Abra a Boca e Feche os Olhos!! (introdução)

O sol da tarde parecia cozinhar as paredes de alvenaria de São Francisco das Formigas. No andar superior da fábrica *Doces Formiguinha*, o ar-condicionado do escritório da diretoria chiava sem vencer o calor. Daniel apertava as mãos no colo, o tecido surrado do seu uniforme de operário contrastando com o terno bem cortado do Prefeito Juca, que também atuava como dono e gestor do local.

— Daniel, meu rapaz, vou direto ao ponto — disse Juca, juntando os dedos sobre a mesa de mogno lustrado. — Você sabe que é um dos meus melhores operários. Dedicado, pontual, não reclama do turno. Mas a fábrica está prestes a dar um salto enorme. Estamos fechando um contrato de exportação de nossos doces caseiros para o mercado latino-americano. Para isso, precisamos de um selo internacional de auditoria.

Juca fez uma pausa dramática, ajustando os óculos.

— E uma das exigências da certificação é rigorosa: cem por cento dos funcionários da linha de produção precisam ter o ensino médio completo. Sem exceções.

A notícia caiu sobre Daniel como uma martelada no peito. Sentiu o estômago contorcer.

— Seu Juca... o senhor sabe da minha vida. Eu tive que largar a escola aos doze anos, no ginásio, para trabalhar no roçado e sustentar meu pai. Se eu perder este emprego, como vou comprar os remédios dele? Não posso ficar desempregado.

— E não vai — atalhou o prefeito, erguendo a mão para acalmá-lo. — Eu pensei na sua situação. Não quero te demitir. Vou transferir o seu turno inteiramente para o período da tarde e da noite. A manhã fica livre para você estudar. Arrume uma escola, traga o comprovante de matrícula até o fim da semana e seu contrato continuará garantido.

Ao sair do escritório, Daniel sentiu a cabeça girar. Passou a hora do almoço correndo até o centro da cidade para procurar um EJA — o programa de educação para jovens e adultos. A resposta na secretaria de educação foi desoladora: a turma mais próxima ficava no município vizinho, a duas horas de ônibus. Como ele deixaria o pai idoso sozinho durante todo esse tempo, além de ter que voltar a tempo de pegar o turno da tarde?

Desesperado, desabafou no corredor com Bete, uma antiga vizinha que trabalhava na embalagem dos doces. Bete não pensou duas vezes:

— Daniel, deixa de bobagem! Procura o Colégio São Francisco. É a única escola da cidade. Fala com a direção, explica que você precisa assistir às aulas da manhã. Você vai ter que encarar a garotada, mas é o único jeito de não ter que viajar todo santo dia.

---

Enquanto o dia se aproximava do fim, os corredores do Colégio Estadual São Francisco fervilhavam com o caos típico do encerramento das aulas do turno matutino. O ar cheirava a poeira, suor e maresia.

Perto dos armários, Thiago, um jovem de dezenove anos, mantinha os olhos fixos nas próprias mãos enquanto ajeitava cuidadosamente os aparelhos auditivos. Ele era um rapaz de olhar doce, ombros levemente curvados pela timidez e de uma inteligência rara. No entanto, sua postura quieta e sua forma diferente de se comunicar o tornavam alvo fácil.

— Ei, surdinho! Vai responder ou vai fingir que não tá ouvindo? — debochou uma garota de uniforme impecável, cercada por duas amigas que riam alto, segurando copos de refrigerante.

Thiago abaixou a cabeça, sentindo o rosto queimar. Ele preferia o silêncio ao confronto. Do outro lado do corredor, porém, dois colegas que admiravam a dedicação de Thiago nos trabalhos de física encararam as garotas com reprovação:

— Deixem o moleque em paz! Ele estuda mais do que a sala inteira junta!

Antes que a discussão progredisse, uma bola de futebol acertou com força o teto do corredor, fazendo gesso seco cair sobre o grupo.

— Fora de jogo! — gritou Maurício, gargalhando.

Aos vinte anos, Maurício era a personificação da rebeldia na escola. Com a jaqueta jeans puída, cabelos desalinhados e um sorriso debochado que oscilava entre o charme e a provocação, ele andava sempre rodeado por uma turma perigosa de rapazes que adoravam desafiar os inspetores. Maurício não levava desaforo para casa, não respeitava regras de vestuário e parecia ter um prazer quase infantil em tirar qualquer autoridade do sério.

Ele caminhou até o centro do pátio, pisando na bola e encarando o inspetor que vinha correndo com o apito na boca. Maurício apenas piscou um olho, deu uma risada provocativa e saiu caminhando a passos lentos em direção à saída, rebocando sua turma barulhenta atrás de si.

Pouco a pouco, o sinal estridente tocou, os portões se abriram e o turbilhão de alunos evaporou, deixando para trás um silêncio quase sagrado na instituição.

---

Daniel atravessou os portões do colégio quando o pátio já estava completamente vazio. O sol alaranjado do fim da tarde entrava pelas janelas altas, desenhando sombras longas no chão de taco gasto. Com a pasta de documentos amassada sob o braço, ele foi orientado pela funcionária da limpeza a ir até a última sala do corredor principal.

A porta da sala dos professores estava entreaberta. Lá dentro, de costas para a entrada, um homem ajeitava uma pilha de cadernos. Usava uma camisa social de mangas dobradas até os cotovelos e mantinha os óculos pendurados na gola.

Daniel deu dois toques leves na madeira.

— Com licença... a secretaria disse que eu poderia falar com o responsável pela turma da manhã...

O homem se virou devagar. Quando seus olhos se cruzaram com os de Daniel, o tempo pareceu congelar.

O garoto alto e franzino que Daniel conhecera na adolescência dera lugar a um homem feito, de ombros largos, postura firme, barba aparada e um olhar incrivelmente profundo. Era Raoni.

— Daniel? — A voz de Raoni saiu grave, rouca pelo cansaço do dia, mas carregada de uma surpresa imediata.

— Raoni...? — Daniel deu um passo involuntário para trás, o coração dando um salto violento no peito. — Meu Deus... é você mesmo.

O reencontro trouxe à tona, em fração de segundos, uma avalanche de memórias sufocadas. Quinze anos atrás, antes de Daniel ser obrigado a abandonar os estudos, os dois eram inseparáveis. Mais do que amigos, viveram aquele amor puro, secreto e ardente da juventude — beijos roubados atrás da quadra esportiva, promessas feitas ao luar e a dor devastadora de uma separação abrupta quando a vida exigiu que Daniel virasse adulto da noite para o dia.

Raoni tirou os óculos e caminhou lentamente até a frente da mesa, sem desviar o olhar nem por um segundo. Um sorriso nostálgico e quente se desenhou em seus lábios.

— Eu não consigo acreditar... Quantos anos faz? Trze? Quinze? — Raoni parou a poucos centímetros de Daniel. O perfume amadeirado do professor envolveu o ambiente, despertando em Daniel uma memória sensorial avassaladora. — Você sumiu, Daniel. Simplesmente desapareceu da minha vida.

— A vida não me deu muita escolha, Raoni — respondeu Daniel, a voz ligeiramente trêmula, tomada por uma vulnerabilidade que não sentia há anos. — Quando meu pai adoeceu, eu tive que largar tudo. Tive que virar o homem da casa. Eu... eu pensei muito em você naquela época. Muito mesmo. Mas não tinha como voltar.

Raoni deu mais um passo à frente, encurtando a distância. A eletricidade no ar era palpável, um calor súbito que fazia o espaço entre eles parecer pequeno demais. Ele ergueu a mão, hesitando por um milésimo de segundo antes de tocar levemente o ombro de Daniel, um gesto carregado de afeto e de um carinho reprimido pelo tempo.

— Eu nunca esqueci você — confessou Raoni em um tom baixo, quase confidencial. Seus olhos desceram por um instante para a boca de Daniel antes de voltarem a encarar seus olhos. — Ninguém nunca ocupou o espaço que você deixou.

Daniel prendeu a respiração. A proximidade, o tom de voz e o olhar intenso de Raoni faziam seu peito palpitar como se ele ainda fosse aquele garoto de quinze anos. O clima entre os dois era inegavelmente quente, carregado de uma tensão romântica e sensual que estivera adormecida por mais de uma década.

— Raoni... eu preciso de ajuda — disse Daniel, tentando focar o pensamento, embora a presença do professor estivesse desestabilizando todas as suas defesas.

Daniel puxou a cadeira e sentou-se ao lado de Raoni. Detalhou toda a sua situação: a exigência do Prefeito Juca, a auditoria na *Doces Formiguinha*, a impossibilidade de estudar na cidade vizinha por causa do pai e a necessidade absoluta de concluir o terceiro ano para não perder o sustento da casa.

Raoni ouvia tudo com atenção absoluta, o rosto franzido em empatia. Quando Daniel terminou, o professor pegou o formulário de matrícula sobre a mesa, puxou uma caneta e assinou o documento na área reservada ao corpo docente.

— Considera assinado e aceito — disse Raoni, entregando a folha para Daniel. Os dedos dos dois se tocaram demoradamente na troca do papel, enviando um arrepio pela espinha de Daniel. — Você vai estudar na minha turma. Eu sou o professor regente de português e literatura.

— Obrigado, Raoni. De verdade, você não sabe o quanto isso salva a minha vida — Daniel suspirou, aliviado, mas logo em seguida uma sombra de preocupação tomou conta de seu rosto. Ele se aproximou mais de Raoni, olhando para os dois lados do corredor vazio. — Mas tem uma coisa... Um condição.

— Que condição?

— Ninguém pode saber que eu tenho trinta anos. Nem que sou operário da fábrica — afirmou Daniel com firmeza. — Eu vou estudar com garotos de dezoito a vinte anos. Se eles souberem que sou um homem feito, falido e sem diploma, vou virar piada. Vou ser ridicularizado. Para todos os efeitos, eu preciso me passar por um aluno da idade deles.

Raoni franziu a testa, surpreso, e deixou escapar uma curta risada incrula.

— Daniel, você ficou doido? Você tem trinta anos! Sustentar um disfarce no meio de adolescente e jovem adulto numa sala de aula é impossível. A cidade é pequena, uma hora ou outra alguém descobre! É muito melhor você entrar de cabeça erguida e assumir a sua história.

— Não dá, Raoni! — insistiu Daniel, segurando o braço de Raoni com genuína ansiedade. O contato fez o professor congelar, encarando a mão de Daniel sobre sua pele. — Eu não posso arriscar a minha dignidade. Eu preciso que você me ajude. Você é o único que sabe quem eu sou de verdade aqui dentro. Prometa que vai guardar meu segredo. Por favor... por nós.

Raoni olhou para a mão de Daniel em seu braço e depois subiu o olhar até os olhos suplicantes do rapaz. A conexão magnética entre eles falou mais alto do que qualquer ética acadêmica. Um sorriso enigmático e charmoso surgiu no canto dos lábios do professor.

Ele se inclinou para perto do ouvido de Daniel, a voz baixa e provocante:

— Está bem... O seu segredo está trancado a sete chaves comigo. Nos vemos amanhã cedo... *aluno* Daniel.


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Comentários


foto perfil usuario ari36152109

ari36152109 Comentou em 08/09/2026

Que delcia de conto, gozei sem mim tocar

foto perfil usuario rotta10

rotta10 Comentou em 08/09/2026

Delícia adorando?!




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Ficha do conto

Foto Perfil danizinho69
danizinho69

Nome do conto:
Abra a Boca e Feche os Olhos!! (introdução)

Codigo do conto:
271744

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
07/09/2026

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