Meu pai havia morrido quando eu tinha quatro anos. Fui criado por minha mãe, que sempre fez o possível para que nada me faltasse, embora quase sempre precisasse fazer contas para que o dinheiro chegasse até o fim do mês. Talvez por isso eu tivesse aprendido cedo a não pedir muita coisa. Também não tinha tido um homem em casa para me ensinar certas coisas que, para outros garotos, pareciam acontecer naturalmente.
Lembro, por exemplo, da primeira vez que comprei um aparelho de barbear. Fiquei um bom tempo diante da prateleira da farmácia, sem saber qual escolher, com vergonha até de perguntar ao balconista. Depois, em casa, aprendi sozinho a fazer a barba, quase sempre com algum corte no rosto. Eu ainda estava me acostumando às mudanças do corpo. Era magro, tinha ombros estreitos, braços mais finos do que eu gostaria e pernas compridas. Embora tivesse feito taekwondo durante alguns anos, nunca fui propriamente atlético. Mas aos dezoito, meu corpo parecia estar definindo o que eu seria.
Os pelos também começavam a aparecer com mais força no peito, na barriga e nos braços, preenchendo-os por toda a extensão do meu peitoral, e adensando na região do “caminho da felicidade”. Eu não gostava muito deles. Naquela época, as imagens de homens nas revistas, nos comerciais e na televisão mostravam corpos lisos, definidos, com pouca coisa fora do lugar. Eu me comparava com aquilo e quase sempre saía perdendo. Não gostava de tirar a camisa, mesmo quando fazia calor. Tinha a pele clara, o peito ainda peludo demais, e uma vergonha que eu não sabia de onde vinha.
A ideia de prestar o vestibular da UnB surgiu numa conversa com minha mãe. Meu tio Rodrigo, irmão mais novo do meu pai, morava em Brasília havia muitos anos e tinha se oferecido para me receber. Eu o via pouco. A última vez que nos encontramos pessoalmente devia fazer uns cinco anos, mas ele telefonava de vez em quando, mandava cartões e lembrava de mim nas datas importantes.
Minha mãe achou que valia a pena tentar. Eu perguntei o que aconteceria se passasse, se teria mesmo que morar em Brasília e se ela ficaria sozinha em São Paulo. Ela respondeu que a gente daria um jeito. Depois perguntou se eu não queria, ao menos, tentar descobrir se conseguiria.
Não soube responder direito. Tinha medo de ir, mas também não queria deixar passar a oportunidade.
Na semana da viagem, recebi um cartão de Natal atrasado do meu tio. Na frente havia uma fotografia aérea de Brasília. No verso, ele escrevera: “Vem. O quarto está pronto há anos. Seu pai ficaria feliz.”
Li aquela frase algumas vezes antes de guardar o cartão na mochila. Havia qualquer coisa na letra dele — grande, inclinada, um pouco apressada — que me fazia reler. Como se a frase continuasse falando depois que eu já tinha entendido.
Saí de São Paulo numa noite de janeiro. Minha mãe me acompanhou até o Terminal Tietê e esperou comigo até a hora do embarque. Antes de eu subir no ônibus, fez discretamente o sinal da cruz. Pediu que eu telefonasse quando chegasse. Eu disse que ligaria.
A viagem durou cerca de dezesseis horas. Dormi pouco, acordei algumas vezes e, quando o ônibus finalmente entrou em Brasília, já estava cansado e com a sensação de que tinha passado tempo demais sentado. Chegamos na quinta-feira, às dez e três da manhã.
Tio Rodrigo estava me esperando na rodoviária.
Reconheci-o antes que ele me visse. Estava um pouco mais velho do que eu lembrava, mas continuava com a mesma estrutura física. Tinha aproximadamente um metro e setenta, a minha altura, mas parecia mais largo. Os ombros eram fortes, o peito cheio e os braços tinham um volume que não vinha apenas da idade. Frequentava a academia algumas vezes por semana, embora não tivesse aparência de fisiculturista. Era um homem sólido, de corpo bem desenvolvido, sem parecer preocupado demais com isso.
A pele morena estava bastante bronzeada. Usava o cabelo preto curto, com alguns fios grisalhos nas têmporas, e uma barba cheia, aparada com cuidado. Os braços eram cobertos de pelos escuros, e eu conseguia notar muitos outros aparecendo na abertura da regata branca que vestia — o tecido fino, meio encardido de suor na gola, deixando à mostra a curva do peitoral e um começo de barriga dura. Completavam o conjunto uma bermuda de tactel desbotada, de cós largo, e um par de chinelos de dedo.
Ele abriu o sorriso largo quando me viu, aquele sorriso que eu lembrava de fotos antigas.
— Pedro! Porra, como você cresceu, hein? Tá um varapau.
Veio até mim e me abraçou com força, batendo duas vezes nas minhas costas. O abraço foi rápido, mas eu senti o peito dele contra o meu, o calor da pele, o cheiro de sabonete e de qualquer coisa mais quente por baixo, um cheiro de homem que dormiu e não tomou banho ainda. A mão dele apertou meu ombro antes de pegar a mala, e eu senti a aspereza dos dedos, a palma larga, o peso da mão.
— Como foi a viagem? Dormiu alguma coisa?
— Mais ou menos, tio.
— Mais ou menos é o caralho, você tá com uma cara de quem passou a noite em pé. Vamos embora. Está um calor danado hoje, tu vai derreter aqui.
No caminho até o carro, perguntou pela minha mãe, comentou que ela deveria ter ficado preocupada e quis saber se eu tinha comido alguma coisa durante a viagem. Falava com facilidade, sem aqueles intervalos que eu costumava deixar entre uma pergunta e outra, e ria alto das próprias piadas. Passou o braço pelos meus ombros por um instante, um gesto de tio, e eu senti o peso do braço dele, o calor através da camiseta. Eu respondia, às vezes com frases curtas, enquanto tentava me acostumar à presença dele. Havia um ritmo nele que me deixava sem saber onde colocar as mãos, os olhos.
A casa ficava numa região residencial mais tranquila, longe do movimento da rodoviária. Era uma construção térrea, recuada em relação à calçada, com um muro alto, portão de metal e um pequeno jardim na frente. Por dentro, era bem maior do que a casa onde eu morava com minha mãe. Os móveis eram de madeira escura, havia poucos enfeites e quase nada nas paredes. A sala tinha televisão, aparelho de som e alguns móveis grandes. Tudo estava limpo e organizado, mas havia pouca coisa que parecesse ter sido colocada ali apenas para decorar. O calor dentro da casa era denso, parado, como se o ar tivesse sido guardado desde a manhã.
Meu tio me mostrou o quarto. Era espaçoso, tinha uma cama de casal, um armário e uma escrivaninha. Disse que eu poderia deixar minhas coisas onde quisesse e que não precisava me preocupar com nada.
— O Gustavo está viajando com uns amigos. Só volta daqui a duas semanas — comentou. — Você vai ficar com o quarto mais tranquilo da casa.
Gustavo era meu único primo, filho de tio Rodrigo. Tinha vinte e três anos e eu o conhecia muito pouco. Lembrava de algumas fotografias de família e de encontros rápidos quando éramos mais novos. Meu tio comentou que ele estava viajando com um grupo de amigos da faculdade e que passaria alguns dias na praia.
Depois de deixar a mala no quarto, tomei banho e fui almoçar. Meu tio já tinha preparado alguma coisa. Conversamos sobre a viagem, sobre minha mãe e sobre o vestibular. Ele quis saber se eu estava preparado, se tinha estudado bastante e se estava nervoso. Disse que não precisava me preocupar com a casa, que ali eu poderia ficar à vontade.
Durante o almoço, ele tinha tirado a regata antes de se sentar à mesa. Ficou de bermuda, o torso nu, e eu tentei não olhar. Mas a pele bronzeada ocupava o ambiente de um jeito que eu não sabia como ignorar. Os ombros largos, o peito cheio, os mamilos escuros perdidos no meio dos pelos, a linha densa que descia pelo centro da barriga e desaparecia no cós da bermuda. Havia uma cicatriz pequena, clara, perto da costela. Quando ele se inclinava para pegar o sal, a bermuda escorregava um pouco e eu via a faixa de pele mais clara na cintura, onde o sol não batia. As costas dele, quando se virava para a pia, eram largas e relativamente musculosas, com dois sulcos fundos que desciam até a cintura.
— Come mais, Pedro. — ele disse, empurrando o prato na minha direção.
Depois do almoço, liguei para minha mãe. Disse que tinha chegado bem, que meu tio estava me tratando muito bem e que a casa era confortável. Ela quis saber se eu tinha comido e se estava tudo certo com a viagem. Prometi ligar novamente à noite.
Passei o restante da tarde descansando e organizando minhas coisas. O calor era forte, e a casa parecia guardar o ar quente do lado de fora. Rodrigo circulava pela sala e pela cozinha, sem camisa. Eu vestia uma camiseta preta, com um logotipo amarelo do Nirvana. O tecido escuro grudava nas costas, e eu puxava o pano com o dedo, sem jeito, para que não marcasse o corpo.
À noite, depois de jantar, ficamos um tempo na sala. A televisão estava ligada, mas nenhum de nós prestava muita atenção. Rodrigo perguntou se eu estava confortável e disse que não precisava ficar com cerimônia.
— Fica à vontade, Pedro. Aqui não tem frescura. Estamos entre machos. Tira essa camisa. Não precisa ficar com vergonha.
— Estou bem assim — respondi.
Ele olhou rapidamente para mim, mas não insistiu.
Eu estava suando. O tecido estava um pouco úmido nas costas e debaixo dos braços. Fiquei ali, sentado, sentindo o suor escorrer devagar pela lateral do corpo, e com a impressão de que ele sabia. A frase — estamos entre machos — ficou zumbindo na minha cabeça. Não era bem um convite. Era uma constatação, dita com a naturalidade de quem não via problema nenhum naquilo. E talvez fosse justamente essa naturalidade que me deixava tão sem chão.
Fiquei mais um pouco na sala, depois disse que estava cansado e fui para o quarto. Antes de dormir, pensei na prova do dia seguinte, no aulão e na possibilidade de conseguir uma vaga na UnB. O cartão do meu tio estava guardado na mochila, junto com os documentos. Lembrei da frase sobre meu pai, mas não fiquei muito tempo pensando nela. Acabei dormindo.
Na sexta-feira, acordei cedo. Rodrigo já estava na cozinha quando apareci. Tomamos café e ele me entregou algum dinheiro para que eu pudesse comer durante o dia.
— Não precisa me dar dinheiro, tio. Eu trouxe.
— Guarda o seu, rapaz. Você está aqui como meu convidado. E se sobrar, você me paga uma cerveja quando passar.
Não adiantou insistir. Ele me levou até o local onde seria o aulão e combinou o horário em que voltaria para me buscar. Passei o dia entre revisões, exercícios e explicações. Tentei acompanhar tudo, embora estivesse cansado da viagem e ainda me sentisse um pouco deslocado.
Quando saí, Rodrigo já estava esperando no carro. Perguntou como tinha sido e se eu achava que a revisão tinha ajudado. Contei algumas coisas, sem entrar muito em detalhes. Ele ouviu e depois sugeriu que fôssemos comer alguma coisa antes de voltar para casa.
Paramos num lugar simples, perto dali. A conversa foi mais tranquila do que no dia anterior. Ele falou um pouco de Brasília, do trabalho e de como tinha sido se mudar para lá. Comentou também que Gustavo estava aproveitando as férias antes de voltar à faculdade. Em algum momento, perguntou se eu já tinha pensado no que faria caso passasse.
— Ainda não sei — respondi.
— E tá tudo bem! Uma coisa de cada vez. Primeiro, faz a prova. Depois a gente pensa no resto. E se der merda, a gente resolve também.
Era o tipo de conselho que eu precisava ouvir, embora não tivesse certeza de que conseguiria segui-lo.
Voltamos cedo. Tomei banho, separei os documentos e o material que levaria no sábado. Deitei antes das dez, mas demorei a pegar no sono. Pensava na prova, na possibilidade de passar e no que isso significaria para minha vida e para a da minha mãe.
No sábado, acordei com o estômago apertado. Tio Rodrigo já estava de pé e me esperava para o café. Falou pouco sobre o vestibular. Apenas conferiu se eu estava levando tudo e me avisou que sairíamos com antecedência para evitar qualquer imprevisto.
— Respira, homem. É só uma prova. Você estudou, agora é entregar. — Ele me deu um tapa leve no ombro. — E se der branco, chuta. Chutar também é uma arte.
No local da prova, despediu-se de mim e disse que estaria esperando quando eu terminasse.
A primeira etapa foi cansativa. Tentei me concentrar nas questões e administrar o tempo, mas saí sem saber ao certo como tinha me saído. Havia algumas respostas de que estava seguro e outras que preferia não lembrar. Pensei em conferir o gabarito quando chegasse em casa, mas desisti. Ainda teria outra prova no domingo, e não queria passar o restante do dia tentando descobrir onde poderia ter errado.
Meu tio me encontrou na saída. No caminho de volta, conversou sobre outras coisas não relacionadas ao vestibular, talvez para me distrair.
Passei boa parte da tarde no quarto. O calor era intenso, e o ar parecia parado. Eu tentava descansar, mas minha cabeça continuava voltando às questões da prova. Às vezes me levantava, andava um pouco pelo quarto e tornava a me deitar. Não conseguia ler, nem assistir à televisão. Também não queria conversar.
Em algum momento, Rodrigo apareceu à porta com um prato de lanche.
— Você precisa comer alguma coisa. Tá aí deitado desde a hora que chegou, isso não faz bem.
Agradeci e me sentei na cama. Ele entrou e deixou o prato sobre a escrivaninha. Estava sem camisa, como de costume. A pele dele brilhava um pouco de suor, e a bermuda de tactel estava caída no quadril, deixando à mostra a cintura e o começo do que eu não queria olhar. Quando ele se inclinou para deixar o prato, as costas se arredondaram, os músculos se desenharam sob a pele, e eu senti um calor subir pelo rosto.
— Está muito tenso — comentou, me olhando com atenção.
— Um pouco.
Ele se aproximou e colocou as mãos nos meus ombros. Apertou de leve, como quem verifica a rigidez de um músculo. As mãos eram grandes, quentes, e eu senti a palma dele contra o tecido fino da minha camiseta. O polegar se moveu uma vez, para cima, perto do meu pescoço, e eu prendi a respiração sem querer.
— Está tenso aqui. Você fica assim quando está nervoso?
— Acho que sim.
— Quer que eu faça uma massagem? Você está todo travado, amigão.
— Não precisa, tio. Está tudo bem.
Ele retirou as mãos sem insistir, mas ficou um instante com uma delas no meu ombro, como quem dá um último aperto de conforto.
— Então come. E tenta descansar um pouco. Amanhã tem mais. — Ele sorriu. — E se ficar nervoso assim, vai dar branco na prova. Come algo, por favor.
Ficou por alguns instantes, perguntou se eu precisava de alguma coisa e depois saiu. Comi o lanche devagar. O quarto continuava quente, e meus ombros ainda pareciam retesados. Tentei voltar a pensar na prova, mas a lembrança das mãos dele apareceu algumas vezes, sem que eu conseguisse entender por que tinha ficado tão atento àquele gesto. A marca do aperto ficou na pele, como uma tatuagem semipermanente que demorava a sair.
À noite, jantei pouco. Disse que estava cansado e voltei para o quarto. Preparei o despertador, conferi os documentos mais uma vez e me deitei cedo. Apaguei a luz, mas o sono demorou.
Acordei de madrugada com vontade de ir ao banheiro. Ainda estava meio sonolento. Vestia meu pijama, que consistia numa camiseta puída, e shorts de algodão comprados na 25 de Março. Fui ao banheiro e, depois, passei pela cozinha para beber água.
A casa estava silenciosa. Abri a geladeira, peguei a garrafa e enchi um copo. A luz da geladeira cortava o escuro, e eu fiquei ali um instante, sentindo o frio do copo na mão. Quando terminei, ouvi uma porta se abrir no corredor.
Foi um som pequeno, o trinco girando devagar, e depois o arrastar de um pé no piso. Eu me virei para a direção do corredor, ainda com o copo na mão, esperando ver quem era. O escuro era completo. Não havia luz acesa em lugar nenhum, só a claridade fraca da geladeira atrás de mim, e por um instante não vi nada além da porta aberta e o vulto parado na moldura.
Houve um clique. A luz do corredor acendeu de uma vez, e eu pisquei, ofuscado.
Ele estava de pé no meio do corredor, a mão ainda no interruptor. E estava completamente nu.
Não foi uma coisa que eu entendi de imediato. Meu olho demorou a montar a imagem: primeiro a luz forte, depois o corpo escuro contra ela, e só então o fato de que não havia tecido nenhum. Nenhum. Nem cueca. Ele estava com o corpo todo à mostra, iluminado de lado pela lâmpada, e eu fiquei parado com o copo na mão, sem conseguir me mexer, sem conseguir desviar.
Parecia ter acabado de acordar. O cabelo estava amassado de um lado, os olhos ainda meio apertados, o corpo com aquele peso mole de quem saiu da cama havia segundos. Ou talvez estivesse indo ao banheiro, sei lá. Não importava. O que importava era que ele não fazia nada para se cobrir. Não cruzou os braços, não se virou, não deu o menor sinal de que estar nu na frente do sobrinho fosse um problema. Ficou parado ali, o corpo todo iluminado de lado, e eu senti o chão sumir um pouco.
Ele era largo em tudo. O peito cheio descia para uma barriga firme, não dura de academia, mas sólida, de homem que carrega peso. Os pelos escuros cobriam o peito e se estreitavam numa linha até abaixo do umbigo, onde o corpo mudava de textura. As coxas eram grossas, os joelhos marcados, as panturrilhas redondas. Os braços, caídos ao lado do corpo, pareciam ainda maiores sem a roupa. E ali, entre as pernas, escuro contra a pele mais clara, o pau dele pendia grosso, pesado, adormecido, com os pelos em volta — eu olhei sem querer, e olhei tempo demais, e senti o rosto queimar. Não era a imagem que eu tinha na cabeça. Era maior do que eu poderia imaginar (embora nunca tivesse, particularmente, imaginado a pica do irmão do meu pai). A pele mais escura no centro, o volume que mudava com o movimento mínimo do corpo dele.
Ele olhou para mim e perguntou, com a maior naturalidade:
— Está tudo bem, Pedro? Precisa de alguma coisa?
Fiquei parado por um instante, com o copo na mão.
— Não. Só vim beber água.
— Ah, está certo. — Ele coçou a barriga, sem pressa nenhuma, e comentou: — Calor do inferno, né? Não dá pra dormir de cueca. Você devia fazer o mesmo, senão amanhece ensopado.
— É… vou ver.
— Vê nada, rapaz. Tira essa camisa, pelo menos. Tá parecendo que vai pra missa.
Não sei se respondi depressa demais. Também não sei quanto tempo fiquei ali antes de colocar o copo na pia. Rodrigo continuou agindo como se nada de especial tivesse acontecido. Para ele, provavelmente não tinha acontecido mesmo. Passou a mão no cabelo, bocejou, e o corpo todo se moveu com aquele gesto, e eu desviei os olhos de vez, com o coração batendo alto.
Desejei boa noite, embora já fosse madrugada, e voltei para o quarto. Fechei a porta e fiquei alguns segundos parado, tentando afastar a sensação de constrangimento. Deitei, puxei o lençol e virei de lado. A imagem voltava, teimosa, e eu a empurrava para longe, como se pudesse apagá-la com a força da vontade.
Precisava dormir.
No dia seguinte havia outra prova. Precisava acordar cedo, tomar café, chegar ao local no horário. Não podia ficar pensando naquilo. Precisava dormir.
Repeti essas coisas algumas vezes, como se fossem instruções que eu pudesse seguir apenas por insistência. Aos poucos, o cansaço falou mais alto.
No domingo, acordei com o despertador. Rodrigo já estava vestido quando cheguei à cozinha. Usava uma camiseta verde e uma bermuda cáqui. Conversou comigo sobre o horário, perguntou se eu tinha dormido bem e preparou o café. A madrugada anterior me veio à cabeça por um instante, mas não havia nada no comportamento dele que indicasse que aquilo tivesse significado alguma coisa. Ele parecia exatamente o mesmo.
Tentei agir da mesma maneira.
Saímos de casa pouco depois. Durante o trajeto, fiquei olhando pela janela, repassando mentalmente o que tinha estudado. Não queria pensar em mais nada. Quando chegamos, Rodrigo desejou boa sorte e disse que estaria me esperando.
A segunda prova exigiu mais de mim. Fiz as questões com atenção, procurando não perder tempo e evitando me precipitar. Não sei exatamente o que aconteceu naquele dia, mas me lembro de ter levado tudo muito a sério. Queria passar. Queria mesmo. Não sabia dizer se era pela possibilidade de estudar na UnB, por sair de São Paulo, por experimentar uma vida diferente ou simplesmente por provar a mim mesmo que conseguiria. Naquele momento, as razões pareciam misturadas.
Quando finalmente saí, senti um alívio imediato. Era como se tivesse passado os últimos dois dias segurando alguma coisa e pudesse, enfim, soltar. Ao mesmo tempo, a dúvida apareceu quase no mesmo instante. Talvez tivesse errado mais do que imaginava. Talvez não tivesse conseguido responder o suficiente.
Encontrei meu tio esperando do lado de fora. Ele perguntou como tinha sido.
— Acho que fui bem. Mas não sei.
— Agora já foi. Você fez o que podia, né, camarada? E vamos comemorar? — Ele me deu um abraço rápido, de novo aquele abraço de bater nas costas, e eu senti outra vez o calor do peito dele, o cheiro de sabonete, a mão dotada de veias salientes no meio das minhas costas.
No carro, comecei a sentir uma dor de barriga. Primeiro foi uma cólica leve, depois um desconforto que me fez mudar de posição no banco. Rodrigo percebeu.
— Está passando mal?
— Um pouco. Acho que é nervoso.
— Quer que eu pare em algum lugar?
— Não precisa. Acho que passa.
Ele dirigiu de volta para casa, sem fazer muitas perguntas. Eu estava cansado, com a cabeça pesada e o estômago embrulhado. Quando chegamos, fui direto ao banheiro. Depois, lavei o rosto e fiquei um tempo olhando para mim mesmo no espelho. O rosto ainda estava vermelho, os olhos um pouco fundos. Pensei no corpo dele outra vez, sem querer, e senti o mesmo calor subir pelo pescoço. Fechei a torneira com força.
A prova tinha terminado. Eu ainda não sabia se tinha ido bem, nem se conseguiria a vaga. Também não sabia o que faria se passasse. Minha mãe continuava em São Paulo, e eu ainda teria de conversar com ela sobre tudo aquilo.
Naquele domingo, porém, não quis pensar muito no futuro. Estava aliviado por ter terminado e, ao mesmo tempo, apreensivo com o resultado. Rodrigo perguntou se eu queria comer alguma coisa. Respondi que preferia descansar um pouco.
Voltei para o quarto, liguei o ventilador, e me deitei.
Passei boa parte da tarde no quarto. O calor era intenso, o ar parecia parado (a despeito do ventilador ligado), e a casa guardava o sol como um forno. Eu tinha aberto a janela, mas não entrava vento nenhum. A camiseta grudava nas costas, o suor escorria pela lateral do corpo, e eu me virava na cama sem conseguir descansar. Minha cabeça voltava às questões da prova, depois escorregava para outra coisa, para a imagem dele no corredor, e eu me obrigava a pensar em outra coisa. Não conseguia ler, nem assistir à televisão. Também não queria conversar.
Em algum momento, ouvi passos no corredor e a porta se abriu devagar. Rodrigo apareceu com um prato de lanche.
— Você precisa comer alguma coisa. Tá aí desde a hora que chegou, isso não faz bem.
Ele estava de calção. Um calção de tactel azul-escuro, curto, de cós largo, que ficava caído no quadril e deixava as pernas grossas de fora. Sem camisa. O peito cheio brilhava de suor, os pelos escuros do peitoral estavam grudados na pele, e o calor parecia ter deixado tudo mais evidente, sobretudo, a barriga firme que subia e descia com a respiração. A pele bronzeada tinha um brilho úmido.
— O calor tá demais, né? — ele disse, deixando o prato sobre a escrivaninha. — Não tem um ventinho. Mas isso é Brasília.
Agradeci e me sentei na cama. Ele entrou e ficou de pé perto de mim, e eu senti o calor que vinha dele, aquele cheiro de pele e de sabão. Quando ele se inclinou para ajustar o prato na mesa, as costas se arredondaram, os músculos se desenharam sob a pele, e eu desviei os olhos.
— Ainda tenso por causa da prova? — Ele passou a mão no próprio cabelo, e o suor brilhou na pele. — Relaxa, cara. É só uma prova, e você é o inteligente da família, puxou ao seu pai. Além do mais, você fez a Fuvest, e, pelo o que a sua mãe me contou, você com certeza passou lá.
— Eu sei.
— Sabe nada. Você tá aqui tenso pra caralho. — Ele riu baixo, sem maldade. — Olha, você é jovem. Tem muito tempo ainda. Vai dar certo, e se não der, vai dar outro jeito. O mundo não acaba num vestibular. Seu pai também era esforçado, sabia? Muito mais do que eu. Você puxou a ele.
Eu fiquei quieto. Ele falava com uma calma que eu não tinha.
— Você precisa relaxar — continuou. — Ficar desse jeito não faz bem. Devia deixar eu te dar uma massagem.
— Não precisa, tio.
— Precisa, sim. Eu tenho formação, sabia? Fiz curso de massagista. — Ele riu de novo, da minha cara de surpresa. — É sério. Massageio todo mundo que precisa. Amigo, colega de trabalho, o Gustavo. Não é nada demais.
Eu não soube o que responder. Ele esperou.
— Vira de bruços — disse, com naturalidade. — Só as costas. Você vai ver, vai dormir como pedra depois.
Fiquei um instante parado. Depois virei. De bruços, o rosto enfiado no travesseiro, o coração batendo forte. O colchão se moveu quando ele se ajeitou ao meu lado.
— Fica de boas — ele disse. — Respira.
As mãos dele pousaram nas minhas costas. Primeiro de leve, por cima da camiseta, reconhecendo o terreno. Depois começaram a apertar, os polegares subindo dos rins até os ombros, devagar, com cuidado. Ele sabia o que estava fazendo. Encontrava os nós com uma precisão que me fazia soltar o ar sem querer. O calor das mãos atravessava o tecido, e o suor fazia o pano grudar ainda mais na pele.
— Tá vendo? Tudo travado. — A voz dele era baixa, perto do meu ouvido. — Calma. Vai soltando.
Eu tentava. Mas o corpo não obedecia. Cada aperto me deixava mais atento, mais consciente dele ali, do peso dele na cama, do calor que vinha do corpo dele. As mãos de homem, subindo e descendo pelas minhas costas. Eu sentia a respiração dele perto da minha nuca, o ar quente, o cheiro de sabonete e de pele suada.
— Vou pegar uma coisa, já volto — ele disse.
Saiu. Ouvi os passos no corredor, uma porta, um armário. Fiquei de olhos fechados, de bruços, sem me mexer. Não quis ver o que era. Não quis abrir os olhos e dar de cara com ele outra vez. Fiquei esperando, o rosto no travesseiro, o coração descompassado.
Ele voltou. O colchão afundou de novo. Senti a mão dele na barra da minha camiseta.
— Vou tirar isso, tá atrapalhando.
Não resisti. Ele puxou o tecido para cima, devagar, e eu levantei os braços o suficiente para que ele passasse pela minha cabeça. A camiseta saiu. O ar do quarto tocou minha pele nua, e eu senti o corpo todo se arrepiar. Fiquei de bruços, o torso desnudo, o rosto enterrado no travesseiro, com vergonha e com outra coisa que eu não sabia nomear.
— Bem melhor — ele disse.
Ouvi o barulho de uma bisnaga sendo aberta, aquele som de plástico, e depois o líquido saindo. As mãos dele voltaram, agora com óleo. O toque era diferente, deslizava, e o cheiro era adocicado, qualquer coisa de amêndoa. Ele começou de novo pelos ombros, descendo pelas costas, com mais pressão agora, o óleo fazendo as mãos correrem pela pele. Eu sentia cada centímetro. A proximidade do corpo dele, o calor, a respiração perto da minha nuca, o peso do colchão mudando quando ele se inclinava.
Em algum momento, ele se inclinou mais. O peito dele encostou nas minhas costas, e eu senti os pelos escuros roçarem a minha pele, o calor do torso dele contra mim, o suor dos dois corpos se misturando. Ele ficou assim por um instante, o peso do corpo sobre o meu, as mãos deslizando pelos meus ombros, e eu senti a respiração dele na minha nuca, quente, lenta. O coração disparou. O corpo inteiro parecia ter acordado.
— Você é todo duro aqui, ó — ele disse, apertando o ombro. — E aqui também. Tá segurando o mundo nas costas, rapaz.
Eu não respondia. Só respirava.
Ele se afastou um pouco, e a mão dele deslizou pela lateral do meu corpo, saindo das costas, tocando meu torso, o peitoral. Foi um toque leve, quase distraído, mas eu senti o corpo inteiro reagir. Ele parou ali por um instante.
— Peludo que nem o pai e o tio — comentou, com um riso baixo. — Coisa da família. O Gustavo também é assim, um pouco menos. Mas é do sangue.
A mão dele voltou para as costas, mas a marca do toque ficou no peito. E eu comecei a sentir o corpo responder de um jeito que não tinha nada a ver com a massagem. O sangue foi descendo, o calor se concentrando, e eu percebi, com um pavor que me atravessou inteiro, que estava ficando excitado. De bruços, o corpo contra o colchão, eu sentia a ereção crescer, e não havia como esconder aquilo. Se ele me pedisse para virar, se ele quisesse massagear a frente, ia ver. Ia ver tudo.
Ele continuou nas costas, sem pressa, comentando qualquer coisa sobre a prova, sobre o calor, sobre dormir melhor depois. Eu mal ouvia. O coração batia no ouvido.
— Pedro? — ele chamou, depois de um tempo.
Eu não respondi. O medo de que ele me fizesse virar era maior do que tudo. Então fiz o que me pareceu a única saída: comecei a respirar mais fundo, devagar, como quem está pegando no sono. Deixei o ar sair pesado, simulei um ressonar baixo, regular.
Ele parou as mãos por um instante.
— Pedro?
Nada. Continuei com a respiração pesada, o rosto no travesseiro, os olhos fechados.
— Dormiu — ele disse baixinho, para si mesmo. — Falei que ia dormir. Mas essa bermuda de brim não dá pra dormir, não. Vou tirar pra você ficar mais à vontade.
Meu coração parou por um instante. Ele estava falando comigo? Ou com ele mesmo? Não respondi. Não podia responder. Continuei com a respiração pesada, regular, o rosto no travesseiro, os olhos fechados com força.
Senti a mão dele no meu quadril. Os dedos acharam o botão da bermuda de brim, e ele começou a abrir, devagar, sem pressa. O metal soltou, o zíper desceu com um rasgo curto, e a mão dele ficou ali por um instante, parada, antes de puxar o tecido pelo cós.
Foi quando eu percebi o tamanho do problema. A ereção estava ali, dura, apontada para baixo e para frente, e a mão dele estava a centímetros. Se ele puxasse o cós, o tecido ia arrastar por cima, e o volume ia ficar ainda mais evidente. Se ele descesse a bermuda pelas pernas, ia ter que passar por ali. Não havia posição, não havia jeito de esconder. O pânico subiu pela garganta, e eu senti o corpo inteiro ficar ainda mais tenso, o que só piorava tudo, porque a ereção latejou, mais dura, como se estivesse respondendo ao medo.
Ele puxou o cós, primeiro de um lado, depois do outro, com jeito, para não me acordar. A bermuda escorregou pelo quadril. O tecido passou por cima do volume, roçou, e eu prendi a respiração com tanta força que o peito doeu. A mão dele fez uma pausa. Um instante só. Talvez meio segundo. Tempo suficiente para eu sentir os dedos parados ali, perto, sem se mover, e para o meu cérebro disparar em todas as direções ao mesmo tempo: ele viu. Ele viu. Ele sabe.
Depois ele continuou, como se nada tivesse acontecido. Puxou a bermuda pelas minhas pernas, devagar, e o tecido saiu dos meus pés. Ouvi o som dela sendo dobrada e apoiada na cadeira.
Eu fiquei só de cueca. Só de cueca, de bruços, o torso nu, o óleo nas costas, e a ereção ali, contra o colchão, cada vez mais evidente. Se ele olhasse, veria o volume, o jeito como o tecido esticava, o tremor que eu não conseguia controlar.
Não sei o que me deu. Talvez o medo de ficar completamente imóvel demais, de parecer acordado justamente por não me mexer. Então deixei escapar um grunhido leve, baixo, como quem se mexe no sono, e voltei a ressonar, a respiração pesada e regular outra vez.
Ele não disse nada. Ficou parado por um instante. Eu sentia o olhar dele, ou achava que sentia, e não sabia se era impressão minha ou se ele estava mesmo me olhando. Se ele tinha visto — e ele tinha, não havia como não ter visto, a mão dele estava ali, ele tinha sentido —, ele não deu nenhum sinal. Não fez piada, não comentou, não riu. Só ficou em silêncio, e aquele silêncio era pior do que qualquer coisa que ele pudesse dizer.
Ouvi um movimento leve, o som da bermuda sendo ajustada na cadeira. Depois os passos dele até a porta. A maçaneta girou. A porta se abriu, a luz do corredor entrou por uma fresta, e ele saiu. A porta se fechou com um clique suave.
O quarto voltou ao silêncio e ao calor.
Eu fiquei de bruços, sem me mexer, por um bom tempo. O óleo esfriava na pele, o cheiro de amêndoa continuava no ar, e a ereção não passava. Latejava, teimosa, e eu não podia fazer nada. Não podia me virar, não podia tocar em mim, não podia aliviar aquilo. Só podia ficar ali, deitado, lembrando. O corpo dele no corredor, a luz de lado, o membro grosso entre as pernas. O peito encostado nas minhas costas, os pelos roçando a pele, a respiração na nuca. A voz dele dizendo que eu era peludo que nem o pai. A mão no meu quadril, o botão da bermuda, o zíper descendo, a pausa. Aquele meio segundo em que os dedos ficaram parados.
O corpo respondia a cada lembrança, e eu não podia fazer nada. Fiquei assim, imóvel, os olhos fechados, a respiração que já não precisava ser fingida, mas que eu mantinha pesada por hábito, por medo de que ele voltasse, por medo de que ele estivesse do outro lado da porta. Aos poucos, o cansaço foi falando mais alto. O calor, o suor, a tensão de tantas horas, tudo foi pesando. A ereção ainda estava ali, mas o corpo começou a ceder, e eu senti o sono chegando de verdade, sem fingimento, puxando-me para baixo, para o travesseiro, para o escuro.
De tanto fingir que estava dormindo, acabei dormindo.