Talvez fosse mais fácil contar a história assim. Dizer que ele me ignorava, que era frio comigo, que passávamos semanas brigando ou que eu tinha algum motivo dramático para procurar outro homem.
Mas seria mentira.
Daniel era um bom marido.
E talvez tenha sido justamente isso que tornou tudo tão gostoso.
Naquela época, estávamos casados havia alguns anos e nossa vida tinha entrado naquela fase confortável em que praticamente tudo podia ser previsto. Eu sabia a hora em que ele chegaria em casa, o que faria depois do jantar, qual série sugeriria assistir e até de que lado da cama encontraria o celular dele carregando.
E ele também me conhecia.
Ou achava que conhecia.
Eu me chamo Mara. Tenho cabelos negros, compridos, pele morena clara e um corpo que sempre chamou atenção, mesmo quando eu fingia não perceber. Meus seios nunca foram enormes — médios, proporcionais —, mas meus quadris eram largos e minha bunda sempre foi, sem falsa modéstia, meu grande atributo.
Eu sabia disso desde muito nova.
Sabia pelo jeito como alguns homens olhavam quando eu passava. Sabia pelas calças que precisavam servir na cintura e, ao mesmo tempo, dar conta do resto. E sabia porque Daniel adorava meu corpo.
Naquela época, eu ainda me vestia de maneira relativamente comportada para trabalhar, embora gostasse de valorizar minhas curvas. Calças sociais ajustadas, saias, blusas discretas. Nada que pudesse ser chamado de vulgar.
Ainda.
Foi no trabalho que conheci Rafael.
Na verdade, “conheci” não é exatamente a palavra. Já trabalhávamos juntos havia algum tempo. Ele era de outro setor, e nossa relação tinha se resumido a cumprimentos no corredor e conversas profissionais.
Até aquela terça-feira.
Eu estava diante da máquina de café quando ele apareceu atrás de mim.
— Mara.
— Rafael.
— Posso fazer uma pergunta?
Olhei por cima do ombro.
— Dependendo da pergunta.
Ele sorriu.
— Você sabe que deixa metade dos homens daqui olhando quando passa pelo corredor?
Ri.
— Essa era a pergunta?
— Não. A pergunta era se você faz de propósito.
Aquilo deveria ter me incomodado.
Em vez disso, gostei.
— Sou casada, Rafael.
Levantei a mão esquerda, mostrando a aliança.
Ele olhou para ela.
Depois olhou para mim.
— Eu não perguntei se você era casada.
Foi a primeira vez que senti aquilo.
Não desejo propriamente dito. Ainda não.
Foi uma pequena descarga de adrenalina.
Peguei meu café e fui embora sem responder, mas passei o restante da tarde lembrando daquela conversa.
Principalmente do jeito como ele havia olhado para minha aliança sem demonstrar o menor constrangimento.
Quando cheguei em casa, Daniel estava preparando o jantar.
Ele veio me beijar.
— Como foi o trabalho?
— Normal.
Minha primeira mentira.
Pequena. Ridícula até.
Mas lembro perfeitamente de olhar para meu marido depois de responder e sentir alguma coisa diferente dentro de mim.
Eu tinha um segredo.
Daniel me beijava sem saber que, poucas horas antes, outro homem havia praticamente admitido que me desejava.
E eu gostei disso mais do que deveria.
Nos dias seguintes, Rafael começou a aparecer com frequência suspeita perto da minha mesa.
Às vezes trazia café. Outras, inventava alguma pergunta que poderia perfeitamente ter resolvido por mensagem.
Eu fingia irritação.
Ele fingia acreditar.
Até que, numa tarde, inclinou-se perto da minha mesa e perguntou:
— Seu marido é ciumento?
Meu coração acelerou.
— Por quê?
— Curiosidade.
— Daniel confia em mim.
Rafael ficou alguns segundos me encarando.
— Isso não foi o que eu perguntei.
Cruzei os braços.
— E por que está tão interessado no meu marido?
— Não estou.
Ele baixou um pouco a voz.
— Estou interessado na mulher dele.
Senti meu rosto esquentar.
— Você não presta.
— Você está sorrindo.
Parei imediatamente.
Ou tentei.
— Vai trabalhar, Rafael.
Ele se afastou.
Naquela noite, fiquei diante do espelho do banheiro por alguns minutos antes de tomar banho.
Olhei meu próprio corpo.
Não porque estivesse insegura.
Era justamente o contrário.
Passei as mãos pelos quadris e me virei um pouco, observando meu reflexo de lado.
Eu sabia exatamente o que Rafael via.
Daniel apareceu na porta.
— Admirando a paisagem?
Sorri.
— Talvez.
Ele me abraçou por trás e beijou meu pescoço.
Olhei nossa imagem refletida no espelho.
Meu marido atrás de mim.
Minha aliança na mão esquerda.
E outro homem ocupando meus pensamentos.
Foi errado.
E foi justamente isso que me excitou.
Essa foi a primeira mudança que percebi em mim.
Eu não queria Rafael apesar de ser casada.
Começava a desejá-lo porque era casada.
Na semana seguinte, comecei a provocar.
Primeiro de maneiras que me permitiam continuar mentindo para mim mesma.
Uma saia um pouco mais justa.
Uma blusa diferente.
Passava perto da mesa dele quando poderia utilizar outro corredor.
E, quando percebia Rafael olhando para minha bunda, em vez de ficar ofendida, diminuía discretamente o passo.
Safada?
Naquela época, eu teria negado.
Hoje posso admitir.
Eu estava adorando.
Então vieram as mensagens.
Começaram profissionais.
Depois viraram piadas.
Depois, elogios.
Até que uma noite, enquanto Daniel estava ao meu lado no sofá assistindo à televisão, meu celular vibrou.
Rafael.
“Seu marido está aí?”
Meu coração disparou.
Olhei para Daniel.
Ele continuava assistindo à televisão.
Respondi:
“Está.”
A resposta veio imediatamente.
“Então não vou dizer o que pensei quando você passou pela minha mesa hoje.”
Mordi o lábio.
“Melhor não.”
Três pontinhos apareceram.
“Você quer que eu diga.”
Apaguei a conversa.
Daniel olhou para mim.
— Quem era?
Por um segundo, achei que ele pudesse ouvir meu coração.
— Pessoal do trabalho.
Segunda mentira.
Dessa vez, senti aquela descarga novamente.
Mais forte.
Inclinei a cabeça no ombro de Daniel e continuei assistindo à televisão como a esposa perfeita.
Por dentro, estava queimando.
Comecei a entender uma coisa sobre mim mesma que mudaria minha vida: esconder era quase tão excitante quanto fazer.
Talvez até mais.
Depois disso, Rafael e eu atravessamos rapidamente todas aquelas pequenas fronteiras que pessoas comprometidas fingem não perceber.
Almoçávamos juntos.
Ele tocava minha cintura ao passar atrás de mim.
Eu permitia.
Nossas mensagens ficaram cada vez mais provocantes.
E comecei a mencionar Daniel de propósito.
— Preciso ir embora. Meu marido está me esperando.
— Daniel vai me buscar hoje.
— Não posso ficar até tarde. Sou uma mulher casada.
Eu gostava de dizer aquilo para Rafael.
Gostava de lembrá-lo de que havia outro homem.
Principalmente porque percebi que isso também o provocava.
Até que, numa sexta-feira, trabalhamos até mais tarde.
Quando terminamos, quase todo mundo já tinha ido embora.
Ficamos sozinhos perto dos elevadores.
Rafael apertou o botão.
— Vai direto para casa?
— Vou.
— Marido esperando?
Olhei para minha aliança.
— Sempre.
As portas se abriram.
Entramos.
Assim que se fecharam, ele perguntou:
— Posso fazer uma coisa que provavelmente vai me dar problemas?
Meu estômago gelou.
Eu sabia.
E poderia ter impedido.
Não impedi.
— Depende.
Ele se aproximou.
— Disso.
Rafael me beijou.
Fiquei imóvel por talvez um segundo.
Depois correspondi.
Ele começou devagar, como se ainda me desse a oportunidade de recuar. Não recuei. Senti a mão dele pousar na minha cintura e um arrepio percorrer meu corpo inteiro.
Quando apoiei a mão em seu peito, meus olhos caíram sobre a aliança.
Eu estava beijando outro homem.
A constatação deveria ter me feito parar.
Fez exatamente o contrário.
Meu coração acelerou ainda mais, e me afastei apenas o suficiente para respirar.
— Isso é uma péssima ideia — murmurei.
— Eu sei.
Olhei para ele durante um instante.
Então fui eu quem agarrou sua camisa e o puxou de volta.
Beijei Rafael outra vez, agora sem poder fingir que apenas estava correspondendo ao que ele havia começado. Minha mão continuava espalmada sobre seu peito, e a aliança permanecia perfeitamente visível entre nós.
Foi naquele instante que descobri algo sobre mim mesma que ainda teria dificuldade para admitir durante algum tempo.
Saber que estava traindo Daniel tornava tudo mais excitante.
Quando nos afastamos, levei imediatamente a mão à boca.
— Meu Deus.
Rafael sorriu.
— Desculpa.
— Não está, não.
— Não.
Olhei para a aliança.
Eu deveria estar arrependida.
Em vez disso, comecei a rir.
Baixinho.
Nervosa.
Excitada.
— Acabei de trair meu marido.
Rafael respondeu:
— Tecnicamente...
— Não estraga.
As portas se abriram no estacionamento.
Saí primeiro.
— Isso não vai acontecer de novo.
A frase clássica.
A mentira clássica.
E talvez a mais descarada que eu tivesse contado até então.
Porque, naquela mesma noite, deitada ao lado de Daniel, fiquei pensando no beijo.
E, no dia seguinte, mandei uma mensagem para Rafael.
“Precisamos conversar.”
Marcamos de nos encontrar depois do expediente na segunda-feira.
Escolhi um bar afastado do trabalho.
Fui usando uma saia que sabia que Rafael gostava.
Isso deveria ter sido suficiente para eu admitir quais eram minhas verdadeiras intenções.
Conversamos durante quase uma hora.
Sobre responsabilidade.
Sobre casamento.
Sobre como aquilo era errado.
Uma hora inteira de hipocrisia até Rafael perguntar:
— Quer que eu vá embora?
Olhei para ele.
— Não.
— Quer ir para casa?
Pensei em Daniel.
— Não.
Foi naquele instante que tomei minha decisão.
Não aconteceu por acidente.
Não fui seduzida contra a minha vontade.
Eu escolhi.
Fomos para um lugar onde teríamos privacidade.
Quando a porta se fechou atrás de nós, fiquei alguns segundos parada.
Rafael se aproximou.
Coloquei a mão no peito dele.
— Espera.
— Arrependeu?
Olhei para minha mão.
Para a aliança.
Depois ergui os olhos.
— Não.
Sorri.
— Quero ficar com ela.
— Com o quê?
Levantei a mão esquerda entre nós.
— Minha aliança.
Ele entendeu.
E, naquele momento, descobri uma parte de mim que eu ainda não sabia nomear.
Eu não queria fingir que era solteira.
Não queria esquecer Daniel.
Era exatamente o contrário.
Eu queria olhar para aquela aliança e saber que estava fazendo algo que ele jamais imaginaria.
Rafael segurou minha cintura.
— Você é perigosa, Mara.
— Ainda não.
Puxei-o para perto.
— Mas acho que estou aprendendo.
Nós nos beijamos novamente.
Dessa vez, eu sabia exatamente onde aquilo terminaria.
Deixei que ele me conduzisse, sentindo meu corpo responder à proximidade dele enquanto minha cabeça repetia uma única coisa:
Eu estava traindo Daniel.
Enquanto nossas línguas se enrolavam, levantei a mão esquerda e fiquei olhando para a aliança de ouro no meu dedo. O metal brilhava sob a luz baixa do abajur. Meu casamento estava ali, preso ao meu dedo, enquanto Rafael me guiava até o sofá.
Eu me ajoelhei diante dele, abri o zíper de sua calça e seu pau saltou duro. Antes de chupá-lo, parei mais uma vez para olhar minha aliança. Girei o anel devagar no dedo, depois segurei a base do pau dele com a mão esquerda e abri a boca.
Engoli até o fundo da garganta. Engasguei, e a saliva escorreu pelo meu queixo. A aliança brilhava diante dos meus olhos toda vez que minha mão subia e descia.
Era impossível ignorá-la.
E eu não queria ignorá-la.
Rafael me puxou para cima, virou-me de bruços no sofá e levantou meu vestido até a cintura. Arrancou minha calcinha com um puxão e passou os dedos entre minhas nádegas, encontrando minha boceta já escorrendo.
Virei a cabeça e procurei minha própria mão.
A aliança continuava ali.
Rafael esfregou o pau na minha entrada.
Quando ele empurrou, gemi alto. Senti o pau dele abrir minha boceta devagar, centímetro por centímetro, até estar completamente enterrado dentro de mim.
E eu ainda olhava para o anel.
Cada estocada fazia meu corpo se mover contra o sofá. Rafael segurou minha bunda grande com as duas mãos e começou a meter mais forte, enquanto o som molhado das estocadas preenchia o apartamento.
Mas, por mais absurdo que parecesse, parte de mim continuava concentrada naquele pequeno círculo de ouro.
Na prova de que eu pertencia a outro homem.
Na prova de que Daniel confiava em mim.
E na certeza de que, mesmo assim, eu estava ali.
Rafael me virou de costas, levantou minhas pernas sobre os ombros e voltou a me foder olhando nos meus olhos. Ergui a mão esquerda entre nossos corpos, quase exibindo a aliança para nós dois enquanto ele me penetrava sem parar.
Meu casamento estava ali, no meu dedo, enquanto outro homem me comia.
— Você é minha agora — ele rosnou.
Olhei para Rafael.
Depois para a aliança.
— Sim — gemi. — Sou sua.
Naquele instante, eu sabia que não era verdade.
E talvez por isso tenha sido tão gostoso dizer.
Rafael gozou primeiro, jorrando porra quente dentro de mim. Senti os jatos me enchendo e depois escorrendo para fora enquanto ele ainda se movia sobre mim.
Quando saiu, permaneci deitada, as pernas abertas, o corpo ainda tremendo e a aliança exatamente onde sempre estivera.
Passei os dedos sobre ela.
Girei o anel lentamente.
Aquilo deveria ter provocado culpa.
Em vez disso, só tornou tudo mais intenso.
Pensei em Daniel confiando em mim, provavelmente sem desconfiar de nada. Pensei que ele poderia estar em casa naquele exato momento, imaginando que a mulher com quem havia se casado estava simplesmente trabalhando até mais tarde.
E eu estava ali, com a porra de outro homem ainda escorrendo de mim.
Meu coração disparou outra vez.
Foi então que compreendi que Rafael era apenas parte daquilo.
O que realmente estava despertando em mim era o segredo.
A mentira.
A aliança no meu dedo enquanto eu fazia exatamente aquilo que uma esposa fiel jamais deveria fazer.
Depois, fiquei alguns instantes ao lado dele, ainda tentando recuperar o fôlego.
Não era apenas Rafael que despertava meu desejo.
Era fazer algo que Daniel jamais imaginaria.
Era voltar para casa depois e olhar para meu marido sabendo de uma coisa que só eu e Rafael sabíamos.
E descobrir isso sobre mim mesma foi perigosamente excitante.
Olhei novamente para minha aliança.
Eu tinha atravessado a linha.
Não dava mais para chamar aquilo de brincadeira, flerte ou erro.
Eu tinha traído Daniel.
De verdade.
Peguei o celular.
Três mensagens dele.
“Amor, vai demorar?”
“Quer que eu faça alguma coisa para você comer?”
E, por último:
“Te amo. Dirige com cuidado.”
Fiquei olhando para aquela última mensagem.
Rafael perguntou:
— Tudo bem?
Eu deveria ter chorado.
Deveria ter sentido culpa.
Em vez disso, aquela mesma sensação quente percorreu meu corpo novamente.
Digitei:
“Também te amo. Estou terminando umas coisas do trabalho. Já vou para casa ??”
Enviei.
Rafael leu por cima do meu ombro.
— Você acabou de mandar isso?
Bloqueei o celular.
— Acabei.
— Depois do que a gente fez?
Virei para ele.
E sorri.
Foi ali que Mara, a esposa que jamais trairia o marido, começou a desaparecer.
— Ele não precisa saber.
Ainda não entendia até onde aquela frase me levaria.
Mas já sabia de uma coisa.
Eu queria fazer de novo.
Gostoso demais gostei muito tesão que foda
Excelente conto, e depois da primeira mentira, não tem mais volta, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer algo. Parabéns pelo conto.