Eu sempre soube do que eu gostava. Aos 19 anos, 1,70 de altura, 60 quilos distribuídos num corpo magro, cabelo preto cacheado que nunca obedece pente nenhum e uma boca grande demais, de lábio carnudo, que já me rendeu mais elogio do que eu sei o que fazer com eles, eu nunca precisei me esconder. Em casa, na faculdade, entre os amigos: todo mundo sabia que eu gostava de rapazes, e ninguém achava isso um problema. O que quase ninguém sabia era a parte mais específica da minha tara: eu gosto de coroa. Gosto de homem feito, de voz grave, de barriga, de pelo, de mão grande, de quem já viu muita coisa e não precisa provar nada. Moleque da minha idade é divertido, serve pra balada e pra sexta à noite, mas não tem aquele molho. Um coroa tem. Eu tinha dois peguetes fixos. Nada sério. Eu gostava dos dois, mas não me via com nenhum deles além de uma noite ou outra, e nunca namorei ninguém na vida. Às vezes eu achava que era justamente por isso: eu tava esperando por um tipo de homem que não aparecia na minha rotina de UFES, estudo e fim de semana com os amigos. Eu morava com meus pais num bairro tranquilo de Vitória. Meu pai, Guilherme, era um homem de uns 55 anos, de pouca conversa, sempre de camisa polo e chinelo, com cara de quem carrega o peso do mundo mesmo quando o assunto é só o que vai ter no jantar. Minha mãe, Nayara, bem mais falante, cabelo curto pintado de castanho, sempre com alguma novidade de vizinhança na ponta da língua. Casa boa, de muro alto, com piscina nos fundos, onde a gente passava as tardes de sábado naquele verão. Foi numa dessas tardes que tudo começou. Eu estava na beira da piscina com os pés na água, minha mãe na espreguiçadeira ao lado, a gente jogando conversa fora, quando meu pai saiu de dentro de casa com o rosto fechado. Aquela cara de quem ia dar notícia ruim. — Pessoal, preciso falar uma coisa. O Gustavo tá se separando. Minha mãe levou a mão ao peito. — Meu Deus. De novo? — Dessa vez é de verdade. A Márcia já tinha perdoado duas traições, uma hora ia dar um basta. — Meu pai coçou a nuca. — Ele tá desempregado e sem ter pra onde ir. Vai vir de São Paulo ficar uns tempos aqui, tentar recomeçar no Espírito Santo. — Esse Gustavo não tem jeito mesmo — minha mãe suspirou. — Não tem. Mas é a vida. Eu só lembrava vagamente que existia um tio Gustavo, irmão mais novo do meu pai. A última vez que eu tinha visto o homem foi há mais de dez anos, eu era um moleque. — E vai ficar onde? — perguntei, já desconfiando. — No seu quarto. Tem a cama extra. — Pai... — Não tem outro lugar, Renato. É só por um tempo. Eu reclamei. Falei da minha rotina, das provas, da bagunça de ter um estranho no meu espaço. Não adiantou. Ficou decidido: ele chegaria em dois dias e dormiria na cama extra do meu quarto. Naquela noite, deitado, eu pensei que, se fosse preciso, transformaria a vida do tal tio Gustavo num inferno, só pra ele desistir e ir embora logo. Esse plano durou muito menos do que eu esperava. * * * Ele chegou na terça, quando eu estava na faculdade. Voltei no fim da tarde, o sol ainda forte, a mochila pesada nas costas, ensaiando mentalmente a minha cara de desprezo. Para entrar em casa pelo lado, a gente passa pela área da piscina. Foi ali que eu o vi. Tinha um homem nadando. Braçadas largas, sem pressa, de um jeito que só quem é grande e forte nada. Eu parei no meio do caminho sem saber por quê. Ele me viu, encostou na borda e saiu da água. Eu juro que o tempo desacelerou. Ele subiu a escadinha da piscina com a água escorrendo pelo corpo todo. Era alto, por volta de 1,85 talvez, moreno de um bronzeado que não vem de praia de fim de semana, vem de anos de sol na cara, de trabalho braçal, de doca de porto. Os cabelos pretos, já grisalhos nas têmporas, estavam molhados e puxados pra trás. O corpo era parrudo, de quem já foi malhado um dia e depois deixou a vida acontecer: ombros largos, peito forte e uma barriguinha de chope que, em vez de enfeiar, só deixava tudo mais real, mais de homem. Pelo no braço, pelo no peito, e um caminho de pelo escuro que descia pela barriga e sumia dentro da cueca branca. A cueca branca, encharcada. Colada no corpo, a água tinha deixado o tecido quase transparente, e marcava tudo. Eu tentei olhar pro rosto dele. Juro que tentei. Mas meus olhos teimaram em ficar naquele volume pesado, grosso, que balançava um pouco a cada passo e parecia grande demais mesmo em repouso. A minha boca ficou seca. Meus pés pararam de obedecer. — Nem lembra de mim, né, Renatinho? — A voz era grave, rouca, simpática. — A última vez que eu te vi, tu era um muleque desse tamanho. Ele mostrou a altura com a mão e, enquanto falava, enfiou a mão na cueca e ajeitou o pau, sem cerimônia nenhuma, como quem coça o nariz. Eu quase morri. — Oi, tio... é... na verdade... eu... — Eu me embolei todo, senti o rosto queimar. Os olhos dele, negros, penetrantes, me encaravam com uma simpatia que era quase um convite. — Relaxa, menino. Eu não mordo. — Ele deu um sorrisinho de lado. — Só se pedirem. E riu, uma risada safada, baixa. Meu coração disparou. Será que ele tinha visto? Será que tinha percebido que eu tava secando o corpo dele inteiro? Não. Pensei rápido: era só brincadeira de homem hétero, dessas bestas, que eles fazem sem pensar. Casado há vinte e tantos anos, traidor de mulher, claramente hétero. Eu estava viajando. — Vou tomar um banho e comer alguma coisa, tô morto de fome — ele disse, pegando uma toalha. — Vem comigo. Eu fui. Já tinha esquecido completamente o plano de fazer a vida dele um inferno. * * * No almoço, meus pais não estavam em casa. Éramos só nós dois na mesa da cozinha, ele de bermuda e camiseta regata, o cabelo secando, o cheiro de sabonete misturado com o cheiro natural dele. Conversamos sobre coisa nenhuma: faculdade, São Paulo, o porto, as obras. Eu ria mais do que a conversa merecia. Ele tinha um jeito bonachão, daqueles que dominam qualquer assunto, que contam história de um jeito que você quer ouvir mais uma. — Depois eu queria dar uma volta — ele disse, mastigando. — Rever uns lugares que eu ia quando era mais novo. Tu vai comigo? — Claro, tio. Respondi rápido demais. Ele sorriu como se tivesse notado. * * * Às oito da noite a gente saiu, ele dirigindo o carro do meu pai. Primeira parada: Rua da Lama. O bar fervendo, mesa na calçada, cheiro de fritura e de maresia, gente rindo alto em todas as mesas. Ele pediu dois chopes e uma porção de isca de peixe como se tivesse nascido ali. Eu estava tenso nos primeiros minutos. Sentado de frente pra ele, tentando não olhar demais pro braço peludo apoiado na mesa, pro relógio velho no pulso grosso, pro jeito que a camisa abria no peito. Mas bastou o primeiro chope descer pra eu perceber que era fácil conversar com o Gustavo. Ele contava do tempo de doca, das brigas no porto, de um cara que caiu no mar de terno. Quando eu vi, estava gargalhando, com a mão na barriga. — Tu ri bonito, sabia? — ele disse, de repente, olhando direto pra mim. — Obrigado... — respondi, e tomei um gole pra disfarçar. Do bar fomos pro Triângulo. Mais um chope cada, a conversa fluindo, a perna dele encostando na minha debaixo da mesa. Podia ser coincidência, mas ele não tirava. Eu também não. Depois do terceiro chope, a cabeça leve, ele pagou a conta, ficou de pé e disse: — Vem, quero te mostrar um lugar. Dirigiu em silêncio, a janela aberta, o vento quente da noite entrando. Pegou a orla de Camburi e foi até o fim da praia, num trecho escuro e deserto, longe dos quiosques, e estacionou entre as árvores, com o mar batendo ali perto. Eu sabia exatamente onde a gente estava. Todo gay de Vitória sabe. Era um ponto conhecido de pegação, onde os carros ficam parados de farol apagado e ninguém pergunta nada pra ninguém. O coração começou a bater na garganta. Mas eu não falei nada. Fiquei olhando pro escuro pelo para-brisa, esperando. — Por que a gente parou aqui, tio? — perguntei, por fim, com a voz mais fina do que eu queria. Ele desligou o motor. O silêncio ficou pesado, só o barulho das ondas e do metal do carro esfriando. — Tu sabe por que a tua tia me largou? Fiquei sem graça. — O pai falou por alto... Que foi traição, né. — Foi. — Ele soltou o ar devagar. — E não foi a primeira. Ela sempre perdoou, sabe? Católica, contra divórcio, essas coisas. Mas dessa vez foi diferente. — Diferente como? — Foi com um rapaz do prédio. Vizinho novo, novinho, uns 25 anos. — Ele deu um riso curto, sem humor. — Pra ela, ser traída por um "homem" com metade da idade dela foi humilhação demais. E, além disso, ela já tava me achando muito folgado, sem trabalhar, parado em casa. Juntou tudo. Eu fiquei calado. O peito apertado, a boca seca, e uma ansiedade esquisita crescendo na barriga. Ele estava me contando uma intimidade. Por quê? Pra onde aquela conversa ia? — Sabe por que eu tô te contando isso, Renatinho? — Não, tio. Ele virou o rosto devagar pra mim. Os olhos negros brilhavam na pouca luz que vinha da rua. — Porque eu vi como tu me secou hoje na piscina. — A voz ficou mais baixa, mais grossa. — Parecia que ia engolir meu pau só com os olhos. O sangue subiu pro meu rosto de uma vez. Eu quis abrir a porta e sumir na praia. Mas, ao mesmo tempo, senti meu pau latejar dentro da bermuda, duro, traindo todo o meu constrangimento. — Desculpa, tio... eu... — Relaxa. — Ele sorriu, e era um sorriso de predador manso. — Eu gostei. Faz tempo que ninguém me olha desse jeito. Ele foi aproximando o rosto do meu, bem devagar, como quem dá tempo da presa fugir. Eu sentia o cheiro do chope no hálito dele, o cheiro de cigarro, de suor do dia, de homem. A barba por fazer quase roçando meu queixo. — Tu gostaria de ver sem a sunga? — ele sussurrou. Minha voz quase não saiu. — Gostaria. Muito. Ele não esperou mais nada. A mão grande agarrou minha nuca, os dedos se enfiaram nos meus cachos, e ele me beijou. Foi um beijo forte, áspero, de quem tem fome, a barba raspando no meu rosto, a língua invadindo minha boca com um gosto de álcool e tabaco. Eu me derreti inteiro. Gemi dentro da boca dele sem querer, e senti ele sorrir no meio do beijo. Minha mão se mexeu sozinha. Deslizou pelo peito dele, sentindo o pelo grosso por cima da camisa, a barriga firme e macia ao mesmo tempo, até chegar na virilha. O volume ali já estava crescendo, quente, pulsando contra a palma da minha mão. — Caralho... — ele gemeu, grosso, no meu ouvido. — Que delícia. Abri o zíper dele com a mão tremendo e puxei o pau pra fora. Meu Deus. Devia ter uns vinte e dois centímetros, grosso, cabeçudo, as veias saltadas, totalmente duro, latejando na minha mão como se tivesse vida própria. Quente. Pesado. Eu mal conseguia fechar os dedos em volta. Comecei a punhetar devagar, olhando fascinado, sentindo a pele deslizar, a cabeça escorrendo um pouco. Ele afastou meu rosto com a mão, me olhando fundo. — Vai, sobrinho. — A voz era um rosnado baixo. — Mama o pau do titio, vai. Eu fui. Me inclinei por cima do console do carro e botei a boca nele, primeiro só a cabeça, sentindo o gosto salgado, o cheiro forte de homem que tinha suado o dia todo. Ele soltou um gemido longo e passou a mão pelos meus cachos, sem forçar, só segurando. — Isso, sobrinho... isso... — ele gemia, a voz arrastada. — Que boquinha de veludo, porra. Fui descendo, tentando engolir o máximo que eu conseguia, a boca esticada em volta daquela grossura, a língua trabalhando por baixo, a saliva escorrendo. Ele respirava pesado, a barriga subindo e descendo, os quadris se mexendo de leve contra a minha boca. — Nossa, que boca de putinha... — ele sussurrou, e aquilo me arrepiou inteiro. — Se eu soubesse que ia ter tratamento de rei, tinha vindo te visitar antes. Eu gemi com o pau dele na garganta, e a vibração arrancou dele um palavrão abafado. Chupei com mais vontade, uma mão na base grossa, a outra apertando a coxa peluda dele, os olhos subindo pra ver a cara dele: a cabeça jogada pra trás no banco, o pescoço tenso, a boca entreaberta. Quando ele começou a ficar mais tenso, as coxas endurecendo, o ritmo dos quadris acelerando, eu soube que estava perto. Ele soltou um urro baixo, rouco, e gozou na minha boca em jatos fortes e quentes, muito, mais do que eu conseguia segurar. Engoli o que pude, o gosto amargo e forte descendo pela garganta, mas escorreu um pouco pelo canto da boca, pelo queixo, me deixando todo lambuzado. Ele ficou ofegante por um tempo, o peito subindo e descendo. Depois puxou meu rosto pra cima com as duas mãos e me beijou de novo, e dessa vez ele lambeu minha boca, limpando a própria porra do meu queixo com a língua, devagar, como quem saboreia. Eu quase gozei só com aquilo, sem encostar em mim. Ele encostou a testa na minha, ainda recuperando o fôlego. — Tu é uma delícia, Renato. Um sonho. — Passou o polegar nos meus lábios inchados. — Sabe o que eu queria? Fazer de ti a minha mulherzinha enquanto eu tiver naquela casa. Te ensinar a ser uma boa putinha, obediente. Meu estômago deu um nó. Eu nunca tinha me visto como mulher, nunca tinha pensado nisso, e nem sequer entendia o alcance do que ele estava propondo: não era só uma noite. Era uma entrega. Mas a voz dele, grave, mandona, firme, sem pedir licença, me deixou aberto por dentro. Meu cu piscou sozinho dentro da bermuda, quente, latejando, como se já soubesse a resposta antes de mim. — Sim, tio — eu disse, quase sem ar. — Me ensina a ser putinha. Ele sorriu devagar, satisfeito, e ligou o motor. — Então vai se preparando, sobrinho. Porque o titio tem muito pra te ensinar. O carro saiu da escuridão da praia, e eu fiquei ali, a boca ainda com o gosto dele, o coração aos pulos, sem fazer ideia de que aquele era só o começo do melhor verão da minha vida.
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