Lucas tinha 31 anos, um sorriso atrevido e aquela confiança irritante de quem parecia perceber tudo o que os outros tentavam esconder.
Os dois haviam se tornado amigos na academia. Treinavam juntos, conversavam sobre futebol, trabalho e relacionamentos. Rafael namorara algumas mulheres. Lucas também. Nenhum dos dois jamais havia mencionado sentir atração por homens.
Numa sexta-feira, depois de uma partida de sinuca e algumas cervejas, Lucas convidou Rafael para continuar a conversa em seu apartamento.
— Você está muito quieto hoje — Lucas comentou, jogando as chaves sobre a mesa.
— Só estou cansado.
— Mentiroso.
Rafael riu.
— Agora você lê pensamentos?
Lucas se aproximou, segurando duas garrafas de água.
— Não. Mas percebo quando alguém fica me olhando e desvia os olhos toda vez que eu percebo.
Rafael sentiu o rosto esquentar.
— Você se acha demais.
— Talvez. Mas você ainda não negou.
O silêncio que veio depois foi diferente dos outros.
Lucas colocou a garrafa na mesa e se sentou ao lado dele no sofá. Perto o suficiente para que seus joelhos se tocassem.
— Posso te perguntar uma coisa? — Lucas disse.
— Depende.
— Você já teve curiosidade de beijar um homem?
Rafael soltou uma risada nervosa.
— Que pergunta é essa?
— Uma pergunta simples.
— E você?
Lucas sustentou seu olhar.
— Já.
Rafael ficou imóvel.
— Sério?
— Sério. E, ultimamente, tenho pensado nisso mais do que gostaria de admitir.
— Com quem?
Lucas sorriu discretamente.
— Você realmente quer que eu responda?
O coração de Rafael acelerou.
Por alguns segundos, ele pensou em brincar, mudar de assunto ou simplesmente ir embora. Era o que sempre fazia quando seus pensamentos chegavam perto demais daquela possibilidade.
Mas, naquela noite, não queria fugir.
— Quero.
Lucas inclinou a cabeça.
— Com você.
Rafael respirou fundo.
— Cara...
— Se isso te incomoda, eu paro.
— Não é isso.
— Então o que é?
Rafael olhou para a boca de Lucas antes de responder.
— É que eu também tenho pensado.
Lucas ficou sério pela primeira vez naquela noite.
— Em mim?
Rafael assentiu.
A distância entre eles pareceu diminuir.
— Posso te beijar? — Lucas perguntou baixinho.
— Pode.
O primeiro beijo foi breve, quase tímido. Quando se afastaram, os dois sorriram, surpresos com a naturalidade daquele gesto que haviam imaginado tantas vezes.
— E aí? — Lucas perguntou.
— Você fala demais.
— Isso é uma reclamação?
Rafael segurou delicadamente a gola da camiseta dele.
— É um convite para ficar quieto.
Dessa vez, foi Rafael quem o beijou.
O beijo durou mais. Lucas acariciou seu rosto, enquanto Rafael sentia desaparecer o nervosismo que carregara desde a primeira pergunta.
Quando se separaram, permaneceram com as testas encostadas.
— Nunca pensei que isso fosse acontecer comigo — Rafael confessou.
— Nem eu.
— E amanhã?
Lucas entrelaçou os dedos nos dele.
— Amanhã a gente descobre. Não precisamos decidir tudo hoje.
Rafael sorriu.
Pela primeira vez, a ideia de descobrir algo novo sobre si mesmo não parecia assustadora.
Parecia o começo de uma história que ele finalmente estava disposto a viver.
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