Ela sentia falta das conversas.
Não das mensagens em si, mas daquelas pausas durante o dia que, por alguns minutos, faziam o resto do mundo parecer distante. Bastava aparecer o nome dele na tela para que um sorriso involuntário surgisse em seu rosto. Era irritante perceber o quanto alguém podia ocupar seus pensamentos sem nunca ter, de fato, ocupado seus braços.
Ele gostava de provocá-la de um jeito quase imperceptível. Um comentário inteligente, uma ironia discreta, um "você está bonita hoje" dito como quem não queria dizer nada. E depois aquele sorriso de canto de boca, como se soubesse exatamente o estrago que causava.
Os olhos azuis eram injustos.
Ela nunca conseguia sustentá-los por muito tempo. Sempre desviava, tímida, escondendo o rubor atrás de uma xícara de café ou da tela do computador. O jeito meigo denunciava tudo aquilo que sua razão insistia em negar.
Ambos eram casados.
Essa era a frase que repetiam para si mesmos como uma oração silenciosa. Um lembrete. Um freio.
Mas havia dias em que o destino parecia gostar de testar pessoas sensatas.
Ele sempre encontrava um motivo para aparecer. Uma dúvida sobre o sistema. Uma ideia para melhorar um fluxo. Uma funcionalidade nova que fazia mais sentido discutir pessoalmente. Ela já nem sabia se as visitas eram realmente necessárias ou se eram apenas uma desculpa para dividirem alguns minutos.
Nunca perguntava.
Também não queria descobrir.
As conversas começavam profissionais. Terminavam falando da vida, de sonhos antigos, de viagens, de músicas, de lembranças da infância e de silêncios longos demais para duas pessoas que deveriam ser apenas colegas.
Havia um jogo entre eles.
Um elogio disfarçado de brincadeira.
Uma provocação escondida em uma frase comum.
Olhares demorados que duravam apenas o suficiente para bagunçar o restante do dia.
Quando ele ia embora, a conversa não terminava.
Ela apenas mudava de lugar.
Minutos depois, o celular vibrava.
Uma pergunta que já tinha resposta.
Uma piada.
Uma provocação.
As mensagens tinham uma coragem que os dois escondiam quando estavam frente a frente. Nunca diziam exatamente o que pensavam, mas deixavam espaço suficiente para que a imaginação completasse o restante.
Era um jogo perigoso.
E viciante.
Até que ela mudou de setor.
De repente, as visitas deixaram de acontecer.
Já não fazia sentido ele aparecer com a mesma frequência. As desculpas desapareceram junto com a rotina que haviam construído sem perceber.
As mensagens, antes diárias, tornaram-se ocasionais.
Depois, raras.
Hoje, quando o celular vibra, ela ainda sente, por uma fração de segundo, aquela expectativa antiga. A mesma que fazia seu coração acelerar antes mesmo de ler o nome na tela.
Quase nunca é ele.
Os dias seguiram seu curso. Cada um mergulhou na própria rotina, em novos desafios, novas responsabilidades. A distância foi crescendo de maneira silenciosa, sem discussões, sem despedidas, apenas porque ambos entenderam que continuar alimentando aquela proximidade significava caminhar perigosamente em direção a um limite que nenhum dos dois queria ultrapassar.
Mas algumas pessoas deixam marcas difíceis de apagar.
Às vezes ela prepara um café e, por um instante, lembra que já sabia exatamente como ele gostava. Em outras, surge uma ideia que ela sabe que renderia uma longa conversa, seguida de provocações e daquele sorriso de canto de boca que sempre a desarmava.
Ainda existe uma fagulha.
Pequena.
Silenciosa.
Perigosa.
Não porque ela acredite que algo ainda vá acontecer.
Mas porque sabe, com uma sinceridade quase incômoda, que bastaria a vida colocá-los novamente na mesma rotina, com tempo para conversas demoradas, cafés compartilhados e aqueles olhos azuis sustentando os dela por alguns segundos a mais...
...para que o limite entre a razão e o desejo voltasse a parecer assustadoramente próximo.