Joy Of Missing Out - 2

Enfim, aquela péssima manhã chegou para mim. Imagine só aquela cena, eu com meu pijama xadrez todo amassado, meu cabelo completamente despenteado e minha cara de morto.

- Algum problema com aquele pacote? - perguntei.
- Bom, eu pedi uma outra coisa, mas decidi ficar com o que havia nele. - ela respondeu.
- Ótimo.
- Pois é.
O sorriso cínico dela me dava nojo. E eu sorria amarelamente de volta.
- Quer eu eu ligue para a empresa que vendeu ou para a transportadora?
- Não. Já disse que estou satisfeita. Só acho que precisava agradecer você.
- Bom, essas empresas costumam cometer erros. Eu mesmo já aprendi a aceitar essas anomalias. Tenha um bom dia.
- Espera!
- O quê?
- Qual o seu nome?
- Não precisa saber.
- Como assim?
- Não precisa mesmo. Veja... você tem um namorado esperando por você naquele... Viper preto? É... é um excelente carro, apesar do comando ser no bloco.
Acenei para o rapaz de cabelo castanho que acenou de volta para mim. Ele não entendeu que era para ele levar ela embora. Me aproximei.
- Belo esportivo, mas a garotinha aqui já me xingou o suficiente por eu não ser um funcionário da empresa, então... desculpe pelo pacote.
O rapaz ficou em silêncio por uns instantes e me respondeu.
- Você é um maluco que fica acelerando na madrugada naquelas estradas das montanhas?
- Rapaz, eu tenho 30 anos e não tenho muita paciência com policial disfarçado. Eu só recebo minhas multas pelo correio. E se você for um desses...
A garota me interrompeu.
- Ei, não precisa falar assim! Só viemos aqui para agradecer.
- Bom, já agradeceram o suficiente. Eu ainda tenho que sentar no vaso e soltar um umas pelotas. A não ser que queiram fazer como os servos medievais e limpar a bunda deste rei que se apresenta para vocês hehehe.
Me curvei e fiz uma reverência. A cara de nojo dos dois foi nas alturas. Felizmente os dois sentiram o momento e foram logo embora. O Viper rosnando nas mãos daquele corajoso, sua lourinha do lado e eu ali todo feliz por ter despachado ela de uma vez por todas.
O pequeno Jiro veio até mim.
- É o tipo de mulher que eu jamais quero na minha vida. Nem mesmo ao lado do meu banco, Jiro. Já paguei várias prostitutas, acho que todo mundo sabe disso, nunca senti culpa e nunca foi segredo. Mas se aquela ali sente alguma coisa, é melhor tratar de deixá-la bem longe de mim.

E assim mais um dia tranquilo decorreu. Recebi a visita de um colega, o japonês Saito, uma das poucas pessoas que me entendiam perfeitamente, talvez por termos a mesma visão da cultura japonesa. Precisei instalar a suspensão ajustável no NSX dele. Na prática aquele carro também foi meu, mas como alguns idiotas ousaram tentar enrolar ele numa compra, acabei oferecendo o carro com um baita desconto. Eu sentia falta do NSX, mas tendo em vista que minha habilidade no volante e com as peças era bem valorizado, acabei trabalhando informalmente na minha própria casa como mecânico particular de algumas pessoas. A maioria delas eram os descendentes de asiáticos do leste (japoneses, coreanos, chineses...). Eu não era de me enturmar com as pessoas e todos na vizinhança me apelidavam maldosamente de psicopata, sem sequer saberem o que era realmente o comportamento de um psicopata.

Aquele serviço foi rápido, durou só uma tarde. Eu e ele decidimos sair para fazer um teste e topamos com um chato conhecido da região. Spencer McCurdy, outro louro branquelo, musculoso, só que mais baixo do que eu, com aquele comprido cabelo de surfista e que dizia preferir as mulheres italianas, brasileiras e belgas do que qualquer coisa viva na América inteira. Encontramos ele perto de um parque onde alguns malucos como eu se reuniam para correr. Desta vez ele trouxe uma BMW M3 tunada e um coleguinha preto mais alto do que eu. Eu estava no meio termo entre aqueles dois, mas como o pessoal costumava falar que ele cometia pequenos crimes, ou que era traficante, mas que ninguém nunca provava nada, achei melhor tomar um certo cuidado e já partirmos direto para o assunto. Eu havia derrotado um amigo dele numa corrida no final do inverno e aquele tal "amigo" não havia gostado do resultado. Resultado? Três perdedores que não aceitavam uma derrota. Clássico!

O NSX do Saito era automático e ele tinha menos experiência do que eu. Contudo, eu odiava dirigir carros automáticos, pois o esforço - apesar de ser menor para mim que acostumou a frear com o pé esquerdo - era muito maior para manter o carro numa faixa de potência e torque bons. Como eu já sabia o resultado de mais uma corrida excessivamente fácil - pois aquele idiota, na prática, deveria pesar uns 20 kg à menos e ser mais delicado e sensível nos controles - tive que colocar umas três curvas de vantagem como condição. O Saito implorou para não arrebentarmos o carro num barranco, mas ele confiava em mim. Havia uma parte e mim que começou a odiar pessoas brancas e pretas, talvez pelo fato de eu ser só mais um "marrom", miscigenado sem alma, para eles na América.

Achamos melhor não levantar suspeitas pra cima do McCurdy e do amiguinho dele. Nem queria saber do nome dele, apenas ficou me encarando como se fosse me encher de socos se eu ao menos respirasse. Adoro esse cheiro de masculinidade frágil, é o tipo de psicopatia que a sociedade inteira normaliza e pratica. Mas quando um antissocial como eu decide revidar, aí sim as coisas ficam mais divertidas para o meu lado, e mais amarga para o deles. Eu nunca briguei o suficiente na escola, mas agora que havia a vida adulta e as chances de derrotar gente nojenta apareciam, eu não perdia tempo.

Partimos para a corrida, de qualquer forma. Nada muito emocionante. Apesar do McCurdy ser bom nas curvas, ele não entendia como funcionava aquele motor europeu. A reação do carro era ruim, ele precisava dar uma balançada ao entrar na curva. Somente isso, e a carroceria coupe entrava em harmonia com a suspensão, as rodas e os pneus. Ele chegou a fazer isso umas poucas vezes. O NSX acompanhava sem muito esforço. Guardei todo o potencial para ultrapassá-lo no momento em que quase batemos numa minivan, na qual uma família estava viajando. Ali o McCurdy deve ter revirado o estômago inteiro. Ele perdeu o foco e começou a fazer uma série de erros básicos. Decidimos sumir do parabrisa dele e fomos direto para a minha casa. Não valia a pena competir com rivais que não tinham capacidade de entender a dinâmica de uma competição complexa e delicada, como é o automobilismo. Menos ainda apanhar nas mãos deles ou levar um tiro de graça. Infelizmente alguns homens faziam um esforço enorme para serem escravos de algum modelo de masculinidade que nem era elaborado por eles mesmos.

- Dessa vez foi por pouco. - disse Saito.
- Vamos parar de correr por um tempo? - sugeri.
- Talvez seja melhor.
- E depois eu é que sou o psicopata hehehe! Eu sou um incel, mas felizmente isso me tira de problemas inúteis e inventados. Na prática, não é um problema. É uma maravilha poder dar risada de todas essas pessoas se esforçando demais.
- Concordo em partes, mas fica esperto.
- Pode deixar comigo. Ele já sabe que perdeu, mas felizmente não foi num horário em que haviam outras pessoas naquela estrada. Eu posso falar que perdi e aí ao menos ele fica na ilusão da felicidade.
- Mas, cara, esse NSX tem uma mágica que só você sabe fazer! O que você fez nele?
- Segredos de mecânico. Mas eu sugiro trocar esse câmbio por um manual de 6 marchas.
- Certo. Um dia. Nem hoje, nem amanhã. Apenas, um dia.
- Vai pela sombra.
- Até logo.

Saito foi embora. Ao menos o McCurdy não iria perseguir ele. Eu no meu Civic era praticamente impossível para aquela M3 tentar me seguir. O Civic era um jato, a M3 era um foguete que precisava de muito mais do que um bodykit e um motor potente. O final da tarde e a noite seguiram na tranquilidade. Como eu não assistia TV, ficava surfando pela internet, me entretendo com alguns velhos jogos online e... descobrindo que aquela maluquinha havia encontrado o meu e-mail. Era oficial, eu tinha uma stalker enchendo o meu saco, e com a normalização dessa merda pela família e amigos dela. Ela desistiu de tentar me encontrar pessoalmente, mas ao menos ela era sincera por carta. Abri um e-mail e comecei a ler. Ela escrevia com educação, mas havia uma enorme falsidade nas palavras dela. Tratei de responder da forma mais direta possível.

"Você já tem namorados o suficiente para te satisfazer na cama."
"Não perca seu tempo comigo, pois eu nunca vou te amar e já decidi não me casar ou sequer ter filhos."
"Pago prostitutas, mas não ando com você."
"Não me identifico com pessoas brancas e pretas, é uma diferença cognitiva e cultural muito profunda."

Pronto. Aquilo era o suficiente. Claro que houveram mais uma dúzia de palavras, mas fiz o que tinha que ser feito. E ela me respondeu na noite e só fui ver isso pela manhã seguinte. Eu nem abri o e-mail dela. Apenas vi que ela havia me respondido, mas minha resposta era unânime. Jamais serviríamos um para o outro, e isso era muito bom. Ela sabia que eu era um virgem que não tinha vontade de fazer sexo com ela. De alguma forma, de uma forma bem absurda e anormal até mesmo para a mais racional das mulheres, ela sentia alguma loucura por mim.

Eu não era o Cristiano Ronaldo, nem Lionel Messi, nem Max Verstappen, nem Lewis Hamilton, nem Drake, nem Snoop Dogg. Felizmente eu era somente um incel anônimo curtindo minha vida solitária e sem ninguém me perseguir. Haviam outros homens melhores e com mais tempo para esse tipo de relacionamento para ela. O que é curioso, pois, pelo padrão de beleza dela, ela deveria procurar caras mais atraentes e ricos. Cabelos castanhos, pele clara, olhos verdes num Viper conversível não eram suficientes para ela? Que tipo de stalker retardada ela era?


Faca o seu login para poder votar neste conto.


Faca o seu login para poder recomendar esse conto para seus amigos.


Faca o seu login para adicionar esse conto como seu favorito.


Twitter Facebook



Atenção! Faca o seu login para poder comentar este conto.


Contos enviados pelo mesmo autor


260211 - Joy Of Missing Out - 1 - Categoria: Heterosexual - Votos: 0

Ficha do conto

Foto Perfil virgem-solitario
virgem-solitario

Nome do conto:
Joy Of Missing Out - 2

Codigo do conto:
260214

Categoria:
Heterosexual

Data da Publicação:
24/04/2026

Quant.de Votos:
0

Quant.de Fotos:
0