E durante quase dezesseis anos tive uma amiga chamada Aline.
Quando digo amiga, é amiga mesmo.
Daquelas que conhecem suas ex, sabem das merdas que você fez aos trinta, já viram você bêbado, já pediram conselho amoroso e têm liberdade suficiente para entrar na sua casa, abrir a geladeira e reclamar que não tem nada para comer.
Nunca tínhamos transado.
Nunca sequer tínhamos nos beijado.
Mas seria mentira dizer que nunca pensei nisso.
Aline era negra, 44 anos, cerca de 1,70 e completamente diferente das mulheres com quem eu costumava sair.
Tinha pele escura de tom quente e uniforme, olhos castanho-escuros enormes e expressivos e sobrancelhas naturalmente marcadas. Usava o cabelo em tranças longas e finas, quase sempre soltas, chegando pouco abaixo dos ombros.
Seu rosto não tinha aquela perfeição artificial de fotografia.
Tinha personalidade.
Nariz largo, lábios cheios, maçãs do rosto marcadas e pequenas linhas ao redor dos olhos que apareciam quando ela ria.
E Aline ria muito.
O corpo também era impossível de confundir com o de uma menina de vinte anos.
Era corpo de mulher.
Coxas grossas, quadris largos, cintura marcada, uma barriguinha macia que ela não fazia esforço nenhum para esconder e seios fartos.
E tinha uma bunda que, durante dezesseis anos de amizade, exigiu de mim uma quantidade considerável de disciplina.
Ela sabia disso.
Só nunca admitíamos.
Até um sábado.
Aline apareceu na minha casa pouco depois das oito da noite.
Usava jeans, tênis branco e uma regata verde-escura. Brincos grandes dourados e um perfume que senti assim que abri a porta.
— Trouxe vinho — disse, levantando a garrafa.
— Então pode entrar.
— Eu poderia entrar sem vinho.
— Não abusa da amizade.
— Dezesseis anos e você ainda acha que manda alguma coisa aqui.
Entrou.
Como sempre, abriu minha geladeira.
— Sandro, puta que pariu. Como um homem de quarenta e dois anos consegue ter uma geladeira de universitário?
— Tem cerveja.
— Exatamente meu argumento.
Fizemos alguma coisa para comer.
Abrimos o vinho.
Colocamos música.
Conversamos.
Era absolutamente normal.
Até deixarmos de ser.
Não sei exatamente quando aconteceu.
Talvez tenha sido quando Aline sentou no sofá com as pernas dobradas e começou a falar de um encontro horrível que tivera na semana anterior.
— O homem passou quarenta minutos falando da ex.
— Talvez ainda goste dela.
— Então leva a ex para jantar, porra.
Ri.
— Você também escolhe mal.
— Olha quem fala.
— Minhas escolhas são excelentes.
Ela começou a contar nos dedos.
— Fernanda.
— Foi um erro.
— Luciana.
— Outro erro.
— Carla.
— Você não precisava lembrar da Carla.
Aline gargalhou.
— Suas escolhas são uma merda, Sandro.
— E você continua solteira.
Ela levantou a taça.
— Touché.
Bebemos.
Depois ela ficou me olhando.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Lá vem.
— Em dezesseis anos você nunca teve vontade de me pegar?
Engasguei com o vinho.
Aline começou a rir.
— Caralho, Sandro!
— De onde saiu essa pergunta?
— Responde.
— Você está bêbada.
— Estou no segundo copo.
— Justamente.
Ela se aproximou.
— Covarde.
— Aline...
— Nunca?
Olhei para ela.
De verdade.
Aquela era minha amiga.
Mas também era uma mulher linda sentada no meu sofá perguntando se eu já havia desejado seu corpo.
— Já.
O sorriso desapareceu.
— Sério?
— Você perguntou.
— Quando?
— Diversas vezes.
— Filho da puta.
Ela me acertou com uma almofada.
— E nunca falou nada?
— Você também nunca falou.
Aline ficou quieta.
Foi minha vez.
— E você?
Ela bebeu um gole.
— Talvez.
— Talvez é o caralho.
— Olha a boca.
— Dezesseis anos, Aline.
Ela colocou a taça na mesa.
— Tá bom.
Respirou fundo.
— Já pensei.
— Quando?
— Não interessa.
— Agora interessa muito.
— Sandro...
— Quantas vezes?
Ela começou a rir de nervoso.
— Mais do que deveria.
O silêncio que veio depois foi diferente de qualquer silêncio que já tivemos.
Eu conhecia aquela mulher havia dezesseis anos.
Sabia quando estava mentindo.
Sabia quando estava nervosa.
E sabia que naquele momento Aline estava esperando alguma coisa.
Cheguei mais perto.
— Se eu te beijar agora, amanhã nossa amizade vai ficar uma merda?
— Provavelmente.
— Ótimo.
— Por quê?
— Porque estou pensando seriamente em fazer isso mesmo assim.
Ela olhou para minha boca.
— Então para de falar.
Beijei Aline.
Dezesseis anos desapareceram naquele instante.
O primeiro beijo foi estranho por aproximadamente três segundos.
Depois deixou de ser.
Ela segurou minha nuca.
Eu puxei sua cintura.
E de repente descobri como era beijar uma boca que eu conhecia havia anos sem jamais ter tocado daquele jeito.
Quando nos afastamos, Aline estava assustada.
— Caralho.
— Ruim?
— Cala a boca.
Me beijou novamente.
Dessa vez não havia dúvida.
O beijo ficou mais quente, nossas mãos perderam a timidez e aquela amizade antiga ganhou uma tensão que nenhum dos dois conseguiria fingir que não existia mais.
— Isso é uma péssima ideia — ela murmurou.
— Péssima.
— Vamos nos arrepender.
— Provavelmente.
Aline ficou olhando para mim.
— Quarto?
— Quarto.
Ela começou a rir.
— Que merda estamos fazendo?
— Finalmente descobrindo uma coisa.
— O quê?
— Se dezesseis anos de curiosidade tinham fundamento.
A resposta veio quando ela me puxou pela camisa.
No quarto, fizemos questão de não ter pressa.
Eu queria descobrir Aline.
Beijei seu pescoço, seus ombros, percorri seu corpo devagar e senti sua postura segura desaparecer aos poucos conforme ela se entregava às sensações.
Ela também queria descobrir o meu.
Houve provocações, beijos demorados, carícias e aquela intimidade curiosa de duas pessoas que já sabiam praticamente tudo uma da outra, menos aquilo.
Quando minha boca percorreu seu corpo, Aline perdeu boa parte do deboche.
— Sandro...
Olhei para ela.
— Que foi?
— Não começa a se achar.
Continuei provocando.
Ela fechou os olhos.
— Filho da puta.
Ri.
— Você estava dizendo?
— Cala a boca e continua.
E continuei.
Sem pressa, prestando atenção a cada reação dela, descobrindo onde gostava de ser beijada e acariciada.
Depois Aline decidiu retribuir.
E descobri que minha amiga tinha um lado muito menos comportado do que aqueles dezesseis anos de convivência haviam sugerido.
A primeira vez que transamos naquela noite foi intensa justamente porque não havia necessidade de fingimento.
Mudamos de ritmo e posição várias vezes.
Aline gostava de ficar por cima.
Muito.
— Então você gosta de mandar — falei.
Ela apoiou as mãos em meu peito.
— Você só descobriu isso hoje?
— Nesse contexto, sim.
— Então aproveita e aprende.
Ela conduziu o ritmo, cabelos caindo sobre o rosto, completamente à vontade.
Mais tarde experimentamos outras posições.
De lado.
Ela sobre mim novamente.
Depois Aline ficou de quatro e olhou para trás.
— Nem comenta.
— Eu não falei nada.
— Conheço essa sua cara.
— Que cara?
— A cara de homem pensando merda.
— Você está nessa posição e quer controlar meus pensamentos?
Ela começou a rir.
— Idiota.
Foi também naquela noite que conversamos sobre experimentar algo mais ousado.
Nada foi presumido.
Perguntei.
Ela pensou.
Provocou.
Mudou de ideia.
Depois decidiu que queria.
Fomos devagar, respeitando o ritmo dela, até que a insegurança inicial virou curiosidade e a curiosidade virou confiança.
Aline olhou para mim depois.
— Não acredito que fiz isso com você.
— Quer que eu peça desculpas?
— Quero que você fique quieto.
— Você gostou.
Ela apontou o dedo para mim.
— Não estraga o momento.
Caímos na gargalhada.
Foi isso que tornou aquela noite diferente.
Não foi somente sexo.
Era Aline.
Minha amiga.
A mulher que sabia minhas histórias vergonhosas, minhas manias e minhas inseguranças.
E agora sabia também como era estar comigo na cama.
Quando terminamos, já passava das três.
Ela estava deitada ao meu lado, usando minha camiseta.
— Sandro?
— Hum?
— Temos um problema.
— Qual?
— Eu gostei.
Virei para ela.
— Isso é um problema?
— Enorme.
— Por quê?
— Porque agora eu sei.
— Sabe o quê?
Ela ficou olhando para o teto.
— Que durante dezesseis anos a gente poderia ter feito isso.
Comecei a rir.
— Está calculando o prejuízo?
— Dezesseis anos, Sandro!
— Você também nunca tentou.
— Porque você era meu amigo!
— Continuo sendo.
Aline virou o rosto lentamente.
— É justamente aí que mora a merda.
Ficamos nos encarando.
Então ela começou a sorrir.
— O quê? — perguntei.
— Nada.
— Conheço essa sua cara.
Ela começou a rir.
— Agora virou contra mim?
— Fala.
Aline se aproximou e me beijou.
— Estava pensando que ainda não amanheceu.
Olhei para o relógio.
— Tecnicamente, não.
— Então...
Ela puxou minha camiseta para me aproximar.
— ...ainda é sábado.
— E?
— E nossa amizade só precisa voltar ao normal no domingo.
Comecei a rir.
— Essa é sua lógica?
— É a única que temos.
Apaguei a luz.
No domingo, descobrimos que havia um pequeno problema na teoria de Aline.
Depois que você passa dezesseis anos imaginando como seria transar com sua melhor amiga e finalmente descobre...
é difícil pra caralho voltar a fingir que nunca teve curiosidade.
sandroandarilho