e durou quase um ano depois disso. mas o primeiro dia é o único que eu conto
inteiro.
a gente era os três. eu, a fran e o rafa. eles ficavam lá em casa o tempo todo,
dormiam no meu sofá, comiam a minha comida, a fran estudava na minha mesa da
cozinha porque na casa dela não tinha canto pra ela estudar. ninguém nunca achou
estranho nada disso, e não era estranho mesmo.
--
eles vieram jantar lá em casa num sábado. eu tava na cozinha fazendo macarrão
com uma música ligada e eles sumiram. eu nem reparei na hora, sabe? demorei pra
reparar. só notei quando eu abaixei o som pra escutar o timer e a casa tava
silenciosa demais.
e aí eu escutei a fran.
não era alto. era aquele barulho que a pessoa faz tentando não fazer barulho,
que é pior, porque você escuta que ela tá se segurando. ofegando. um gemido
baixinho engolido no meio.
eu desliguei o fogo.
e eu fui. eu fui pelo corredor pisando de leve com a mão na parede e eu não
tenho desculpa nenhuma pra isso, eu fui porque eu quis ir. a porta do meu quarto
tava fechada e a luz apagada por dentro. e eu deitei no chão do corredor.
deitei no chão da minha própria casa e olhei por baixo da porta.
tem uma fresta ali embaixo, uns dois dedos. e como eles tavam no chão do quarto,
e não na cama, dava pra ver. tava escuro, só entrava a luz do poste pela janela,
mas dava pra ver.
ele tava por cima dela. de calça ainda, de camiseta ainda, tudo vestido os dois.
ela de short jeans, aquele short curto que ela usava direto. e a mão dele tinha
entrado por baixo da barra do short, por aquele buraquinho da perna, porque não
dava pra abrir o botão naquela posição. e tava apertado ali — dava pra ver o
pulso dele forçando o jeans, o tecido esticado em volta, ele mal conseguindo
mexer.
aquela mão grande presa num espaço daquele tamanho.
e mesmo assim.
mesmo com aquele espaço de nada, sem tirar a roupa dela, sem tirar a roupa dele,
ele fez ela gozar. eu vi. ela arqueou, fechou a perna em cima da mão dele e
mordeu o próprio braço pra não gritar, e eu vi tudo aquilo pela fresta de uma
porta deitada no chão do corredor da minha casa.
e eu tava com tanto tesão que eu tava tremendo.
e aí eu reparei numa coisa.
ela gozou e acabou. ela empurrou a mão dele, riu baixinho, deu um beijo nele e
falou alguma coisa que eu não escutei. e ele levantou. ele levantou de calça
fechada, tudo no lugar, duro do jeito que ele entrou naquele quarto.
ela não fez nada por ele. nada.
eu voltei correndo pra cozinha, liguei o fogo de novo, e quando eles saíram do
quarto eu tava mexendo o molho igual uma idiota com a cara pegando fogo.
e a gente jantou.
isso é o que eu não consigo explicar direito pra ninguém. a gente sentou na
mesma mesa de sempre e jantou, os três, com o prato na mão porque eu só tinha
duas cadeiras e a gente comia no sofá desde sempre. o macarrão passou do ponto e
ninguém falou nada. a fran foi na geladeira, abriu uma cerveja, dividiu comigo
no mesmo copo, do jeito que ela fazia. ela tava de cabelo preso, com a marca do
elástico na testa, falando de um seminário que ela ia ter que apresentar sozinha
porque a menina do grupo dela some. ela reclamou uns quinze minutos daquela
menina.
e a mão que tinha entrado por baixo do short dela pegava o copo, botava na mesa
de centro, pegava de novo.
o rafa falou umas cinco frases a noite inteira, do jeito dele, e eu não consegui
olhar na cara dele em nenhuma das cinco. eu olhava pra televisão, olhava pra
fran, olhava pro meu prato. mas eu sabia exatamente onde a mão dele tava o tempo
todo, o tempo todo, sem olhar uma vez.
e em algum momento a fran encostou o pé no meu pé embaixo da mesa de centro, sem
querer, e deixou lá. e eu deixei também.
--
e aí vem a parte que eu acho que foi o que realmente ferrou tudo.
a fran dormiu lá em casa. e não dormiu no sofá, o rafa que foi embora — ela
ficou e dormiu comigo, na minha cama, que era de solteiro. as duas espremidas
igual a gente fazia desde os quinze anos.
e eu passei a noite inteira acordada.
porque eu queria me tocar. eu queria muito, sabe aquela coisa que já não é
vontade, que já tá doendo? eu tinha visto aquilo tudo fazia duas horas e eu
precisava. e eu tinha a melhor amiga dormindo colada em mim naquela cama de
merda, o braço dela em cima de mim, respirando no meu pescoço, aquele hálito
quente batendo no mesmo lugar a cada vez.
eu fiquei calculando. você não faz ideia do tanto que eu calculei naquela noite.
eu media quanto eu conseguia virar sem tirar o braço dela de cima de mim. eu
esperava ela respirar fundo pra mexer o quadril um centímetro. cheguei a apoiar
o pé no chão pra levantar e ir pro banheiro, que era o óbvio, era a coisa mais
fácil do mundo, e ela resmungou alguma coisa dormindo e apertou o braço, e eu
voltei.
e eu não fui. e não foi por medo dela acordar, não.
é que se eu levantasse e fosse pro banheiro fazer aquilo eu ia ter que saber o
que eu tava indo fazer. deitada eu ainda podia fingir que era só insônia.
o teto do meu quarto tem uma mancha de infiltração perto do abajur. eu sei de
cor o formato daquela mancha até hoje. eu passei umas quatro horas
olhando pra ela e pensando na mão dele forçando aquele jeans. no pulso preso. no
tecido esticado. e voltava, e voltava, e voltava, e cada vez que voltava era pior
porque acabava do mesmo jeito e eu continuava ali.
e pensando que ele não gozou.
foi por volta das quatro, quando começou a clarear a fresta da persiana, que a
coisa parou de ser tesão e virou outra coisa. porque eu comecei a pensar na fran
empurrando a mão dele. no beijinho. no rindo baixinho. ela gozou e virou pro
lado e pronto.
e foi ali, deitada do lado dela, com o braço dela em cima de mim, que eu pensei:
ela não dá conta dele. ela não tira leite daquele homem.
naquela noite parecia até justo.
--
no domingo de manhã a fran saiu cedo. ela ia almoçar com o pai dela, que ela
quase não via, e ela tava daquele jeito que ela ficava antes de encontrar com
ele — trocou de roupa três vezes, não comeu nada, perguntou duas vezes se tava
bom. eu falei que tava ótima.
e na porta ela virou e perguntou se eu ia ficar em casa. se ela podia passar
aqui depois, quando acabasse, porque ela ia precisar.
eu falei que ia ficar. falei "fico aqui, pode vir".
guarda essa frase, porque é dela que eu tenho mais vergonha. não é nem a do
"vai pro quarto então". é essa.
o rafa voltou lá em casa depois do meio-dia. e ficou.
calor do caralho, aquele domingo que não acaba nunca, três da tarde e parece que
tem seis horas de sol pela frente ainda.
ele enrolou um. ele enrolava bem, reto, apertadinho, queimava parelho até o fim
— eu nunca aprendi porque eu nunca precisei, ele tava sempre lá. a gente fumou
na sala com a tv ligada sem som e ficou aquele silêncio bom, sabe? aquele que
não é chato. eu deitada num canto do sofá, ele no outro, os pés dele quase
encostando em mim. com o rafa dava pra ficar uma hora sem falar nada e não
incomodava ninguém. naquela tarde tudo demorou. tudo naquela tarde demorou.
aí ele falou que tava com dor nas costas. de dormir torto, alguma coisa assim.
e falou meio de brincadeira "você não faz uma massagem não?" e eu falei "vai pro
quarto então" — e essa é a parte que eu não conto pra todo mundo.
porque eu sabia.
eu sabia quando falei aquilo. não foi tipo, ai aconteceu, ai eu me perdi, ai foi
o barato. não foi nada disso. eu tinha decidido aquilo às quatro da manhã com o
braço da fran em cima de mim.
o quarto tava fechado desde o sábado. e quando eu abri a porta o que veio na
minha cara foi o cheiro da fran. aquele creme barato que ela usava desde os
quinze anos, doce demais, que eu reconheceria no meio de qualquer lugar do
mundo — o quarto tinha ficado o dia inteiro no calor, trancado, e tava tudo
aquilo parado lá dentro esperando.
e eu olhei pro chão. não pra cama. eu olhei pro vão entre o guarda-roupa e a
cama, o lugar exato.
e teve um ano meu muito ruim, que não vem ao caso, em que a fran dormiu naquele
mesmo vão uma semana inteira. no chão mesmo, com um edredom dobrado, do lado da
minha cama, porque eu não conseguia ficar sozinha e não dava pra nós duas
naquela cama de solteiro a noite toda. uma semana. ela tinha prova naquela
semana.
é sempre o mesmo chão.
ele não olhou pro chão nenhuma vez. tirou a camiseta, jogou em cima da cadeira e
deitou de bruço na cama, e o chão daquele quarto pra ele era só chão. ele não
sabia. até hoje ele não sabe.
eu sentei em cima dele, meio nas costas dele, com um creme de mão horroroso que
eu tinha na cabeceira porque não tinha outra coisa. cheiro de morango de mentira,
sabe esses? enjoativo. e comecei.
a gente ficou uns vinte minutos assim. calados. a mimosa entrou no quarto, subiu
na cama, olhou pra gente e saiu, e ninguém falou nada nem pra gata.
da onde eu tava sentada eu tava de frente pra porta.
a porta fechada, o corredor aceso do lado de fora, e aquela tira de luz por
baixo. dois dedos.
eu tava do outro lado da fresta agora.
vinte minutos e eu fui sentindo a respiração dele mudar. ele não falava — mas
ele nunca falava, então não dava pra saber nada pelo que ele não dizia. dava pra
saber pelo ar. ficou mais fundo. e eu fui descendo a mão mais do que precisava,
lombar, cós da calça, e ele não falou nada, e eu continuei, e ele continuou não
falando nada. e cada minuto que ele não falava nada era um minuto que os dois
tavam concordando com aquilo.
eu tava encharcada e ele nem tinha me tocado ainda. não tinha encostado um dedo
em mim.
aí ele virou.
virou de barriga pra cima assim, devagar, me olhando. e tava de pica dura
marcando o jeans inteiro, de um jeito que não tinha como não ver e ele não fez
nada pra disfarçar. não ajeitou, não virou de lado, não riu pra quebrar o clima.
ele só virou e ficou me olhando com aquilo ali entre nós dois.
e eu passei a mão por cima da calça.
não teve conversa. eu passei a mão por cima do jeans, apertei, e ele só fechou o
olho e soltou o ar. só isso. e aquilo ali me deixou mais louca do que qualquer
coisa que ele podia ter falado.
fiquei um tempo assim, só por cima do tecido, sentindo ele duro por baixo,
esfregando devagar — e pensando no pulso dele preso naquele short. e aí ele me
perguntou, do nada, com a voz baixa:
"você chupa?"
assim, desse jeito. sem enfeite nenhum. seco. do jeito que ele falava tudo.
e eu não respondi. abri o botão da calça dele, abri o zíper e tirei pra fora, e
a resposta foi essa.
e eu chupei. chupei ele inteiro, sem pressa nenhuma, porque a maconha faz tudo
virar câmera lenta e eu queria que durasse. peguei na base com a mão, subi com a
boca, desci de novo, ficava só na cabeça às vezes só pra ver ele puxar o ar. ele
pôs a mão no meu cabelo mas não empurrava, só segurava. e ficava me olhando.
essa parte eu lembro muito bem, ele não fechou mais o olho depois de um tempo,
ele ficou olhando eu chupando ele. e o quarto inteiro cheirando à fran.
e quando ele foi gozar ele falou. falou baixinho, meio abafado, tipo um aviso
pra eu decidir. e eu não tirei a boca.
o corpo dele inteiro travou. a mão dele fechou no meu cabelo com força pela
primeira vez, e ele soltou um barulho que eu nunca tinha escutado ele fazer em
todos aqueles anos de conviver com o cara.
eu engoli. e fiquei ali com ele na boca, sem tirar, até ele amolecer, pensando
uma coisa só, bem clara, em silêncio:
ela não tira isso dele.
e olha o tamanho da sacanagem: eu tinha orgulho. naquele segundo ali eu tava
orgulhosa de mim.
hoje eu não sei se foi tanto assim quanto eu conto, ou se eu precisei que fosse.
e aí... nada.
os dois ficaram calados. mas não era mais o silêncio bom da sala, era outro
silêncio, um silêncio ruim. ele levantou, fechou a calça, pegou a camiseta da
cadeira e vestiu. eu sentada na cama, ainda com aquele gosto na boca, e ele não
falou uma palavra. nem uma. nem "tchau", nem "a gente se fala", nem "que merda
que a gente fez". nada.
só a porta.
e eu fiquei sentada na minha cama olhando pra aquela tira de luz por baixo dela.
acesa do mesmo jeito, os mesmos dois dedos, e agora não tinha ninguém deitado do
outro lado.
e ele nunca falava mesmo. era do feitio dele ir embora sem dizer nada. fui eu
que transformei aquilo em sentença.
e aí eu deitei.
deitei de costas no meio da cama, ainda com o gosto dele na boca, e desci o
short com a calcinha junto num puxão só, até o joelho, e abri a perna.
e eu não tava preparada pro que eu vi.
a calcinha desceu pesada. pesada, sabe? ela ficou grudada na minha perna e tinha
um fio ligando ela em mim, um fio inteiro, brilhando, que não arrebentou nem
quando eu abri mais a perna. e aí escorreu. escorreu de mim pra baixo, pelo meio
da bunda, e molhou o lençol antes de eu ter encostado um dedo em qualquer lugar.
eu nunca tinha visto aquilo sair de mim. nunca. nem sabia que dava aquilo. não
era úmido, era mel — grosso, quente, e quando eu passei a mão veio tudo na minha
mão, e ficou pendurado entre os meus dedos quando eu abri, e eu fiquei olhando
pra minha própria mão que nem uma idiota.
vinte minutos massageando as costas de um cara. era só isso que tinha me
acontecido.
e aí eu encostei.
e não deu tempo de nada. quarenta segundos, se foi muito. e não foi alívio, não
desmanchou nada, foi que nem espirro: contraiu tudo, apagou a minha cabeça por
dois segundos e me devolveu no mesmo lugar. e eu não tirei a mão, e veio de novo
em menos de um minuto, e de novo depois disso.
e a cada vez saía mais. essa é a parte que eu não sei explicar direito. a cada
vez que eu gozava vinha mais daquilo, e escorregava mais, e chegou num ponto que
eu não tinha atrito nenhum pra trabalhar — o dedo fugia, patinava, eu tive que
apertar a mão inteira contra mim só pra conseguir sentir alguma coisa. eu não
sei quantas foram. quatro, cinco. eram rápidas, eram seguidas, e nenhuma delas
resolvia nada — era beber água com sede de verdade num copo de tampinha.
e eu comecei a sentir uma coisa que eu nunca tinha sentido antes.
não era tesão, ou não era só. era uma coisa aberta, funda, um vazio com formato,
tipo uma fome num lugar do corpo que não come. eu queria peso. eu queria alguma
coisa dentro de mim e eu não tinha, e a minha mão já tinha provado três ou
quatro vezes que ela não ia dar conta daquilo.
o pote de bala tava em cima da cômoda. aquele comprido, de acrílico, com a tampa
arredondada — eu ganhei num amigo secreto do trabalho e ele vivia ali, sempre com
quatro ou cinco balas velhas no fundo que ninguém comia. eu levantei, virei as
balas em cima da cômoda e voltei pra cama com o pote na mão.
era frio. eu esqueci que acrílico é frio. tive que segurar ele fechado na mão um
tempo antes, e enquanto eu esquentava aquilo eu tava pensando no pulso dele
forçando o jeans do short da fran, naquele espaço de dois dedos, e no barulho que
ele fez com a minha mão no cabelo.
e entrou fácil. entrou fácil até demais, do jeito que eu tava.
e eu fiz barulho. essa parte foi de propósito. eu passei a noite inteira do
sábado engolindo tudo do lado dela e naquela tarde eu não segurei nada, eu deixei
sair, eu falei coisa em voz alta sozinha naquele quarto que eu não repito pra
ninguém. a casa toda era minha e não tinha ninguém pra escutar. eu acho que foi
por isso que veio tão forte.
só que o pote é curto e a tampa é redonda e chega uma hora que não dá mais.
a escova de cabelo tava na cabeceira, do lado do creme. cabo de madeira,
comprido, redondinho, aquelas escovas antigas que eram da minha avó. e eu usei.
usei sem pensar duas vezes, e me virei de bruço, e depois de lado com o
travesseiro entre a perna, e eu não sei quanto tempo aquilo durou. sei que na
última eu mordi o travesseiro sem precisar morder nada nenhum — por costume, por
causa da noite anterior. e essa última não foi rápida. essa demorou, e me
desmontou, e eu fiquei um tempo depois dela sem conseguir juntar a perna.
e o estrago.
o lençol saiu do canto do colchão inteiro de um lado. tinha uma mancha escura no
meio da cama do tamanho de um prato, e não era só embaixo de mim: tinha na minha
coxa até quase o joelho, tinha no travesseiro, tinha nas costas da camiseta que
eu nem tinha tirado. a escova ficou largada no lençol do lado da minha perna. o
pote rolou pro chão.
e aí eu arrumei tudo.
só que eu não lavei nada. eu não troquei aquele lençol, não pus nada no tanque,
não pensei nem meio segundo em fazer isso. eu puxei o lençol de volta pro canto
do colchão, estiquei ele com a mão, e joguei a colcha por cima. só isso. a
mancha ficou ali embaixo, do tamanho de um pires, ainda molhada, debaixo de uma
cama feita.
a escova voltou pra cabeceira. o pote voltou pra cômoda com as balas dentro.
destravei a janela e abri. não entrou vento nenhum. era domingo de calor, cinco
da tarde, o ar parado igual desde sempre.
e mesmo assim.
o quarto tava impecável. não tinha uma coisa fora do lugar naquele quarto, nada,
qualquer pessoa que abrisse a porta ia ver um quarto arrumado — e o cheiro tava
lá. nítido. não era dúvida, não era impressão minha, era aquele cheiro e pronto,
e quem entrasse ali ia saber na hora o que tinha acontecido naquele cômodo.
e foi de pé no meio do meu quarto arrumado, com a colcha esticadinha em cima
daquilo, que eu fiz a conta:
três pessoas gozaram nesse quarto em menos de um dia.
e eu tava presente nas três vezes.
a gata entrou e subiu em cima da colcha e eu deixei. eu lembro da
gata. lembro dela deitando ali como se fosse um domingo qualquer.
--
a fran chegou de noite.
ela tinha a chave, ela entrou sozinha do jeito que ela sempre entrava, e eu tava
na sala com a tv ligada e não deu tempo de nada. eu escutei a chave e eu não
levantei.
e ela parou na porta do quarto.
não foi nada de teatro. ela só parou. ficou uns dois segundos ali com a mão na
maçaneta, olhando pra dentro de um quarto onde não tinha absolutamente nada pra
ver. cama feita, colcha esticada, janela aberta, tudo no lugar.
e aquele cheiro batendo na cara dela.
aí ela virou o rosto e olhou pra mim.
e eu olhei pra ela.
e a gente ficou assim. eu sentada no sofá com a mão que ainda cheirava àquele
creme de morango embaixo da perna, e ela parada na porta do meu quarto.
ela não perguntou nada. eu não falei nada. ela largou a mochila no chão do
corredor mesmo, sentou do meu lado no sofá e ficou vendo aquela televisão comigo
até tarde.
ela tinha ido lá pra falar do pai dela. ela não falou.
lá pela meia-noite ela levantou e foi dormir. e eu fiquei na sala com a
televisão ligada, sem ver nada, sabendo exatamente em que cama ela tinha ido
deitar.
e depois de um tempo eu levantei e fui pelo corredor.
a porta tava encostada, não fechada, e o corredor aceso do lado de fora. e eu
parei ali.
ela tinha puxado a colcha pro pé da cama. e tava de bruço no meu lençol com a
cara enfiada no travesseiro. não era dormir. dá pra ver quando a pessoa tá
dormindo, e não era isso — ela tava com o nariz no travesseiro, respirando
aquilo, parada, e ficou assim um tempo.
e aí ela desceu.
desceu o corpo no lençol, foi baixando até parar em cima da mancha — em cima do
lugar exato, aquele que eu tinha coberto com a colcha três horas antes — e
encostou o rosto ali e cheirou. direto. sem pressa. não foi um cheiro sem querer, não foi
ela ajeitando o travesseiro, foi ela procurando uma coisa e achando.
e ficou. com a cara ali, na minha cama, um tempo que eu não sei dizer quanto foi.
e eu de pé no corredor, do lado de fora do meu próprio quarto, olhando pra
dentro pela porta encostada.
mesmo corredor. mesma porta. menos de vinte e quatro horas depois.
não tinha nada pra ela achar naquele quarto. e ela achou.
a gente nunca falou sobre aquilo. nem naquela noite, nem em nenhum dia dos anos
que vieram depois.
contei