Certa vez, andando por um reino muito distante, um viajante de muita sabedoria veio a se instalar numa cidade por alguns meses em busca de sua sorte. Conheceu todos os artesãos, carpinteiros, ferreiros, comerciantes e demais trabalhadores que ganhavam seu sustento por ali mesmo. Não era uma vida muito fácil, mas ao mesmo tempo não era muito difícil. De fato, uma das poucas coisas que rondavam as bocas, entre segredos e mistérios durante o prazer do silêncio ao cair da noite nas mesas dos bares, era sobre uma recompensa que alguns monarcas faziam para quem pudesse resgatar uma princesa que, supostamente, vivia numa cabana encrustada num vale, cujas estradas de diversos reinos se cruzavam. O nobre viajante procurou se informar sobre tal empreitada, sobre quantos homens como ele já haviam tentado a sorte. Nenhum deles tinha algum paradeiro conhecido depois de mergulharem nesta aparente desventura. Diziam que um dragão sempre rondava a cabana e que ele obedecia somente à donzela. Outros diziam que animais ferozes eram postos como armadilhas pelos monarcas dos reinos na vasta floresta que circundava a região. Havia até quem acreditasse em algum tipo de magia, que a tal donzela era uma bruxa poderosa usando um disfarce atrativo. O nobre viajante, que não acreditava em nada daquilo e já havia visto a verdadeira fragilidade humana em outros continentes e mares, um dia, foi até uma vidente para fazer mais perguntas. A vidente, que na boca de algumas pessoas era creditada como a mãe de tal donzela, recebeu algumas poucas moedas do nobre homem para fazer uma predição. Metade das pessoas que procuravam o serviço dela diziam que ela realmente tinha algum poder sobrenatural, mas o nobre homem estava interessado em conhecer as motivações da qual a tal situação havia se desenrolado. Num lapso de profundidade de raciocínio, a vidente confiou ao homem que ele tinha grandes chances de ser morto ao embarcar em tal desventura, mas que somente seu coração puro e seu vasto conhecimento poderiam virar a situação ao contrário. Sendo assim, o nobre viajante se dispôs a enfrentar o tal desafio. Súditos daquela cidade ofereceram à ele um arco e flecha, uma espada e um escudo, uma lança e um cavalo, mas ele decidiu ficar apenas com o equipamento que poderia ser proveitoso em tal situação. Ele sequer considerou o cavalo, tendo em vista que, mesmo uma batalha ou uma fuga na densa floresta, acabaria por sofrer uma lesão caso o animal se assustasse e mudasse de direção ou velocidade de forma repentina. Assim, apenas com seus dois pés entranhados em suas botas, ele decidiu marchar rumo até o local. Nenhum cidadão ousou acompanhá-lo, desejando-lhe apenas uma boa sorte carregada de pêsames. O nobre viajante enfrentou a lama, a chuva, os ventos mais fortes que já presenciou. Os incontáveis galhos e folhas vindo em sua direção. O escudo protegia-lhe as costas, enquanto segurava o arco longo numa mão e preparava as flechas com a outra. Um cavalo e uma lança naquele momento nunca teriam servido para nada. Foi atravessando rios de correntezas fortes, comeu a parte de uma refeição que havia em um pequenino cesto enquanto o tempo tornava-se mais piedoso. Continuou a viagem e precisou utilizar algumas flechas para matar alguns lobos e ursos que tentaram cercá-lo num momento de distração. Recuperou a munição e pôs o corpo em marcha até encontrar uma trilha que dava justamente para a cabana da tal donzela prometida. O caminho era sombrio. Ao anoitecer, a sombra das árvores fazia um denso corredor preto dos dois lados, e somente o clarão dos relâmpagos e do céu avermelhado pelo amontoado de nuvens dava alguma claridade. O nobre viajante pensou. "O que haveria de tão gracioso nesta donzela prometida?". "Se tais reinos possuíam tantos recursos assim, porque não a resgatam em conjunto?". "Qual o valor de tudo isso que estou fazendo?". E o derradeiro final daquela jornada não poderia ser diferente. Ao se aproximar da pequena cabana de madeira, podia ver o vasto jardim e alguns pertences dos antecessores que ousaram tentar resgatá-la de lá. O ponto chave é que tudo parecia se tratar de uma diversão um tanto sádica para diversas partes. Se tais homens não se metessem aqui, não seriam considerados homens. E se voltassem sem sua devida "recompensa", não eram dignos dela por predestinação. Mas... o que era a tal donzela que tanto intrigava diante da história. Ele nem precisou se aproximar da porta e ela já abriu. Ele só podia ver a escuridão interna. De lá, lentamente saiu uma jovem de uma beleza considerável. Pele clara, cabelo louro, olhos azuis, corpo levemente esculpido como uma ampulheta, num vestido branco marcando levemente os contornos de sua existência física. Para muitos homens, aquilo deveria ter sido o último prazer elaborado pela mente antes de deitarem na eternidade. No entanto, o nobre viajante era cauteloso. Cauteloso demais para a paciência dela. - O que quer de mim? - disse a donzela. - Saber porquê está aqui. - respondeu viajante. - Ora, estou aqui por uma conveniência de vontades. - E o que significam todos estes pertences dos anteriores? Conveniência? - Você provavelmente sabe da minha história e do que está para enfrentar? - Como poderia saber? - Uma prova de amor? Um duelo? Uma tortura? - Só consigo enxergar rancor por trás dessa beleza. - Como ousa me questionar? Apareça, meu dragão! E assim, como pura magia, o tal dragão abriu uma brecha enorme entre as nuvens e veio em direção ao nobre viajante. Ele não poderia ter ficado mais assustado, mas aquele animal mitológico parecia real demais para sua descrição nos livros e contos que ouvira quando criança. Ele alçou mão de uma flecha e fechou os olhos. Não sabia direito o que esperar e ficou apontando a flecha para o céu. Não podia ver nada, uma tempestade havia alcançado seu ápice e não havia outra opção de agir. Só podia ouvir o som do vento batendo entre as asas do animal. Esperou uma atitude dele, mas nada veio a ocorrer. Abriu um dos olhos, depois o outro, olhou profundamente nos olhos do dragão. Num acesso de loucura ou astúcia, começou a falar com ele. - Você é feliz? O dragão acenou com um não com a cabeça. - Gostaria de estar em algum lugar longe daqui? O dragão acenou com um sim. - Se entende perfeitamente o que digo... então o que prende você à esta donzela? O dragão apontou uma das patas para o peito dele. O coração. - Se eu fosse um dragão e você um nobre viajante, pensaria a mesma coisa de mim? O dragão ouviu atentamente e acenou com um não. Por fim o dragão começou a falar como se estivesse se comunicando utilizando os pensamentos. "Eu era um nobre viajante como você. Mas por um descuido fui aprisionado por um rei muito arrogante que duvidou da minha índole e minhas habilidades. Faz muito tempo que não encontro um jovem como você, séculos talvez. Fui transformado nesta besta para seguir um plano, um plano maligno do qual passei metade destes séculos matando homens mais ou menos inocentes." O nobre viajante olhou para a donzela que ria como se já soubesse de todo o plano na história. - Acha que esse tipo de comportamento é digno de uma dama? Quantos exércitos ainda morrerão para saciar tamanho sadismo? O dragão continuou. "Você foi o único que não atreveu a me ferir, do contrário eu já poderia ter lhe assassinado. Tal ato só pode ser cometido quando há premeditação do outro. Mas... existe algo dentro de você... um poder muito mais forte que é capaz de me parar." O nobre viajante derramou algumas lágrimas, quase incrédulo com a situação. "Diga-me, você realmente se apaixonou pela donzela?" - Não posso negar que a beleza dela seja cobiçada, mas o meu intuito mudou quando conheci você. Mulheres serão mulheres independente da situação. Mas o homem é mágico. Porém essa magia só existe com muito estudo e a busca de uma paz absoluta. Tudo está em transformação para o homem, mas tudo para de se transformar quando ele aceita a mão de uma mulher. "Você já se casou? Já teve filhos?" - Não pretendo passar por tais experiências. Nunca fui o mais almejado onde andei, ninguém lembraria o meu nome. Talvez o único prazer que tive foi em troca de dinheiro, mas foi o suficiente para aprender onde posso espalhar o meu amor e sabedoria. Por um momento é uma tristeza, mas da tristeza faz-se a felicidade quando se encontra a honestidade. O dragão então parou de falar. Olhou para a donzela, que havia mudado de semblante. A expressão incrédula no rosto dela quase me distraiu para o rugido do dragão. Ela puxou um punhal brilhante, do ferro mais bem polido que já viu e veio na direção dele. Ele alçou voo e baforou seu fogo nele. Fechei os olhos porque achei que iria ser queimado vivo. Na verdade foi algo diferente. A donzela tentou penetrar dentro daquele fogo, mas ela simplesmente não conseguia. A expressão de raiva dela era realmente impactante, os gritos dela também eram aterrorizantes. Enquanto o fogo frio atravessava o corpo dele, o dragão fez soar uma cantiga na cabeça dele. E aquele fogo frio chegou a ter algumas cores. Verde, amarelo, azul. Por fim o dragão parou de queimá-lo e ordenou que lutasse contra a donzela. "Será sua prova definitiva de tudo aquilo que fala." A donzela entoou palavras que soavam mágicas e incompreensíveis. Árvores enormes cercaram os dois como se a cabana e o jardim dela se transformassem numa clareira esquecida da floresta. Ela partiu para cima de mim. Nos enfrentamos em uma pequena sequência de golpes. Eu não sabia lutar bem com uma espada, mas podia usar o escudo para desviar cada espetada e corte e usar uma flecha como uma pequena adaga. Durante a luta, cada vez que acertava um golpe nela um fragmento de uma imagem ia parar nos pensamentos dele. Chegou um momento em que os olhares se conectaram e ele pôde ver lágrimas saindo dos olhos dela. Sentiu pena dela por um momento, mas não podia esquecer das palavras daquele dragão. O que fez então foi surpreendê-la com a sua força e colocá-la no chão. Apontar uma flecha para o pescoço dela e exigir uma explicação. - Porquê acha que tudo isso tem sentido? Ela riu da cara dele. - Responda minha pergunta! - A mim pouco importa se fui algum dia prometida ou não, para qualquer nobre ou plebeu. - E mesmo com a chance de mudar, prefere que as coisas continuem assim? Ela continuou a rir dele, em gargalhadas que pareciam distorcidas, como se demônios e anjos fraternizassem diante daquela situação. Levantou os olhos para o dragão. - Se eu matar ela, quais as consequências? "Nenhuma. Ela, assim como todas as pessoas, carrega os vícios do próprio sexo antes dos sonhos." O dragão respondeu. - Você já se apaixonou? "Ha centenas de anos. Porém, fui traído justamente por aqueles que falsamente prometeram coisas a mim e fui condenado à essa perdição." - Concedo o meu perdão à você, uma vez que ninguém o acolheu e ainda lhe amaldiçoaram. Em sua vontade, esteja livre para procurar sua própria felicidade. Não idolatre nada, nem aquilo que lhe diga respeito. Apenas existimos para viver nossas vidas neste mundo, como bem diz um velho sábio do oriente. "Honrado por suas palavras, nobre viajante." - Vá pelo mundo e veja a beleza dele. A tempestade lhe protege. E assim ele foi embora, deixando com ele apenas suas cantigas e sua proteção que ainda se transformariam em muitas coisas. Voltou a atenção para aquela donzela irritada. A julgar a beleza dela, ela era quase do tamanho dele e tinha quase a mesma força que ele. Uma beleza, mas uma beleza cheia de ódio e perigo. - É por causa da cor de minha pele? É por causa dos meus ensinamentos de terras distantes? É por causa da minha liberdade que sempre encontro donzelas perturbadas? É por isso que toda mulher sempre se dá por inconformada aos homens? Mais risadas estridentes vindas dela. Mais lágrimas daqueles olhos. - É uma tristeza. Também fui um fraco de coração para cada dama que encontrei pelo mundo. Eu podeira matá-la agora, mas conhecendo o passado de você e daquele homem que foi cruelmente transformado em dragão... prefiro deixar que o resto deste mundo continue caindo na mesma ilusão. Poucos são os sábios que podem realmente viver livres. - Desperdiçaria a minha beleza em prol da sua liberdade? - O que é liberdade para você? O que é beleza para você? Algum dia você valorizaria as minhas? Mas eu já sei que você nunca vai mudar as perguntas ou respostas. É uma felicidade que pouquíssimos irão desfrutar pelo resto da vida. Ele se levantou e caminhou floresta adentro, seguindo o rumo oposto ao da cidade em que aportou. Aquela donzela era uma maldição entre os homens e mulheres que se enxergavam nela. Mil impérios e milhões de pessoas tombariam por aquele desejo exacerbado e superestimado. Muitos anos depois, o nobre viajante já se encontrava em outros lugares, mas sempre ouvia que os conflitos ocorriam da mesma forma, aqui e ali. Com a proteção daquele dragão, ele alçou voos mais altos com suas ideias e teve uma vida plena e rica. Não caiu nas armadilhas da moralidade e desfrutou de tudo que haiva de melhor no mundo. Nunca teve filhos ou esposas, um preço pequeno diante de tamanha beleza que o mundo apresentava a ele. Nunca contou ao mundo sobre o final daquela aventura, era o segredo da vida dele. E por mais que a inveja da sociedade o rondasse, ele sempre ganhava, independente da situação, sem levantar as mãos, sem julgar as pessoas ou incitar qualquer violência. Era um segredo que havia naquela cantiga que o dragão havia impregnado na mente dele. Segredos de liberdade que um homem jamais deveria ignorar.
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