímos da sala. Enquanto caminhávamos em direção à biblioteca, não consegui evitar olhar para trás. A imagem de Maritsa ficou martelando na minha cabeça.
A sala indicada tinha uma placa com o nome: Dr. Zola.
— Ah! Esse é Luchetti… o personagem mais icônico dele.
— Depois me empresta o livro. Quero conhecer.
Sussurrou e foi abrindo a porta bem devagar.
Era uma segunda biblioteca. Bem menor que a principal, mas ainda sim abarrotada de livros do chão ao teto.
Passamos os olhos pelas estantes quando algo pareceu chamar a atenção de Ayeska.
— Onde você vai?
Ela não respondeu.
Avançou por um dos corredores estreitos entre as estantes e parou diante de uma prateleira específica.
O que mais me chamou atenção foi que ela não parecia procurar alguma coisa. Parecia saber exatamente onde estava.
Vi quando puxou um volume grosso de capa negra. Abriu o livro e começou a folheá-lo. Seus olhos percorriam as páginas depressa, procurando algo específico.
— Ayeska?
Ela começou a murmurar alguma coisa. Não era português. Também não era inglês. Soava antigo.
Continuou lendo por alguns segundos até fechar o livro e deixá-lo exatamente onde estava.
— O que foi isso? Latim?
Ela virou o rosto para mim e até hoje tenho dificuldade para explicar aquilo. O sorriso era dela, mas não parecia dela. Os olhos estavam tomados por um negro que fez um arrepio atravessar minhas costas.
— Ayeska? Para de graça.
No segundo seguinte ela desabou.
Corri e a segurei antes que batesse a cabeça numa estante.
— Ayeska! Acorda!
— Merda... Ayeska.
Foram apenas alguns segundos, mas pareceram minutos.
Quando abriu os olhos, levou a mão à testa e respirou fundo.
— Dan? O que aconteceu?
— Você desmaiou.
— Eu desmaiei?
— Sim.
Ela permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— Estou me sentindo enjoada.
— Você pegou aquele livro, leu alguma coisa e... desmaiou.
— Que livro?
— Aquele grosso de capa preta.
Ayeska franziu a testa.
Ela me encarou com uma expressão genuinamente confusa e foi se levantando, devagar. Olha, fazia tempo que algo não me deixava com medo de verdade. Mas ali, me borrei.
Conseguimos sair dali sem sermos pegos e fomos direto para a casa dela.
Assim que chegamos, Ayeska foi tomar banho e eu fiquei no sofá, tentando organizar tudo o que tinha acontecido. Que loucura.
Quando voltou, usava um shortinho vermelho de seda e uma blusinha de alcinha da mesma cor. Linda.
Falava em voltar à biblioteca, ignorando completamente o que havia acontecido. Aquilo me incomodava mais do que eu queria admitir.
Ao notar minha expressão, sentou ao meu lado.
— O que foi Dan?
— Nada.
— Mentira.
Sorriu.
— Fiquei preocupado com você.
— Obrigada, Dan... Você é muito especial. Nunca me senti tão bem com alguém.
Pois é. Especial, confiável. Eu já tinha ouvido versões daquilo antes. Formas elegantes de dizer que eu jamais pisaria do outro lado da linha.
— Melhor eu ir. Vejo que está melhor.
— Não!
Quando tentei levantar, ela me segurou de volta no sofá.
— Fica mais um pouco, por favor.
Nos olhamos por um instante.
Então ela disse:
— Gostei da nossa Mistérios S.A. Você é o Salsicha. Adoro ele. Você acha que estou mais para Daphne? Ou…
Fez pose de patricinha com a mão deitada sob o queixo.
— Velma?
Pegou os óculos sobre o criado-mudo e os colocou.
— A Velma. Com certeza a Velma.
— Por quê?
— Porque eu sempre achei a Velma mais interessante.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Interessante?
— E mais gostosa também.
— Dan!
Me acertou alguns tapinhas no braço enquanto ria.
— Que safado. Você não é assim.
— Talvez eu esteja mudando.
— Seu besta. Gosto de você assim. Do jeitinho que é.
Ficamos em silêncio por alguns segundos e depois acabamos caindo no riso. Pouco depois fui embora. Ayeska me acompanhou até a porta, ficou encostada no batente enquanto eu descia a escada.
— Boa noite, Dan.
— Boa noite.
Voltei para casa pensando nela. No sorriso. Na forma como tinha me chamado de besta.
Mas quando me deitei, demorei para pregar os olhos. A biblioteca de Gaspar voltava a ocupar meus pensamentos. Maritsa. Como Ayeska sabia daquele livro? E as palavras naquela língua estranha? O sorriso que era dela, mas não parecia. E aqueles olhos.
Tentei encontrar uma explicação racional para tudo aquilo. Não consegui.
No dia seguinte, Gaspar anunciou que a festa de Halloween estava liberada.
Como de costume, Maritsa ficou responsável pela organização. E agora o fato dela ter sido eleita a representante da turma, era ela quem sempre se oferecia para negociar com Gaspar, a vinda de figuras como o Joseph Collins ou qualquer outro evento.
Era inegável que era muito dedicada. Ainda assim, depois do que eu havia visto na Câmara Escarlate, ficou difícil acreditar que não havia um motivo maior.
A relação com Ayeska continuava me roubando o sono. Continuávamos estudando juntos e, no apartamento dela, era comum atravessarmos a madrugada conversando, bebendo e, às vezes, até fumando um.
Certo dia ela estava abatida. Tinham mandado ela embora da livraria onde trabalhava, na rua Direita. Foi uma noite estranha. Aquilo que eu mais queria desde que coloquei os olhos nela aconteceu mas de um jeito que talvez não fosse exatamente como sempre imaginei.
Usamos um negócio que o primo dela, um sujeito que vivia aparecendo nas histórias dela, tinha trazido de Londres. Nem lembro o que era. Pra ser honesto, depois daquele maldito cigarrinho, só lembro de alguns pedaços daquela noite. Num instante estávamos dançando The Smiths no meio da sala. No outro, trepando em sua minúscula sacada. Não faço ideia de como fomos parar ali. Lembro da lua crescente iluminando os prédios, do vento frio da madrugada e de Ayeska completamente nua na minha frente, empinada, rebolando enquanto eu a fodia com força. Era uma completa loucura. Estávamos voltados pra rua, qualquer um podia erguer os olhos e ver tudo.
Acordamos no dia seguinte jogados, nus, no carpete da sala.
— Que merda...
Soltou, apoiando as mãos no chão, se levantou devagar.
Abri os olhos com uma puta dor de cabeça. Quando consegui focar nela, estava sorrindo.
Ayeska se aproximou, acariciou meu rosto e, antes que eu dissesse qualquer coisa, encostou a boca na minha.
Nos beijamos.
Continuei olhando para ela feito um idiota. Ela estreitou os olhos.
— Seu besta... Para de me olhar assim.
Beliscou meu braço e, como de costume, emendou os tapinhas de sempre.
Acabei rindo.
Ela também.
O Halloween finalmente chegou. E, olhando para trás, acho que aqueles dias foram alguns dos mais felizes da minha vida. Estávamos juntos. Eu completamente apaixonado.
Por um milagre, no dia da festa, meu pai liberou o seu velho Escort GL 92. Ele havia conhecido Ayeska, se deram bem, tenho certeza que isso ajudou.
Saí de casa já fantasiado. Queria fazer uma surpresa para ela. Vestia uma camiseta verde larga de gola em V, uma calça marrom meio folgada, um par de tênis já bem gastos e uma peruca castanha toda despenteada. Faltava só um cachorro medroso andando do meu lado para completar a cena.
No prédio, interfonei. Ela pediu que eu esperasse lá embaixo.
Quando apareceu...
Puta que pariu.
Parecia ter saído do desenho. A primeira coisa que notei foi o cabelo. Os fios vermelhos, que antes caíam pelas costas, agora terminavam na altura dos ombros. O suéter laranja marcava a cintura, a saia vinho, curta o bastante para valorizar ainda mais as pernas. As meias até os joelhos e os óculos de aro grosso completavam uma fantasia impossível de confundir.
— Caralho... Velma!
Ela arregalou os olhos.
— Salsicha!
Começamos a rir feito dois idiotas. Não faço ideia de quanto tempo ficamos ali parados na calçada rindo. Simplesmente não conseguíamos parar.
Fiquei olhando para ela por alguns segundos.
— Cacete... Você cortou o cabelo.
Ela levou a mão até a altura dos ombros e sorriu.
— Gostou?
Gostei era pouco. Aquele corte a deixou ainda mais bonita... e gostosa.
Entramos no Escort. Fui o caminho inteiro olhando para ela. Aquelas pernas... Naquele momento, a única coisa que passava pela minha cabeça era trepar com ela vestida de Velma.
Mas eu ainda não fazia ideia do que estava prestes a presenciar.
Sabe… uma coisa que sempre gostei na Ayeska era a forma como ignorava, e às vezes até destratava, os playboys metidos a besta da faculdade. Não vou mentir. Isso me fazia sentir grande. A sensação de ser escolhido por alguém como ela era boa pra caralho.
Curtimos a festa. Rimos, dançamos. Eu estava só no refrigerante, não queria dar sopa para o azar. Vai que a polícia resolvesse parar o Escort na volta. Ayeska estava bebendo e, depois de algumas doses, ficou mais soltinha. Os amassos começaram a esquentar.
Ela encostou a boca no meu ouvido.
— Me encontra na sala do diretor...
Saiu andando. Deixei ela desaparecer atrás do palco, esperei uns minutos, virei o resto da Coca-Cola e fui atrás.
A sala ficava logo adiante, mas antes de chegar ouvi gemidos vindos do corredor. Festa de faculdade é foda. Já tinha gente trepando. Pelo som, parecia ser na sala dos professores.
A curiosidade venceu. Me aproximei devagar, a porta estava escancarada. Foi ali que vi a cena que comecei contando lá no início.
Deitada sobre a longa mesa dos professores, ela mantinha os braços esticados acima da cabeça. As pernas encaixadas nos ombros dele. Sorria de um jeito debochado enquanto ele a estocava sem desviar os olhos dela. Aquilo tinha muito mais cara de um acerto de contas do que de sexo.
Caralho! Uma lança dourada estava fincada no chão ao lado dos dois! Que merda era aquela? E quando digo fincada, quero dizer fincada mesmo. Não encostada. Não apoiada. Fincada. Parecia ter sido cravada ali num acesso de raiva.
Só então reparei na marca do tornozelo. Cintilava em dourado a cada investida dele. Nunca tinha visto aquela marca.
Virou o rosto lentamente para o meu lado. Os cabelos caíram sobre parte dele. Os lábios se curvaram devagar.
Porra... O mesmo sorriso da biblioteca de Gaspar. Os olhos negros. Por um instante achei que o coração tivesse esquecido de bater. Foi quando senti alguém apertar meu braço.
— Ayeska?!
Ela me encarou sem entender.
— Dan... Aqui é a sala dos professores, seu tonto.
Foi entrando.
— Não! Espera!
Olhei outra vez para dentro da sala.
Não havia mais ninguém.
— O que foi? Parece até que viu um fantasma.
Engoli seco.
— Mas eu vi... Acho que vi.
Ela sorriu daquele jeito de sempre.
— Ah, para, seu besta. Vem... Vamos para a sala do diretor.
Segurou minha mão e começou a me puxar. Antes de sair, olhei uma última vez para trás.
Por um breve instante, vi aquela mulher. Os cabelos agora eram negros, lisos e desciam quase até a cintura. Os traços delicados. Os seios fartos. O corpo escultural. Estava parada no meio da sala, olhando diretamente nos meus olhos.
O vestido negro se movia sozinho.
Vivo.

Vicente Braga


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Ficha do conto

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vicentebraga

Nome do conto:
AYESKA E A BIBLIOTECA DE GASPAR

Codigo do conto:
267239

Categoria:
Fantasias

Data da Publicação:
14/07/2026

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