Na terça-feira, outro envelope branco sob a porta.
"Hoje, 22h. Venha mais cedo. Tragam só você. Assinado: Os vizinhos do 1502."
Dentro, um pedaço de tecido preto. Seda. Ele desdobrou, confuso. Era uma venda.
O coração disparou. Guardou a venda no bolso e passou o dia com a mão lá, tocando o tecido, imaginando.
Bateu na porta do 1502 às 21h. Dessa vez quem abriu foi ele, o marido. Vestia uma calça preta, torso nu. Os olhos escuros percorreram Lucas de cima a baixo.
"Entra."
Lucas entrou. A sala estava diferente. As velas acesas, mas também incensos. Música baixa, algo com tambores. Ela estava sentada no sofá, também seminua, só uma calcinha preta fina. Olhou para ele e sorriu.
"Tira a roupa", disse ele. "Tudo."
Lucas obedeceu. Dessa vez os dedos tremeram menos. Ficou nu no meio da sala, os braços ao lado do corpo, esperando.
Ela se levantou. Veio até ele, deu a volta, observando. Passou a unha nas costas dele, de leve, fazendo arrepiar.
"Mais lindo do que eu lembrava", murmurou.
O marido se aproximou também. Parou na frente de Lucas. Segurou o queixo dele, ergueu.
"Hoje você não vai falar", disse. "Não vai pedir. Não vai dizer não. Só vai obedecer. Entendeu?"
Lucas assentiu.
"Ajoelhado."
Ele ajoelhou. A cerâmica fria nos joelhos.
Ela veio com a venda preta nas mãos. Ajeitou no rosto dele, cobrindo os olhos. O mundo virou escuridão.
"Melhor assim", sussurrou ela. "Agora você só sente."
A primeira coisa que sentiu foi o cheiro. Os incensos, o perfume dela, o cheiro diferente dele. Depois o som: a respiração dos dois, os passos no piso, o rangido do sofá quando alguém sentou.
A mão dela tocou o ombro dele. Deslizou pelo braço, pegou a mão dele, levou a algum lugar. O pé dela. Ela colocou os dedos dele entre os dela, apertando de leve.
"Beija", disse ela.
Lucas inclinou-se, beijou o pé dela. Subiu beijando o tornozelo, a canela, o joelho. A pele macia, o cheiro doce. Quando chegou na coxa, a mão dela parou a cabeça dele.
"Aqui não. Ainda não."
Ele parou, ofegante. A escuridão ampliava tudo.
Ouviu o marido se levantar. Passos se afastando, depois voltando. Algo foi colocado no chão ao lado dele. Uma tigela? Sentiu o cheiro de uva.
"Abre a boca", disse o marido.
Obedeceu. Algo frio e doce entrou: uma uva. Ele mastigou, o suco escorrendo pelo queixo. Outra. Outra. Alimentado como um pássaro, de joelhos, vendado.
"Gostoso?", ela perguntou.
Ele assentiu, a boca cheia.
"Quer mais?"
Assentiu de novo.
"Então pede", disse ela. "Mas não pode falar."
Ele ficou confuso por um segundo. Depois sentiu a mão dela guiar a cabeça dele. Para frente. A perna dele. O marido. O volume nas calças. Entendeu.
Abriu a boca e procurou. Encontrou o zíper, o calor. Usou os dentes para puxar o tecido, ouvindo o riso baixo dela. As mãos dele, do marido, ajudaram, e então a pele quente estava na boca de Lucas.
Ele chupou devagar, enquanto a mão dela acariciava a nuca dele.
"Assim", ela sussurrou. "Perfeito."
O marido gemeu baixo, uma das mãos enroscada no cabelo de Lucas. Mas não durou muito. Depois de alguns minutos, puxou a cabeça dele para trás.
"Chega. Deita no chão. De bruços."
Lucas obedeceu. O piso frio contra o peito, o rosto virado para o lado. A venda ainda nos olhos. Ouviu os dois se movendo, cochichando.
De repente, as mãos deles. Ela ajoelhada ao lado dele, passando óleo nas costas dele. O marido nas pernas dele, fazendo o mesmo. O cheiro de amêndoas. As mãos quentes, firmes, espalhando o óleo, massageando devagar.
Ele gemeu, o rosto enterrado no chão.
"Silêncio", ela lembrou.
Ele mordeu o lábio. As mãos continuaram. Desceram pelas costas, pelas nádegas, abriram. O marido tocou onde ele nunca tinha sido tocado assim, um dedo lubrificado, pressionando de leve.
Lucas arfou contra o chão. O corpo tenso.
"Relaxa", a voz grave perto do ouvido. "Confia."
Ele tentou. Obedeceu. O dedo entrou, devagar, a dor e o prazer se misturando. Depois outro dedo. Ele apertou os olhos atrás da venda, as mãos crispadas no chão.
Ela se deitou ao lado dele, rosto perto do rosto dele. Passou a mão no cabelo dele, beijou a têmpora.
"Respira", murmurou. "Deixa ele cuidar de você."
Lucas respirou. O corpo foi cedendo, aceitando. Quando os dedos encontraram o lugar certo, ele gemeu alto, sem conseguir evitar. O marido riu baixo, satisfeito.
"Gostou?"
Ele não podia responder. Apenas gemeu de novo, empurrando para trás, pedindo mais.
O marido tirou os dedos. Lucas ouviu o barulho de um envelope sendo aberto, o som conhecido. Depois sentiu o marido por trás dele, o peso do corpo, o calor.
"Você quer?", ele perguntou.
Lucas não podia falar. Então empurrou o quadril para trás, oferecendo.
O marido entrou devagar. Muito devagar. Uma eternidade. Lucas apertou os dentes, as lágrimas escorrendo por baixo da venda. Dor e prazer num nó só.
Quando finalmente enterrou todo, parou. Deixou Lucas sentir. A mão do marido segurou o quadril dele, firme. A mão dela apertou a mão dele.
"Perfeito", ela sussurrou. "Olha pra você. Tão lindo assim."
O marido começou a se mover. Ritmo lento, profundo. A mão dela nunca soltou a mão dele. Ela beijava os dedos dele, os pulsos, enquanto ele era possuído por trás.
Lucas perdeu a noção do tempo. Existia só o ritmo, a mão dela, a respiração ofegante do marido, o próprio corpo entregue, aberto, submisso.
Quando o marido gozou, gemeu o nome dela, não o de Lucas. E isso foi estranhamente certo. Lucas era apenas o corpo, o recipiente, o espaço entre os dois.
O marido ficou dentro dele por um tempo, depois saiu, se afastou. Lucas ficou de bruços no chão, ofegante, sentindo o líquido escorrer pela coxa.
Ela se deitou ao lado dele. Abraçou ele por trás. Beijou as costas dele.
"Agora eu", sussurrou.
Lucas sentiu o corpo dela se encaixar atrás do dele, os seios nas costas, a mão dela passando pelo quadril, tocando ele, já dolorido, já sensível.
"De ladinho", ela disse. "Vem."
Ela guiou o corpo dele, deitou de lado atrás, a perna dela entre as pernas dele. A mão dela desceu, encontrou o lugar, deslizou para dentro dele com uma facilidade que fez ele gemer.
Ela era mais delicada que o marido. Mais lenta. Os dedos finos, precisos. Enquanto uma mão tocava ele por dentro, a outra envolveu o sexo dele, já latejando.
Ele gozou em segundos. O corpo inteiro sacudindo, o grito preso na garganta, as lágrimas quentes escorrendo. Ela não parou. Continuou tocando, estendendo o prazer, até ele implorar sem palavras, os quadris tentando fugir.
Aí ela parou. Tirou os dedos. Lambeu devagar, passando a língua nos dedos, enquanto ele tremia no chão.
Ficaram os três no silêncio. Depois de um tempo, ela tirou a venda dele. A luz das velas doeu nos olhos. Ele piscou, viu os dois sentados no sofá, olhando para ele.
Estavam nus também. Ela encaixada no colo dele, a cabeça no ombro dele. Os dois olhando para Lucas, estendido no chão, suado, molhado, marcado.
"Vem aqui", disse ele.
Lucas se levantou com dificuldade. As pernas bambas. Ficou na frente dos dois.
Ela estendeu a mão, puxou ele para perto. Fez ele sentar no chão, entre as pernas dela, as costas apoiadas no sofá. Ela passou os dedos no cabelo dele, sujos de óleo e lágrimas.
O marido se inclinou, beijou a testa dele.
"Toda quinta", disse. "Mas agora também terça."
Lucas riu fraco. A cabeça pesada.
"E os outros dias?", perguntou, a voz rouca.
Ela e o marido trocaram olhares. Sorriram.
"Os outros dias você sonha com a gente", ela disse. "E espera."
Lucas fechou os olhos. Sentiu a mão dela no cabelo, a perna dele encostada na perna dele. O cheiro dos três misturado.
Esperar, ele sabia, ia ser a parte mais difícil.
Continua…