Maria Laura — A primeira vez que te vi (2/3)

— Quanto ao fazer-te corar, estás sempre muito composta e sem sinal de ruborização.

— Não! Quase me fizeste corar! Senti o calorzinho a subir!

— Ah! Então é só uma questão de tentar com mais afinco. Há sempre a hipótese de te contar sobre a primeira vez que te vi...

Tinha acabado de sofrer a ira de Zeus, eram 14h32, molhado até ao tutano por, aparentemente, ter ousado sair de casa sem um guarda-chuva num dia de dezembro, quando fica de noite a meio da tarde, em que cântaros houvessem, cântaros choviam.

Um daqueles momentos em que só damos valor ao que temos, depois de já não termos, no meu caso, roupa seca.

Ali estava eu, na ombreira de uma porta, na ilusão de ainda ter algo vestido por molhar, até que passas tu com um mackintosh clássico, beje, 2 cm de vestido florido, vermelho e branco, a desafiar o dia de chuva por baixo da gabardine, um palmo de pernas desnudas até ao cano das botas e, claro, um guarda-chuva a condizer com o vestido.

Era o guarda-chuva mais incrível de sempre, fiquei pasmado com, imagine-se, manter-te a salvo da chuva. Sem collants! Não esquecer: S-E-M collants, a ousadia.

A minha ausência de reacção, entre o estar ensopado e o que me tinha acabado de atravessar os olhos, o inverso da nuvem que nos segue e só chove em cima de nós: era uma aberta nas nuvens que fazia com que não chovesse em cima de ti.

E ia-se afastando, afastando, os 2 cm de vestido florido, vermelho e branco e o palmo de pernas desnudas, cada vez mais longe, até ser só um ponto vermelho no horizonte.

Consegui ainda reter, enquanto te afastavas, o teu cabelo impecavelmente penteado, com uma trança e um travessão.

Quando percebi que já não te via, corri pela chuva, a pensar: porque raio não fui atrás de ti quando tive hipótese?!

Era demasiado tarde, eram 14h35.

Mal dormi, entre os pés frios e a visão de ti que teimava em afastar-se, afastar-se, afastar-se.

Dia seguinte, 14h30. Não chove, mas mesmo que chovesse, estava prevenido: tinha guarda-chuva.

Olho para o horizonte na direcção de onde tinhas vindo no dia anterior. Fixamente. Acredito em padrões, não acredito nos signos, nos astros ou nos búzios, mas acredito em padrões.

14h32: nada de mackintosh clássico, beje, nada de 2 cm de vestido vermelho e branco, a espreitar por baixo da gabardine, nada de um palmo de pernas desnudas até ao cano das botas, nada de guarda-chuva.

Foda-se.

14h33: passas por mim, vieste da direcção oposta à do dia anterior.

Foda-se!

Estou petrificado, és mesmo tu, sem mackintosh, mas com casaco comprido, de lã, sem 2cm de vestido vermelho e branco a espreitar por baixo, sem botas de cano alto mas com salto alto. O cabelo continuava impecavelmente penteado, sem trança mas com travessão.

Em vez do chapéu de chuva a ocupar-te a mão, tinhas uma mala, onde estava atado um lenço amarelo e preto que esvoaçava, esvoçava.

E esvoaçou-se. Estava pelo ar, tu não reparaste, reparei eu, foi o que me fez acordar naquele momento.

Tu ias para um lado, o lenço para o lado oposto: perder-te a ti ou perderes o lenço?

Olhei para ti, olhei para o lenço, olhei para ti, tinhas desaparecido, olhei para o lenço, ainda estava a esvoaçar, corri atrás dele.

14h38: Apanhei o lenço. Fugiste-me de novo.

Foda-se.

Passei essa noite ligeiramente melhor. Já não tinha frio e tinha o teu lenço, que não era só o teu lenço. Era o teu cheiro.

Respirei fundo, várias vezes.

Mais um dia, 14h30, só falta passares tu, os padrões repetem-se, têm de se repetir.

14h35: estás atrasada.

14h40: aconteceu-te alguma coisa...

14h45: claro, foste com o teu marido comprar outro lenço, até tinha sido ele a oferecer-to e fez questão de te dar outro, sabia como tu gostavas dele.

14h50: os padrões, afinal, não se repetem.

Baixo a cabeça e digo para mim próprio: casos da vida.

Sinto um leve puxão ... é a dona do lenço. Está de vestido e saltos altos.

— Obrigado! Pensei que nunca mais o via! Só quando cheguei a casa dei por falta dele.

Que alivio, era o reencontro, o lenço e a dona do lenço; o molhado até ao tutano e a aberta nas nuvens.

— Obrigado! Obrigado! Gosto mesmo dele, era da minha mãe, estava destroçada por achar que nunca mais o ia ver. Passei aqui por descarga de consciência, alguém o podia ter encontrado e deixado numa loja.

Foda-se, os padrões são mesmo incríveis, repetem-se!

Olho para o cinema do outro lado da rua: Breakfast at Tiffany's.

— Podemos ir tomar o pequeno almoço? – Aposto que achavas que te ia perguntar se querias jantar, confessa!

Quase coraste.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
Maria Laura — A primeira vez que te vi (2/3)

Codigo do conto:
262022

Categoria:
Fantasias

Data da Publicação:
14/05/2026

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1

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