O Jardim dos Prazeres Invertidos No ano de 1782, no coração de uma propriedade isolada nos arredores de Paris, o Marquês de Valcour recebia, sob o pretexto de uma caçada noturna, três convidados selecionados com o rigor de um filósofo que escolhe seus silogismos. A noite era densa, a lua escondida atrás de nuvens pesadas, e o ar carregava o cheiro doce e doentio das rosas que o jardineiro, sob ordens precisas, cultivava apenas para que murchessem no auge da beleza. A jovem Isabelle, de dezoito anos, filha de um magistrado austero, havia sido trazida sob a ilusão de um casamento vantajoso. Seus olhos claros ainda brilhavam com a inocência que a virtude pretensiosa costuma vender como mercadoria. O Marquês a observava enquanto os criados retiravam os pratos do jantar — um banquete de carnes raríssimas, vinhos que queimavam a garganta e doces preparados com ervas que amoleciam a vontade. — A natureza, minha cara, — começou Valcour, erguendo o cálice — não conhece o pudor. O pudor é uma invenção dos fracos para impedir que os fortes desfrutem. Olhe para estas flores: elas se abrem, expõem seus órgãos, atraem insetos e se deixam violar pelo vento. E nós, que nos dizemos superiores, fingimos horror diante do mesmo impulso? Isabelle baixou o olhar. Ao seu lado, a Condessa de Rivière, mulher de trinta e poucos anos cujo marido morrera em circunstâncias nunca esclarecidas, sorria com os lábios vermelhos. O terceiro convidado, o Abade de Saint-Cyr, homem de batina e mãos macias, acenava com a cabeça em silenciosa aprovação. Quando a mesa foi desocupada, Valcour ergueu-se e conduziu o grupo até o jardim. Lanternas baixas iluminavam apenas o necessário: o caminho de pedras frias, os bancos de mármore, e, no centro, uma estrutura de ferro forjado que se assemelhava a um altar invertido. Ali, quatro anéis de metal brilhavam à luz amarelada. — A virtude, Isabelle, — continuou o Marquês, enquanto os criados, surdos e mudos por escolha ou por treinamento, prendiam os pulsos da jovem aos anéis — é apenas o nome que damos ao medo de sofrer e ao desejo de fazer sofrer sem admiti-lo. Eu, ao contrário, confessarei ambos. A Condessa aproximou-se primeiro. Com gestos lentos, desamarrou o corpete de Isabelle. Os seios firmes e pálidos surgiram sob a luz, e a jovem estremeceu. O Abade murmurou uma oração invertida, palavras que misturavam latim e blasfêmia, enquanto suas mãos exploravam a pele ainda intacta. Valcour observava. Seu prazer não estava apenas no ato, mas na construção filosófica que o precedia e o justificava. Ele falava enquanto a Condessa, de joelhos, usava a boca e os dentes com precisão cruel, arrancando de Isabelle gemidos que oscilavam entre o protesto e o rendimento. — A dor, minha criança, é o mais honesto dos professores. Ela não mente. O prazer que vem depois dela é puro, porque não precisa se esconder atrás de nenhuma máscara de moralidade. Veja: seu corpo já começa a trair a mente. Os músculos se contraem, os fluidos aparecem, o rosto se contorce. Isso é a verdade. Tudo o mais é literatura de convento. Isabelle, com as pernas abertas e presas, sentia o frio do metal e o calor das mãos que a exploravam. O Abade, depois de se desfazer da batina, penetrou-a com violência deliberada, enquanto a Condessa, por trás, usava um instrumento de marfim e couro que o Marquês guardava especialmente para noites como aquela. Cada empurrão era acompanhado de uma frase: — Deus é uma desculpa. A natureza é o único código. E a natureza ama o excesso. Horas se passaram. Isabelle deixou de gritar. Seus olhos, antes cheios de terror, adquiriram um brilho turvo, quase agradecido. O Marquês, por fim, aproximou-se. Não para aliviar, mas para completar. Enquanto a usava, falava baixinho ao ouvido dela, como se lhe confiasse o último segredo: — Você aprenderá que a virtude é apenas o desejo reprimido dos covardes. Eu lhe ofereço a liberdade verdadeira: a de desejar sem limite, de sofrer sem vergonha, de gozar sem pedir perdão. Quando a aurora tingiu o horizonte de um vermelho pálido, Isabelle foi libertada dos anéis. Seu corpo carregava marcas, mas seu olhar já não era o mesmo. A Condessa a beijou na testa, como se a iniciasse numa ordem secreta. O Abade, vestindo novamente a batina, murmurou que a confissão daquela noite valia mais do que mil missas. Valcour, sozinho no jardim, observou as rosas que começavam a murchar. Sorriu. A natureza, afinal, sempre triunfa. E o homem que ousa segui-la até o fim torna-se, por um instante, mais do que humano: torna-se livre.
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