No começo, achei ótimo.
Eu gostava de ter a casa só para mim de vez em quando. Gostava de dormir atravessada na cama, assistir qualquer coisa na televisão sem precisar perguntar o que ele queria ver e, principalmente, da sensação de que ninguém estava esperando nada de mim.
Nosso casamento não era ruim
Éramos felizes o suficiente.
Tínhamos nossa rotina, nossos amigos, nossas contas, nossas pequenas discussões e aquela intimidade confortável que vem depois de alguns anos juntos.
Mas havia uma coisa que eu nunca tinha parado para pensar muito.
Eu conhecia muito bem a mulher que eu era com André.
Não tinha tanta certeza de conhecer a mulher que eu era quando ninguém estava olhando.
O apartamento onde morávamos pertencia a uma senhora chamada Marta.
Ela morava em outro bairro e alugava alguns imóveis que tinha herdado da família.
Era simpática, mas quase nunca aparecia pessoalmente.
Quem aparecia de vez em quando era o filho dela, Daniel.
Eu já o conhecia superficialmente.
Devia ter uns trinta anos, talvez um pouco menos.
Não era exatamente o tipo de homem que faria uma mulher virar a cabeça na rua.
Pelo menos não tinha feito isso comigo.
Até aquela semana.
André tinha viajado havia quatro dias quando ouvi a campainha.
Era Daniel.
— Oi. Minha mãe pediu pra eu olhar aquele negócio da janela da sala.
Abri a porta usando uma camiseta velha e um short que eu provavelmente jamais usaria se soubesse que alguém iria aparecer.
— Pode entrar.
Ele entrou, olhou a janela e começou a mexer no mecanismo.
Fiquei alguns minutos conversando com ele.
Nada demais.
Mas alguma coisa naquela conversa me chamou atenção.
Não nele.
Na maneira como eu estava me comportando.
Eu estava mais solta.
Mais brincalhona
Fiz uma piada que provavelmente não teria feito se André estivesse ali.
Daniel riu.
Continuei conversando.
Quando percebi, ele estava havia quase vinte minutos dentro do apartamento.
E eu não estava com pressa nenhuma de fazê-lo ir embora.
Foi só depois que ele saiu que comecei a pensar nisso.
Não pensei: "Daniel é gostoso."
Não foi isso.
Pensei:
"Por que eu gostei tanto de ser uma mulher que estava flertando?"
Essa pergunta ficou na minha cabeça.
Naquela noite, tomei banho, coloquei uma camisola e fiquei alguns minutos diante do espelho.
Comecei a imaginar a conversa novamente.
Não a pessoa.
A situação.
A sensação de ser uma mulher sozinha em casa, conversando com um homem que sabia que ela era casada, e ainda assim existia aquele pequeno espaço onde tudo podia ser interpretado de duas maneiras.
Aquilo me excitou.
E foi aí que percebi uma coisa que me deixou um pouco assustada.
Eu não estava fantasiando com Daniel.
Eu estava fantasiando comigo mesma.
Com uma versão de mim que não precisava imediatamente colocar um rótulo em tudo.
Na manhã seguinte, comecei a me arrumar melhor.
Não porque esperasse que Daniel aparecesse.
Escolhi uma blusa que eu gostava.
Passei um pouco de maquiagem.
Soltei o cabelo.
Me permiti me tocar
Sentir a minha mão pelo corpo, como se não fosse a minha
Passando pelos meus seios, descendo pela barriga
Encostando no elástico da minha calcinha
Não a mão de Daniel
Não a mão de André
Só outra mão
Alguns dias depois, Daniel voltou para verificar a janela.
Dessa vez, eu estava preparada.
Ou achava que estava.
Abri a porta e sorri.
— Você de novo?
— Infelizmente.
Eu sorri
Ele sorriu
Foi um comentário completamente inocente.
Provavelmente.
Mas percebi imediatamente que eu havia deixado uma pequena abertura naquela conversa.
E, pela primeira vez, gostei da sensação.
Enquanto ele trabalhava, fiquei perto.
Perguntei coisas que não precisava perguntar.
Fiz comentários que poderiam ser simplesmente simpáticos ou poderiam significar outra coisa.
E comecei a perceber uma coisa interessante.
Eu gostava de não saber exatamente onde estava a linha.
Mais do que isso: gostava de brincar com ela.
Quando ele terminou, ficou alguns segundos parado na sala.
— Acho que agora resolveu.
— Então você não precisa mais voltar.
— Acho que não.
Fiquei olhando para ele.
Sorri e dei tchau
Dessa vez, ele percebeu.
Eu soube pelo sorriso.
E isso foi suficiente.
Ele foi embora.
Fechei a porta.
Encostei nela por alguns segundos.
Meu coração estava acelerado.
Não tinha acontecido nada.
Absolutamente nada.
Mas eu tinha acabado de descobrir uma coisa sobre mim.
Eu gostava daquela sensação.
Não necessariamente dele.
Da possibilidade.
Da pequena transgressão.
Da ideia de que eu podia desejar alguma coisa
Durante os dias seguintes, comecei a explorar essa ideia na minha própria cabeça.
Passei a reparar em homens na rua.
No supermercado.
Na academia.
No elevador.
Antes, eu simplesmente classificava alguém como bonito ou não.
Agora eu me permitia continuar olhando.
E me perguntava:
"E se?"
Não "e se eu tivesse um caso com ele?"
Era algo mais amplo.
"E se eu pudesse escolher?"
"E se eu pudesse experimentar?"
"E se eu não precisasse decidir antecipadamente o que uma mulher casada pode ou não pode querer?"
"E se fosse ele a pessoa que decidisse avançar?"
A diferença parecia pequena.
Mas não era.
Eu tinha passado boa parte da vida pensando que desejo era uma coisa que simplesmente acontecia.
Você gostava do seu marido.
Seu marido era seu homem.
Fim.
Agora comecei a perceber que desejo podia ser muito mais interessante do que isso.
Podia ser curiosidade.
Podia ser fantasia.
Podia ser observar.
Podia ser provocar.
Podia ser imaginar uma situação.
E, talvez, também pudesse ser alguma coisa que eu ainda não sabia definir.
Uma noite, sentei no sofá com uma taça de vinho.
André me mandou uma mensagem dizendo que estava com saudade.
Eu respondi que também estava.
E era verdade.
Eu ainda o amava.
Isso não desapareceu.
Mas alguma coisa dentro de mim tinha mudado.
E eu não queria que aquilo desaparecesse.
Pelo contrário.
Eu queria entender até onde aquela nova versão de mim poderia chegar.
Estava começando a procurar a mim mesma.
A mulher que existia por trás da esposa.
A mulher que podia olhar, desejar, fantasiar, provocar, recuar e escolher.
A mulher que podia descobrir o que queria antes de decidir com quem queria.
E, pela primeira vez, eu não estava pensando:
"Será que isso é errado?"
Estava pensando:
"Será que eu quero isso?"
Para mim, aquela era uma pergunta completamente nova.
E eu estava começando a gostar muito mais dela.
ramone84