Proposta Indecente

Há um tipo de magia inevitável que acontece quando dois corpos carregados de desejo e desprovidos de pudores se encontram. Se quiser o acaso que eles sejam comandados por mentes criativas… aí a diversão pode ganhar contornos totalmente extraordinários.
Ao sair de casa sob o sol brando daquela terça-feira de primavera, eu era só rotina. Tinha a lista de afazeres do dia sobre a mesa, como quem cumpre uma tabela obrigatória: o treino, o escritório, o salão, banho, encontro, casa, banho, cama. Uma sequência inofensiva e bem ensaiada, que novamente realizei à perfeição. Mas quem visse o checklist preenchido no fim do dia mal poderia imaginar que acabei só voltando para casa após encenar o fetiche de um cara que eu mal conhecia.
Eu já não era nenhuma santa. Já tinha conhecido homens e mulheres que foram me fazendo desenvolver tanto minha identidade quanto minhas habilidades sexuais. Era uma época de intensa exploração dos meus horizontes, de experimentação normalmente calculada, e eu já havia recebido vários convites inesperados, muitos criativos e alguns até arriscados. Então, já imaginava que era só uma questão de tempo até receber uma proposta daquele tipo.
Ela veio de um rapaz alguns anos mais novo que eu, que conheci em um aplicativo. Logo no início de nossas conversas já pude perceber o grande interesse dele em explorar mais sua sexualidade. Perguntava-me das minhas experiências, das minhas fantasias e fetiches.
Entendi que muitas vezes a pergunta vem porque o homem quer assumir alguma coisa sobre si, mas não de forma abrupta. Assim, quando ele me perguntou se eu tinha algum fetiche, depois de dar uma resposta que muito o agradou, perguntei se ele tinha algum. Com certa vergonha, confessou ter um do qual eu já tinha ouvido falar bastante, mas que nunca havia despertado meu interesse. Ocorre que há desejos que nascem assim, inspirados por sugestão alheia.
Como demorou para finalmente nos encontrarmos — já que ele estava gravando no exterior quando demos o match —, fomos nos conhecendo melhor por mensagem de texto, atiçando a criatividade sexual um do outro. Ficamos de marcar um encontro quando ele voltasse para Munique. A essa altura, eu já tinha concordado com a ideia de viver o fetiche que ele me confessara. Ao longo de todo o dia do nosso date, fui descobrindo que ele tinha a fantasia muito bem elaborada, e que a minha criatividade era parte fundamental da engrenagem.
Damien era diretor de cinema; dar ordens era parte tanto do seu trabalho quanto da sua personalidade. Por isso, surpreendeu-me quando falou que, naquele nosso encontro, eu é quem teria o total controle. E eu, que me digo switcher — ou seja, em jogos de poder às vezes mando e às vezes obedeço, dependendo da parceria —, adorei ter meu papel bem definido logo de cara.
A realização desse fetiche começou horas antes de eu chegar à sua casa. Ele me enviou uma mensagem às nove da manhã me dando bom-dia e avisando que já podíamos começar.
Enviei a primeira ordem, direta e sem rodeios, marcando o início do nosso jogo antes mesmo de tomar o segundo café do dia:
“A partir de agora, você só me contata para mandar provas de que está obedecendo às minhas ordens. Sua única função hoje é se preparar para mim. Para cada ordem, quero uma foto de comprovação. Entendido?”
A resposta dele veio em segundos — um simples “Yes, my queen” acompanhado do primeiro clique: ele em pé diante do espelho, de cabeça baixa. A partir dali, o sexo não esperou o anoitecer; começou em pequenas doses de controle à distância. Como ele só precisava passar no escritório depois do almoço, organizei minhas ordens considerando seu itinerário. Entre uma reunião e outra no trabalho, eu sacava o celular, ditava os passos da sua entrega e avaliava as imagens que chegavam.
Às dez da manhã, mandei a primeira tarefa prática:
“Raspe todos os pelos da sua virilha. Quero tudo lisinho. Os das axilas somente aparados, e deixe intactos todos os das pernas e do peito. Apare a barba, passando óleo nela ao terminar.”
Cerca de uma hora e meia depois, recebi a foto da barba recém-alinhada e a confirmação de que tudo fora cumprido.
Às três da tarde, dei o passo seguinte, testando a vulnerabilidade dele no próprio ambiente corporativo:
“Vá ao banheiro do escritório, tire sua cueca e toque-se pensando no nosso encontro mais tarde. Não quero vídeo nem foto; envie-me apenas o áudio. Fique o resto do dia sem cueca.”
Meia hora depois, chegou uma gravação curta na qual eu podia ouvi-lo soltar gemidos contidos, ressoando na acústica fria do banheiro. Logo em seguida, veio a foto dele segurando a peça de algodão preto. Ver um homem acostumado a comandar sets de filmagem inteiros agora vulnerável por ordens minhas nutria meu tesão a cada hora.
Às cinco da tarde, veio a preparação final:
“Tome um banho caprichado, apare as unhas das mãos e dos pés, pegue seu perfume favorito e dê três borrifadas no pulso, no pescoço e no peito.”
A foto de confirmação mostrou o frasco elegante posicionado ao lado do relógio sobre a mesa, marcando o tempo que parecia correr mais devagar.
Toquei seu interfone pontualmente às dezenove horas.
Subi as escadas com uma antecipação inédita. Era a primeira vez que encontrava alguém diretamente em sua própria casa, já com um objetivo traçado em detalhes. A porta do apartamento estava entreaberta. Pendurado na parte interna, havia um bilhete escrito à mão: “Estou na segunda porta à esquerda te esperando para fazer tudo o que você mandar.”
Entrei sem tirar as sandálias pretas de salto alto, adornadas por um laço delicado no tornozelo. Vestia um vestido preto de comprimento abaixo do joelho, que acompanhava as curvas do meu corpo sem revelar nada além da tatuagem no ombro.
Avancei a passos lentos pelo corredor. Pela fresta da porta indicada, via-se o chão iluminado pela meia-luz que ele preparara. Entrei no quarto, fechei a porta e recostei-me nela em silêncio, observando o ambiente. Damien esperava meu primeiro comando com a respiração arfante.
No canto do quarto amplo, em frente à janela, havia uma poltrona de couro marrom elegante. Ao lado, sobre uma pequena mesa de vidro, repousavam uma garrafa de vinho e apenas uma taça de cristal — para mim.
Diante da poltrona, estendia-se um tapete preto macio. Sobre ele, Damien ajoelhava-se de olhos vendados por uma gravata de seda, mãos entrelaçadas nas costas, cabeça baixa… e completamente nu. Meus olhos se arregalaram, e do canto da minha boca escapou o sorriso involuntário de quem descobre a extensão do próprio poder.
Dei duas voltas lentas aonredorndo seu corpo tenso antes de me agachar atrás dele. Aspirei o aroma do seu pescoço, entrelacei os dedos em seus cabelos, puxando-lhe a cabeça levemente para trás, e sussurrei em seu ouvido:
— Well done.
Ele abriu a boca para responder, mas cortei-o de imediato, ordenando que só falasse quando autorizado. O silêncio absoluto do cômodo tornava tudo visceral. Ajoelhei-me à sua frente e retirei minha calcinha por baixo do vestido, apoiando uma mão em sua cabeça para manter o equilíbrio. Com a peça pendurada no indicador, fiz um movimento de pêndulo diante do seu rosto, permitindo que ele assimilasse meu perfume. Dobrei a renda e a acomodei entre seus dentes.
— Tire as mãos das costas e toque minhas sandálias.
Ele tateou o tapete até alcançar meus pés. Foi contornando cada centímetro do calçado com a ponta dos dedos, desenhando mentalmente a estrutura das tiras e dos saltos. Ordenei que as desabotoasse e retirei-as, acomodando-me na poltrona. Só então notei que, ao lado da mesa, ele deixara a bacia com água morna, uma toalha limpa e um frasco de óleo de massagem.
— Lave meus pés.
Se a ordem anterior fora o preâmbulo, esta provocou nele uma ereção imediata. Sua expressão revelava uma satisfação quase devota ao executar aquele gesto. Ainda vendado, lavou meus pés com cuidado, deslizando os dedos entre os meus do pé. Secou-os com a toalha estendida sobre as próprias coxas. Entreguei-lhe o óleo de semente de uva.
— Massageie meus pés com cuidado para não me fazer cócegas.
— Yes, my queen — murmurou abafado.
Damien esfregou o líquido entre as palmas para aquecê-lo. Quando a pele quente de suas mãos envolveu meu calcanhar direito, um arrepio subiu direto pela minha espinha. Ele não usava apenas os dedos, mas a palma inteira, aplicando uma pressão firme e ritmada que transformava qualquer sensibilidade em puro deleite.
Acompanhei o movimento contínuo das mãos dele subindo pelo peito do meu pé e contornando a curva do tornozelo. O contraste entre a penumbra e a respiração dele, cada vez mais descompensada, adensava o ar do quarto. Ver aquele homem entregue aos meus pés, de olhos vendados e com a minha calcinha entre os dentes, consolidava minha autoridade de forma definitiva.
Quando o polegar dele pressionou o centro da minha sola em movimentos circulares, o estímulo ressoou imediatamente na minha pélvis. Senti minha intimidade contrair, pulsando em resposta. Meu corpo amoleceu contra o couro da poltrona enquanto minha respiração acelerava. Fechei os olhos.
Damien percebeu a alteração na minha postura. Mesmo sem enxergar, o som do meu ar saindo mais denso denunciava meu tesão. Ele passou a alternar a pressão, usando os nós dos dedos para trabalhar a base de cada um dos meus dedos, puxando-os com delicadeza antes de descer novamente até o calcanhar. O toque não era uma simples massagem; era uma preliminar calculada.
Ao abrir os olhos, vi a rigidez do seu membro reagir ao menor suspiro que me escapava. Ele estava entregue à submissão, e a resposta do meu próprio corpo deixava claro que, embora a fantasia fosse dele, o prazer era inteiramente compartilhado.
Ordenei que se aproximasse até que sua cabeça ficasse na altura do meu peito. Desatei a gravata de seus olhos e instruí:
— Ao abrir os olhos, olhe apenas para os meus pés e descreva-os.
Ele soltou um suspiro profundo ao encarar o ponto indicado. Com a voz rouca, quase num sussurro reverente, começou:
— São perfeitos… A pele tem um tom macio, suave… O arco desenha uma curva elegante que dá vontade de seguir com a língua. O calcanhar é bem delineado, e os dedos… tão alinhados, tão delicados. São a definição de sensualidade, my queen.
Um sorriso de orgulho desenhou-se em meus lábios. Eu já ouvira elogios a diversas partes do meu corpo, mas meus pés jamais haviam sido o centro de uma adoração tão minuciosa.
— Coloque a calcinha de volta na boca e olhe para mim.
Seu olhar percorreu minhas pernas entreabertas sob o vestido antes de subir até meu rosto. Quando nossos olhos se cruzaram, compartilhamos o sorriso cúmplice de quem reconhece a intensidade do momento que está construindo. Foi o nosso primeiro cumprimento real da noite.
Mandei que servisse o vinho na taça e passasse-a para mim com cuidado. Bebi devagar, sustentando o olhar sobre ele, marcando a transição para a fase seguinte. Enquanto eu apreciava a bebida, ele mantinha a adoração aos meus pés, subindo as mãos suavemente pelas minhas panturrilhas até a altura dos joelhos — o limite imposto pelo vestido, que não retirei em momento algum.
Ao terminar a taça, segurei seu queixo com firmeza, puxando seu rosto para perto e removendo a renda da sua boca. Nossos lábios se encontraram em um beijo denso, no qual o gosto do vinho se misturou ao calor da urgência acumulada ao longo do dia.
Ao nos separarmos, ordenei que ele se sentasse no chão com as pernas dobradas, abrindo espaço. Eu queria acesso direto ao seu corpo. Com os pés ainda perfumados pelo óleo, comecei a deslizar a sola de um deles por suas coxas, enquanto o outro percorria seu tronco. Apertei seus mamilos com a ponta dos dedos e ofereci-lhe meu calcanhar, que ele beijou e mordeceu com delicadeza. A língua úmida dele percorreu a extensão da minha planta do pé, demorando-se entre cada um dos meus dedos. Ele chupava-os um a um, alternando o gesto ao roçar a barba recém-aparada no meu peito do pé — uma textura áspera e surpreendentemente prazerosa.
Com Damien inteiramente entregue àquele estímulo, ordenei que pegasse minha bolsa e retirasse meu vibrador. Reclinei o corpo na poltrona, entreabrindo as pernas.
Posicionei a planta dos dois pés ao redor do pênis ereto dele, prendendo-o no centro como uma abraçadeira firme, e mandei que ele aplicasse mais óleo sobre a pele. Iniciei um movimento de fricção ritmado, deslizando meus pés para cima e para baixo por toda a extensão do seu membro. A sensação da pele aquecida deslizando contra a sola dos meus pés era estimulante. Movimentos circulares ao redor da glande provocavam nele reações intensas, que alimentavam meu próprio desejo.
Ordenei que ele posicionasse o vibrador na minha intimidade, por baixo do tecido do vestido. O contato da vibração contínua sobre o clitóris, somado à cena de ver aquele homem sendo dominado apenas pelos meus pés, disparou uma onda elétrica que percorreu todo o meu ventre.
O olhar dele alternava entre minha reação e o movimento constante dos meus pés. Acelerei o ritmo da fricção podal, apertando com precisão enquanto o brinquedo me aproximava do ápice. O som do óleo, o zumbido abafado do motor e os sons da nossa respiração preenchiam o quarto.
— Não goze — ordenei, interrompendo o movimento dos pés e enfiando o pé direito em sua boca. — Sirva-me até eu gozar.
A devoção com que ele aceitou o comando, a intensidade da sucção e o controle frenético do vibrador me levaram a um orgasmo profundo e demorado. Permiti que ele atingisse o seu logo em seguida.
Ainda refeita do clímax, ordenei que se deitasse de costas no tapete. Ajoelhei-me sobre ele, ficando de costas para o seu rosto, e sentei-me sobre meus próprios calcanhares. Meus pés formaram o encaixe exato ao redor da base do seu membro rígido, em formato da letra V. Encaixei-me devagar e passei a cavalgá-lo de costas, mantendo meus pés ao alcance das suas mãos e do seu olhar o tempo todo. Ele agarrou-se aos meus calcanhares enquanto acompanhava o ritmo do movimento até soltar um grito gutural ao atingir o ápice definitivo.
Levantei-me, fui ao banheiro me lavar e, ao voltar, ordenei que ele fosse para o chuveiro.
Enquanto o som da água prendia sua atenção, recompus-me sem pressa. Ajeitei o vestido, limpei os pés com a toalha e arrumei os cabelos diante do espelho. Caminhei até a mesa, peguei a taça de cristal e terminei o resto do vinho. No reflexo do espelho, vi um sorriso calmo e pleno — a leveza que segue a descoberta de um novo prazer. Eu entrara naquele apartamento como convidada de uma fantasia e saía como coautora de um prazer inédito.
Guardei as sandálias de salto na bolsa, que já haviam cumprido seu papel, e calcei minhas Havaianas para sair.
Minutos depois, Damien saiu do banheiro com a toalha na cintura, secando os cabelos, pronto para reencontrar a mulher que dominara seu desejo. Mas encontrou apenas o silêncio. A única presença restante era a marca discreta de batom na taça de cristal sobre a mesa de vidro, o aroma do meu perfume flutuando no ar e, sobre o tapete preto, a calcinha dobrada ao lado do frasco de óleo.
Ele caminhou até a janela e observou minha silhueta afastando-se pela calçada sob a iluminação de rua fraca, até que eu dobrasse a esquina e ele nunca mais soubesse de mim.

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Você pode ouví-lo no podcast Confissões Eróticas da Vizinha de Baixo, disponível no Spotify, Deezer e outras plataformas de áudio.

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Comentários


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biatrix Comentou em 07/09/2026

Descreveu bem uma fantasia que habita minha cabeça, mas ainda não encontrei o escravo perfeito.




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Ficha do conto

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Nome do conto:
Proposta Indecente

Codigo do conto:
271658

Categoria:
Fetiches

Data da Publicação:
07/09/2026

Quant.de Votos:
2

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1