Capítulo 1 — Minha primeira descoberta
1988–1989
Existem lembranças que ficam guardadas durante tantos anos que, quando voltamos a elas, parece que estamos vivendo tudo novamente.
A minha começa no final dos anos 1980, quando eu tinha aproximadamente 14 anos.
Naquela época, eu era um adolescente que, aos olhos de todos, seguia um caminho bastante convencional. Gostava de meninas, tinha namoradinhas na escola, paquerava e me divertia como qualquer garoto da minha idade.
Mas havia uma curiosidade que eu ainda não conseguia explicar.
Quase todas as noites, meus pais e eu visitávamos a casa do meu tio, irmão do meu pai. Era um programa habitual e muito agradável. Meu tio era casado e tinha dois filhos, meus primos, com quem eu me dava muito bem. Gostava bastante daquele ambiente familiar.
Minha tia era representante de várias marcas e vendia produtos por catálogo. Natura, Hiroshima e, principalmente, Demillus. Como a casa vivia cheia de revistas, era impossível não encontrar aqueles catálogos espalhados pelos cômodos.
E foi justamente ali que começou minha curiosidade pelo universo da lingerie feminina.
Eu gostava de folhear as páginas da Demillus. Observava os modelos, os tecidos, as cores e os diferentes cortes. Os modelos fio-dental eram os que mais despertavam minha atenção.
Naquela época, eu não entendia por que aquilo mexia tanto com minha imaginação. Era uma mistura de curiosidade, identificação e vontade de conhecer um universo que parecia pertencer exclusivamente às mulheres.
Uma pergunta começou a aparecer repetidamente na minha cabeça:
Como seria usar uma calcinha feminina?
Eu nunca tinha experimentado uma. Também não tinha coragem de perguntar ou procurar uma peça. Era um pensamento muito particular, que guardava comigo.
Até que, em uma dessas noites, percebi que havia roupas íntimas penduradas no banheiro da casa dos meus tios.
Aquela cena ficou na minha memória. Pela primeira vez, a curiosidade que até então existia apenas nas páginas de um catálogo parecia muito próxima da realidade.
Eu ainda não sabia dar nome ao que sentia. Só começava a perceber que existia em mim uma vontade de conhecer e experimentar a feminilidade de uma maneira que nunca havia imaginado.
Depois daquela época, passei a prestar muito mais atenção nas lingeries, nas roupas femininas e nas pequenas oportunidades de descobrir esse lado de mim.
O mais interessante é que aquela curiosidade não desapareceu com o tempo. Pelo contrário: foi ganhando novos significados e acompanhando diferentes fases da minha vida.
Hoje, olhando para trás, percebo que aquela pergunta aparentemente simples, feita diante de um catálogo da Demillus, marcou o começo de uma trajetória muito particular.
Uma trajetória de descobertas, feminilidade e autoconhecimento.
E esta é apenas a primeira parte da minha história.
Continua…
