Essa dicotomia me consumia e, ao mesmo tempo, era a gasolina que queimava no meu peito. Aos 45 anos, na maturidade de uma mulher que já viveu o suficiente para saber exatamente o que quer, eu me pegava com o coração disparado como o de uma garota de dezessete anos prestes a cometer a maior loucura da vida. Enquanto fingia olhar a paisagem pela janela, o fogo subia devagar, espalhando-se pelas minhas coxas. Eu olhava para mim mesma no reflexo do vidro. Não, eu não era mais uma menininha, e nem queria ser. Eu era uma mulher feita. Tinha os quadris largos, aquela estrutura de falsa gorda cheia de curvas bem distribuídas, onde tudo continuava no lugar, firme e desenhado pela vida. Meu corpo não era frágil; era quente, faminto, capaz de gozar três, quatro vezes numa única entrega, transbordando de uma vitalidade que deixaria qualquer mocinha no chinelo. Eu estava viva. Absolutamente viva. Mas ninguém ali fora sabia disso. Para o mundo, para os vizinhos, para a minha família e, principalmente, para o Marcelo, meu marido, eu era a impecável Dona Helena. A esposa exemplar que mantinha o chão brilhando, a comida pronta no horário e que cumpria suas obrigações na cama de forma devotada e previsível. Eles olhavam para mim e viam calmaria, serenidade, o pilar de um lar perfeito. Eles não faziam ideia do monstro de desejo que habitava sob esse vestido comportado. Não sabiam que a mesma mulher que preparava o café da manhã era a que gostava de ser xingada e gemia palavrões no ouvido de outro homem. Não imaginavam que o meu maior segredo não era apenas o desejo, mas a necessidade crua de ser usada, de me entregar sem filtros, de ser suja no sentido mais visceral e libertador da palavra — de deixar de ser a dona de casa irrepreensível para virar apenas corpo e instinto nas mãos do Gabriel. Amigo do meu marido, que foi apenas uma vez na nossa casa e depois nada foi igual. Entrar naquele carro a caminho de um motel vagabundo de beira de estrada, com o peito queimando sob a gola alta e a promessa do choque entre o meu luxo velado e a decadência daquele lugar, era a prova final de que ninguém jamais conheceria a minha verdadeira essência. Helena, a mulher perfeita, era só uma personagem. A mulher real estava prestes a ser abatida naquela cama de rodovia, e a simples ideia desse contraste me fazia tremer inteira por dentro.
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