Encurraladas - capítulo 1

As janelas da casa alugada de Jéssica davam direto para a parede de pinheiros que cercava a cidadezinha. À noite, o vento que descia das montanhas fazia a madeira velha estalar, um som que ela já tinha aprendido a ignorar. O que Jéssica não conseguia ignorar era o silêncio sufocante daquele lugar.
Vender tudo na capital e se isolar ali parecia o plano perfeito para recomeçar. Uma cidade pequena, pacata, onde todos se conheciam pelo nome. Mas, em poucas semanas, ela percebeu que aquele isolamento não era sinônimo de paz. Era uma armadilha.
Naquela terça-feira, enquanto organizava os livros na sala, Jéssica ouviu um baque surdo no quintal dos fundos. Seguido por um sussurro desesperado.
Ela apagou a luz da sala, caminhou até a janela da cozinha e afastou a cortina de fuxico. No chão batido, sob a luz fraca da lua, uma jovem com roupas rasgadas e o rosto sujo de terra tentava se arrastar até a varanda. Antes que Jéssica pudesse reagir, os faróis de uma caminhonete preta cortaram a estrada de terra do vilarejo, avançando devagar.
Jéssica congelou. Ela se lembrou dos avisos velados do homem que lhe alugou a casa: "Tranque as portas cedo. Moça bonita não deve andar por aqui depois do pôr do sol". Agora, o motor da caminhonete desligava bem em frente ao seu portão.

O coração de Jéssica martelava contra as costelas com tanta força que ela teve medo de que os homens lá fora pudessem ouvir. O pânico paralisou suas pernas por alguns segundos, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Com as mãos trêmulas, ela desligou o último interruptor da cozinha, mergulhando a casa em uma escuridão absoluta.
Encolhida atrás da cortina, com os olhos arregalados de pavor, ela assistiu à cena pelo vão do vidro.
A jovem no chão tentou soltar um grito, mas a caminhonete preta mal havia parado quando as portas se abriram. Dois homens altos, vestindo casacos pesados e capuzes que cobriam completamente seus rostos, saltaram da cabine. Eles se moveram com uma frieza cirúrgica, como se fizessem aquilo todas as noites.
Eles imobilizaram a vítima rapidamente no chão do quintal, utilizando cordas para prender seus pulsos e uma mordaça para impedir que ela gritasse. Os abafados gemidos de desespero da garota mal podiam ser ouvidos através da janela de Jéssica.
Em menos de dois minutos, os homens colocaram a jovem na caçamba da caminhonete e fecharam a cobertura do veículo. Antes de entrar na cabine, um dos sequestradores parou. Ele virou a cabeça lentamente na direção da casa de Jéssica, encarando a janela escura, como se procurasse qualquer sinal de movimento na propriedade.

Jéssica recuou da janela, tateando o escuro até encontrar o celular no bolso. Com os dedos trêmulos e a respiração sufocada, ela discou o número da polícia local. Cada toque do telefone parecia ecoar pela casa inteira.
No terceiro toque, uma voz cansada e rouca atendeu do outro lado da linha. Jéssica, engolindo o choro, despejou as palavras: "Acabaram de levar uma garota do meu quintal! Dois homens encapuzados, uma caminhonete preta... Vocês precisam vir agora!"
Houve um longo silêncio na linha, quebrado apenas pelo suspiro pesado do atendente.
— Escuta aqui, moça — a voz do policial soou fria, sem qualquer urgência. — A criminalidade nessa região é grande demais. O melhor que você pode fazer é trancar suas portas e não sair à noite, se não quiser ser a próxima a ser caçada.
— Como assim?! — Jéssica sussurrou, horrorizada. — Vocês são a polícia!
— É muita bandidagem para pouca polícia, cidadã — o homem respondeu, em um tom de quase conformismo. — O crime aqui é organizado, nem a polícia pode contra eles. Se você valoriza a sua vida, esqueça o que viu e fique bem longe das janelas.
O clique da linha sendo desligada ecoou no ouvido de Jéssica. Ela olhou para a tela do celular, paralisada. A única força da lei na região tinha acabado de admitir que a cidade pertencia aos monstros lá fora. Ela estava completamente sozinha.

Ainda com o celular na mão, ouvindo o sinal de linha interrompida, Jéssica congelou ao ver um clarão cortar as frestas da cortina da cozinha. O som do motor pesado e arrastado não deixava dúvidas: a caminhonete preta estava de volta.
Ela se arrastou pelo chão, com o peito colado nas tábuas frias da madeira, até conseguir espiar pelo vão inferior da janela. O veículo havia parado exatamente em frente ao seu portão, mantendo os faróis baixos acesos.
O silêncio da madrugada na montanha era tão profundo que o som das vozes dos dois homens no banco da frente viajou pelo ar, nítido e aterrorizante, passando direto pelo vidro fino da janela de Jéssica.
— Tem certeza de que é aqui? — um deles perguntou, a voz abafada pelo capuz.
— É essa casa sim — respondeu o outro, acendendo um cigarro. O brilho da brasa iluminou de relance os olhos frios do motorista. — Ouvi no vilarejo que uma mulher da capital alugou esse lugar no mês passado. Mora sozinha.
Um riso seco ecoou de dentro da cabine.
— Mais uma presa fácil. Só precisamos confirmar se é jovem e bonita para o chefe dar o aval. Vamos dar uma sondada amanhã, à luz do dia. Se for o perfil, pegamos ela na próxima semana.
O motor roncou forte e a caminhonete arrancou, deixando para trás uma nuvem de poeira e o pior pesadelo de Jéssica transformado em realidade: ela era o próximo alvo.

Com as mãos tremendo tanto que mal conseguia digitar, Jéssica abriu o navegador do celular e começou a buscar por desaparecimentos na região. Ela vasculhou redes sociais, fóruns locais ocultos e páginas de notícias antigas.
O que ela encontrou a deixou ainda mais apavorada: tudo a respeito da organização criminosa era um mistério absoluto.
Não havia nomes, rostos ou pistas reais nos registros. Ninguém sabia de nada concreto; tudo o que existia na internet eram boatos fragmentados, sussurros digitais de moradores trancados em suas casas. Mas os dados frios não mentiam. Nos últimos três anos, dezenas de mulheres jovens tinham sumido sem deixar um único rastro.
A verdade cruel saltou da tela em um relato anônimo de um fórum regional: as garotas desaparecidas nunca mais eram encontradas porque o destino delas era o tráfico internacional de escravas sexuais. Elas eram tiradas daquela rota montanhosa direto para navios ou pistas de pouso clandestinas, sumindo do mapa para sempre.
Jéssica largou o celular na cama, sentindo a garganta fechar. Os homens na caminhonete não queriam apenas roubar sua casa ou assustá-la. Eles a viam como uma mercadoria valiosa. E, segundo o que ouviu na conversa deles, ela tinha exatamente uma semana antes que voltassem para buscá-la.

Assim que os primeiros raios de sol cortaram a névoa das montanhas, Jéssica jogou o que pôde em uma mala, trancou a casa e entrou no carro. O plano era simples: dirigir sem olhar para trás até alcançar a rodovia interestadual. Mas, logo na única estrada de terra que dava saída para o vilarejo, uma barreira com uma viatura policial bloqueava o caminho.
Um guarda com expressão fechada fez sinal para ela encostar. Jéssica abaixou o vidro, o coração na garganta.
— Documentos da condutora — pediu o policial, apoiando a mão na janela. — Ninguém entra e ninguém sai da cidade a partir de hoje. Ordem superior. Pode dar meia-volta e retornar para a sua casa.
— Como assim? Eu preciso ir embora! — desabafou Jéssica, a voz embargada pelo pânico. — Ontem à noite eu vi um sequestro no meu quintal! Eles disseram que eu sou a próxima! Eu estou com medo de ser a próxima vítima!
O guarda mudou a postura, aproximando-se ainda mais do carro, com os olhos semicerrados. Não havia surpresa ou empatia no rosto dele.
— Exatamente por isso a senhora vai voltar — o tom dele era ameaçadoramente calmo. — Devido ao alto índice de garotas desaparecidas, a cidade agora está sob investigação formal da polícia local. Ninguém pode sair até que os procedimentos terminem. É para a sua própria "segurança".
— Segurança?! Vocês me mandaram ficar trancada porque o crime manda aqui! Me deixa passar! — Jéssica implorou, engatando a marcha ré.
O policial imediatamente levou a mão ao coldre da arma e bateu com força no teto do carro.
— Escuta aqui, mocinha: se você insistir em fugir da cidade, vai sair daqui direto para uma cela por desobediência e obstrução de justiça. Entendeu bem? Dá meia-volta. Agora.
Jéssica olhou para o retrovisor. Atrás dela, as montanhas e os pinheiros pareciam os muros de uma prisão intransponível. A própria polícia a estava forçando a permanecer no território de caça da organização. Sem escolha para evitar a prisão, ela girou o volante e pegou o caminho de volta para a casa alugada. Ela estava oficialmente encurralada.

Quando o carro de Jéssica apontou na subida da estrada de terra, os faróis iluminaram a silhueta esguia na varanda de madeira. Seu Landel, o proprietário que lhe alugara a casa, estava sentado na cadeira de balanço, fumando um cigarro de palha na penumbra do fim de tarde.
O estômago de Jéssica revirou. Ele nunca aparecia sem avisar.
Ela estacionou, manteve as chaves no bolso e saltou do carro tentando disfarçar o pânico que fazia suas mãos tremerem. Seu Landel levantou-se devagar, ajeitando o chapéu de couro. Seus olhos pequenos e opacos varreram o banco traseiro do veículo, parando exatamente em cima da mala de roupas que ela não tivera tempo de esconder.
— Desceu cedo para a estrada de saída, dona Jéssica... — a voz dele cruzou a varanda, arrastada e mansa demais para ser natural. — O guarda da barreira me ligou. Disse que a senhora estava meio alterada, querendo largar o contrato do aluguel antes da hora.
Jéssica engoliu em seco, parando no primeiro degrau da escada.
— Eu... eu tive uma emergência familiar na capital, Seu Landel. Mas o policial disse que ninguém pode sair por causa de uma investigação.
O velho deu uma tragada longa no cigarro. A brasa vermelha iluminou por um segundo um sorriso de canto de boca, sombrio e desprovido de qualquer dente.
— É, a polícia daqui trabalha muito bem quando quer... — ele deu dois passos à frente, encurtando a distância. O cheiro de fumo barato infestou o ar. — Sabe o que é? Um lugar isolado desses, no meio da mata, não é seguro para uma moça prendada ficar andando por aí com malas. A senhora devia me ouvir. Fique bem trancadinha aí dentro. O chefe não gosta quando as coisas saem do roteiro combinado.
Ele enfatizou a palavra "chefe" com uma naturalidade que fez o sangue de Jéssica congelar. O homem que deveria ser apenas o seu locador sabia exatamente o que estava para acontecer. Ele fazia parte do esquema. A casa alugada nunca fora um refúgio; era o cativeiro temporário onde a organização colocava suas presas para engordar antes do abate.
Seu Landel jogou a bituca do cigarro no chão, esmagou-a com a ponta da bota e caminhou em direção à caminhonete dele, estacionada um pouco mais à frente na estrada. Antes de entrar, ele olhou para trás uma última vez:
— Durma bem, dona Jéssica. O tempo voa por aqui.
O inimigo agora tem rosto e está monitorando cada passo dela. O que Jéssica pode fazer?


CONTINUA...


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Ficha do conto

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Nome do conto:
Encurraladas - capítulo 1

Codigo do conto:
275913

Categoria:
Sadomasoquismo

Data da Publicação:
30/10/2026

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