Esse conto e real. Cheguei na casa do meu amigo já meio alto. O jogo tinha acabado, ele sumiu do bar e eu fui atrás. Toquei a campainha e quem atendeu foi a mãe dele, a Deise. Baixinha, uns sessenta anos, vestido velho, chinelo surrado, cabelo preso de qualquer jeito. Estava lavando louça. Disse que ele não estava, me ofereceu água e voltou pra pia. Fiquei ali no vão da cozinha conversando besteira. Em algum momento ela tirou o pé do chinelo e esfregou a sola suja na própria perna, distraída. Eu olhei. Falei brincando que ela tinha pé bonito. Ela riu e disse que era velha. Eu neguei. Não sei o que deu em mim. Ajoelhei na frente dela e peguei o pé. Beijei. Ela parou de lavar na hora. O que é isso, menino? Não respondi. Beijei de novo e passei a língua. O gosto era de pé de quem passou o dia em casa, sola suja, terra nos cantos. Ela deu uma risada curta, daquelas de quem não acredita, e falou baixo: Para com isso. Sou mãe do seu amigo. Mas não puxou. A mão molhada desceu e pousou na minha cabeça, passou no cabelo devagar. Continuei. Lambi a sola de baixo pra cima, entre os dedos, onde o gosto era mais forte. Ela respirou fundo uma vez e ficou quieta. Naquela posição eu me senti pequeno de um jeito estranho. Vergonha e alívio ao mesmo tempo. Estava ajoelhado na cozinha da mãe do meu amigo, lambendo o pé dela, e ela dizia pra eu parar mas não tirava o pé da minha boca. O coração batia forte. Cada vez que a língua passava e ela não afastava, eu ficava mais quieto por dentro, mais focado só naquilo. Não pensava no filho, não pensava em nada. Só na sola quente e no fato de que ela estava deixando. Levantei um pouco o pé e lambi bem no meio, onde estava mais escuro. Ela riu baixinho. Você é doido… A mão continuou na minha cabeça. Às vezes apertava de leve. Fechei os olhos e fiquei nisso, beijando, lambendo, sentindo quando ela apoiava um pouco mais o peso. Depois de um tempo ela voltou a lavar a louça, devagar, comigo ainda ali. Eu deitei de costas no chão. Ela olhou, riu de novo e pôs a sola no meu rosto. Lambi tentando limpar. Quando abria o olho dava pra ver a calcinha por baixo do vestido: branca, larga, velha, um pouco encardida. Ela não fechava a perna. Continuava na pia, o pé firme na minha boca, rindo de vez em quando. Fiquei uns minutos assim. Corpo quente, cabeça leve, aquela mistura de tesão e de não acreditar no que estava fazendo. Quando a louça acabou ela tirou o pé, passou a mão no vestido e falou normal: Levanta. Bebe a água e vai embora. Levantei. Bebi. Saí sem falar mais nada.
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