Procurei pelo endereço, pois quando o carteiro tinha deixado aquilo na minha porta, ele já havia sumido. Ao menos o endereço era próximo, somente seguir uma estrada para o sul, em Tacoma. Coloquei tudo no carro e fui para lá. Ao chegar na residência, vi que era quase uma mansão. O tamanho da casa não era tão grande quanto eu poderia ter pensado, talvez pela área total do terreno, mas era uma casa aconchegante perto do mar. Tratei de buzinar para ver se alguém chegava, até que um homem alto e de cabelo louro bem curto, já com algumas rugas, mais alto do que eu em uns 10 centímetros, alguém perto dos 45 ou 50 anos de idade, veio me atender. Ele veio até mim e trocamos as informações necessárias. Havia mesmo ocorrido um engano. O endereço estava certo, mas ele, certamente pensando que eu era o entregador da loja, quis tirar satisfação comigo. Bastou mostrar o meu documento de professor que a confusão se encerrou sem maiores problemas.
E quem veio correndo até nós, aparecendo pela porta da frente, por entre alguns carros que estavam estacionados ali, como se houvesse uma festa? Provavelmente a filha dele. Havia alguma música tocando no fundo, mas nem queria saber daquele rock ruim do qual eu havia parado de escutar por completo faz uns bons anos. Não era música boa para mim. Havia terminado uma banda por causa de um baterista chato. Bola pra frente. Agora eu era mecânico, mas era diplomado em uma universidade e pude me livrar de um trabalho chato para fazer o que bem gostava. Automóveis, roupas e música eletrônica e investimentos. Nós três ali conversando sobre como devolver o pacote e pedir o dinheiro de volta. A garota, no entanto, que era na prática uma jovem mulher ali pelos seus 25 anos, fazia caras e bocas como que não se preocupava com nada. Reparei na roupa dela, um leve vestido azul claro, de cor similar à camiseta que eu usava, laços no cabelo que misturava castanho, ruivo e louro. Mais uma daquelas modinhas modernas. Um tênis all star branco e pronto. Era só isso mesmo. O corpo dela era magro, básico e normal como de toda outra garota nessa idade.
Eu nem queria estar ali, apenas passei as instruções e todos pareceram satisfeitos. Eu já havia sonhado com uma beldade como aquela, mas era melhor deixá-la para que outros machos sofredores que se encaixavam melhor do "papel padrão" de machão aproveitarem aquele corpinho enquanto não percebiam nada.
Entrei dentro do meu carro e decidi ir embora logo, havia um excelente pacote de doritos e uma latinha de sprite me esperando na minha garagem, ao lado de umas peças bem bacanas que eu instalaria naquele querido Civic. Reparei que ela ficou olhando para a traseira do meu carro. Querendo anotar a minha placa para quê, sua idiota? Mais uma psicopata? Cravei o pedal do freio e encarei de volta torcendo meu corpo para trás. É, no fim das contas, era apenas uma ilusão mesmo. Ela realmente estava lá plantada no meio da rua mas logo voltou para sua festinha. Boa sorte minha querida, encontre logo um jogador, soldado, engenheiro ou qualquer outro machola que tenha vontade de perder a paciência (e a carteira inteira, com cartões e valiosas criptomoedas) para você. Aproveite seu vestido de merda.
Naqueles tempos eu aprendi uma valiosa lição. Uma prostituta era sempre mais barato, mais seguro, mais discreto e moralmente gratificante. Eu falava abertamente isso para todos os meus colegas de pilotagem na noite, embora eu fosse o único virgem do grupo. Mas era um grupo que me respeitava e não colocava pressão em nada. Alguns de nós sofriam com namoradas chatas. Eu apenas colocava as gatinhas pagas para me masturbar e ponto. No fim das contas, eu via cada um deles ficando sem dinheiro por causa desses relacionamentos, ao ponto de eu ter me tornado o verdadeiro solitário do grupo. Só mais um imigrante marrom na multidão branca.
Mas... quem disse que aquela doidinha branca iria desistir de mim? Eu sabia muito bem como era a cabeça do estadense médio e eu não queria nem saber daquelas opiniões vazias e uma visão de mundo fechada. De fato, viviam numa bolha de riqueza e conforto que eu não almejava - à não ser que fosse a dos verdadeiros bilionários. Parecia tudo meio vulgar, mas era só porque eles não entendiam o que era a verdadeira riqueza. Minha cabeça estava a uns 10.000 quilômetros de distância. Após mais uma noite de intensas curvas, freadas e acelerações na escuridão, cheguei na minha pequena garagem (pois na prática mesmo, a minha casa era só um cômodo ao lado da garagem onde havia uma geladeira, um fogão e um banheiro no canto), tomei um banho e fui dormir. Aquele velho Civic coupe na cor "aqua" era minha única companhia, além do meu gato preto, o Jiro. Uma homenagem ao engenheiro do Zero japonês. Eu era um homem simples e feliz, aproveitando tudo somente para mim. Exceto pela manhã seguinte onde aquela queridinha ordinária veio encher o meu saco.
Acreditem, eu desejei nunca ter aberto a porta e ter ido de encontro a ela.