— Esse aqui tá bom, hein? — Marina comentou, limpando a espuma do lábio com a língua, os olhos passeando pelo movimento.
Eu acompanhei o olhar dela. Um homem alto-astral, conversador gente boa, encostou no balcão ao lado, pediu uma cerveja e petiscos e ficou ali, esperando. Virou-se para nós com um sorriso fácil.
— Cerveja boa, né? — puxou conversa.
— A melhor do mercado — respondi, erguendo o copo.
Conversamos sobre "nada": o calor, o trânsito, futebol, a fila do pastel de angu. Dez minutos depois, o homem deu um último gole, acenou e se foi, engolido pela multidão.
Marina ficou olhando ele sumir. Depois, sem tirar os olhos do vazio onde ele estivera, murmurou:
— E se a gente tivesse chamado ele pra gente?
— Chamado pra quê?
— Você sabe pra quê...
A frase ficou no ar, quente como o ar do mercado. Ela me encarou, e algo mudou no jeito dela de segurar o copo — mais firme, mais lento.
— E como seria? — perguntei, baixinho, só pra ela ouvir.
Marina deu um gole longo, os olhos fixos nos meus por cima da borda do copo.
— Ele atrás de mim. Eu de quatro. Você na minha frente.
Senti o corpo esquentar. Ela continuou, a voz baixa, quase um sussurro entre o barulho:
— Você me olhando enquanto ele me come. Eu te olhando de volta, com a boca cheia de você. Você deixa ele me comer ?
Eu engoli seco. O mercado continuava girando ao redor de nós — o vendedor gritando o preço do doce de leite, o garçom passando com a bandeja cheia — mas o nosso mundo tinha encolhido para aquele espaço de poucos centímetros entre os dois corpos.
— E eu ia gostar de ver — respondi, com a voz rouca. — Ver você assim. Ver ele te pegando.
— E você ia gostar de sentir minha boca — ela respondeu, mordendo o lábio. — Enquanto ele me come.
Aproximei o rosto do dela, o hálito de cerveja se misturando.
— E se ele gostasse de você demais? Se ele quisesse mais desta putinha safada e tarada?
— A gente ia deixar. Só por essa noite.
Ela passou a mão pela minha coxa por baixo do balcão, os dedos subindo devagar. Prendi a respiração.
— Eu quero que você imagine — ela sussurrou. — A mão dele na minha cintura. A minha boca em você. E você, olhando pra gente, esperando por sua vez.
Meu copo estava parado no balcão, a cerveja esquentando, esquecida. Marina deu um gole longo e lento, os olhos em mim, e o gesto — o pescoço, a garganta, o jeito de lamber o lábio — foi calculado.
— A gente ia ser bom nisso — ela disse, e era quase um desafio.
Sorri, um sorriso torto, e ergui o copo dela com a mão, levando-o até a boca dela.
— Então a gente espera o próximo.
Marina bebeu, os olhos brilhando por cima do copo, e se virou para o balcão, observando o movimento. O mercado fervia. Em algum momento, alguém ia pedir uma cerveja e encostar ao lado da gente.
E nós iríamos estar prontos.





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