Naquela quinta-feira, escolhi uma calça social que valorizava bastante minha bunda. Eu sabia disso. Daniel também sabia. Quando estava terminando de me arrumar, ele apareceu atrás de mim.
— Essa calça é nova?
Olhei meu reflexo no espelho.
— Não. Por quê?
— Está bonita.
Ele segurou minha cintura e me deu um beijo.
— Muito bonita.
Sorri para ele pelo espelho.
— Gostou?
— Bastante.
Saí de casa levando aquele elogio comigo. Mas não era Daniel que eu queria impressionar. Essa constatação deveria ter pesado na minha consciência. Não pesou. Quando cheguei ao escritório, fiz questão de passar pela mesa de Rafael. Nem olhei para ele. Continuei andando. Cheguei à minha mesa, liguei o computador e esperei. Não demorou nem dois minutos para o celular vibrar.
“Você está fazendo isso de propósito.”
Olhei para a mensagem e sorri.
“Fazendo o quê?”
“Mara.”
“Trabalhe, Rafael.”
“Com você desfilando assim?”
Olhei discretamente na direção dele. Rafael estava me encarando. Cruzei as pernas e voltei para o computador como se nada estivesse acontecendo. Foi quando percebi que alguma coisa havia mudado. Antes, era Rafael quem me provocava. Agora eu estava aprendendo a brincar com ele. E gostava muito disso. No almoço, ele se sentou na minha frente.
— Você está diferente.
— Estou igual.
— Não está.
Apoiei o queixo na mão.
— Diferente como?
— Mais perigosa.
Ri.
— Você gosta muito dessa palavra.
— Porque combina com você.
— Daniel não acha.
Pronunciei o nome do meu marido deliberadamente. Vi a reação de Rafael. Aquilo me deu um pequeno prazer.
— Você gosta de falar dele comigo — disse Rafael.
Fingi surpresa.
— Do meu marido?
— Exatamente.
— Talvez eu esteja apenas lembrando você de que sou casada.
Ele olhou para minha aliança.
— Acho que você está lembrando a si mesma.
Fiquei calada. Ele tinha acertado. Mas não completamente. Eu não estava me lembrando para conseguir parar. Estava me lembrando porque aquilo fazia parte da graça. Depois da primeira traição, passei a olhar para minha aliança de outra maneira. Antes, ela significava simplesmente que eu era casada com Daniel. Agora significava outra coisa também. Significava que eu tinha um segredo. Naquela tarde, Rafael mandou outra mensagem.
“Hoje?”
Apenas isso. Eu sabia perfeitamente o que ele queria dizer. Ir para o apartamento dele. Olhei para minha aliança. Depois respondi:
“Não posso.”
Ele demorou alguns segundos.
“Por quê?”
Sorri antes de escrever:
“Meu marido vai me buscar.”
Eu esperava que aquilo encerrasse a conversa. Em vez disso:
“Amanhã.”
Mordi o lábio.
“Talvez.”
Era mentira. Nós dois sabíamos que significava sim. Na sexta-feira, fui pela segunda vez ao apartamento de Rafael. Dessa vez, não precisei de uma hora de conversa sobre responsabilidade, casamento ou arrependimento. Não precisava mais fingir para Rafael. Muito menos para mim. Assim que a porta do apartamento se fechou atrás de nós, olhei para ele e disse:
— Tenho pouco tempo.
Rafael riu.
— Boa noite para você também.
— Estou falando sério. Daniel acha que vou sair mais tarde do trabalho.
Ouvi meu próprio tom. Natural. Prático. Como se estivesse organizando uma reunião. Rafael percebeu também.
— Você ficou boa nisso rápido.
— Em quê?
Eu sabia perfeitamente a resposta.
— Em mentir.
Aquilo deveria ter me ofendido. Não ofendeu. Senti foi aquele calor conhecido subindo pelo meu corpo. Baixei os olhos por um instante e encontrei minha aliança brilhando sob a luz fraca do apartamento dele. Daniel confiava em mim. Estava em casa me esperando. E eu tinha acabado de usar o trabalho como desculpa para estar no apartamento de outro homem. A mentira não estava pesando na minha consciência como deveria. Estava me excitando. Joguei a bolsa sobre o aparador da entrada e me aproximei de Rafael.
Dessa vez, eu não era a mesma mulher hesitante do nosso primeiro beijo. Coloquei as mãos sobre o peito dele e senti seu coração acelerado por baixo da camiseta.
— Então não me faça perder tempo.
E o beijei. Não houve hesitação. Nossas bocas se encontraram com força, e minhas mãos logo desceram até o cinto dele. Abri a fivela depressa enquanto Rafael me segurava pela cintura e me puxava contra seu corpo. Ele tentou me virar contra a parede. Não deixei. Empurrei-o para trás, ainda beijando sua boca, até suas costas encontrarem a porta do quarto. Eu estava gostando daquela sensação. Na primeira vez, Rafael havia conduzido quase tudo. Agora eu queria mostrar que sabia perfeitamente por que estava ali.
Ajoelhei-me diante dele e puxei sua calça e a boxer para baixo. O pau dele saltou duro diante do meu rosto. Parei. Não porque estivesse insegura. Porque olhei para minha própria mão. Segurei a base do pau de Rafael com a esquerda. Minha aliança de ouro estava ali. O anel que Daniel havia colocado no meu dedo agora brilhava enquanto aquela mesma mão segurava o pau de outro homem. Aquilo mexeu comigo de uma maneira que eu ainda estava aprendendo a entender. Minha buceta já estava molhada dentro da calcinha.
Levei a boca à cabeça do pau e passei a língua pela glande antes de envolvê-la com os lábios. Desci devagar, sentindo-o preencher minha boca até tocar o fundo da garganta. Rafael gemeu e agarrou meus cabelos. Continuei. Minha cabeça ia e voltava enquanto a saliva escorria pelo canto da minha boca. Minha mão esquerda acompanhava o movimento, subindo e descendo pela base. E eu continuava vendo a aliança. Aquilo estava começando a se tornar uma obsessão. Não queria tirar o anel. Muito pelo contrário.
Queria vê-lo. Queria aquela lembrança permanente de que eu era casada. Aumentei o ritmo, usando a língua e a boca enquanto minha outra mão descia entre as pernas dele. Rafael começou a respirar mais pesado, os dedos apertando meus cabelos. Quando percebi que ele estava perto de gozar, parei. Soltei o pau da boca e levantei. Rafael me olhou, surpreso. Sorri. Eu estava começando a gostar de controlar aquilo também. Levantei a saia e afastei minha calcinha para o lado. O tecido já estava encharcado, grudado na minha buceta.
Rafael segurou meus quadris. Passei as pernas ao redor da cintura dele e usei uma das mãos para guiar seu pau até minha entrada. Então desci sobre ele. Gemi quando senti sua cabeça me abrindo. Continuei descendo devagar, sentindo minha buceta se alargar ao redor daquele pau grosso até recebê-lo por inteiro. Fiquei imóvel por um segundo. Cheia. Ofegante. E casada. Essa última palavra surgiu na minha cabeça quase como uma provocação.
Casada.
Comecei a cavalgar Rafael. Primeiro devagar. Depois mais forte. Subia e descia sobre o pau dele enquanto Rafael apertava meus quadris, ajudando a impulsionar meu corpo. O som da nossa pele batendo começou a preencher o apartamento dele. Olhei novamente para minha mão apoiada no ombro dele. A aliança brilhava a poucos centímetros do rosto de Rafael. Aquilo me deixou ainda mais safada. Aumentei o ritmo.
— Me fode — sussurrei no ouvido dele.
Rafael apertou minha bunda. E então eu disse algo que nem tinha planejado:
— Me fode como meu marido não faz.
Assim que as palavras saíram da minha boca, senti outro arrepio. Eu tinha acabado de mencionar Daniel enquanto estava com outro homem dentro de mim. E adorei. Olhei para baixo, vendo o pau de Rafael desaparecer repetidamente dentro da minha buceta molhada. Depois olhei novamente para a aliança. Daniel estava presente naquela cena sem sequer saber. Era isso. Era aquilo que estava começando a me deixar louca. Não precisava esquecer que tinha marido para conseguir trair. Eu queria lembrar. Queria pensar nele.
Queria saber que ele confiava em mim enquanto eu cavalgava outro homem. Meu prazer cresceu depressa. Cravei as unhas nos ombros de Rafael e continuei rebolando sobre ele até sentir minha buceta começar a se contrair.
— Rafael...
Gozei apertando o pau dele dentro de mim. Meu corpo tremeu, e minhas pernas se fecharam com mais força ao redor de sua cintura. Rafael gemeu logo depois. Senti quando ele gozou dentro de mim. Por alguns segundos, ficamos imóveis, apenas tentando recuperar o fôlego. Então desci. Minhas pernas tremiam quando tocaram o chão. Senti a porra dele começar a escorrer da minha buceta pela parte interna da coxa. Olhei para Rafael. Depois para minha aliança. E ri baixinho. A situação inteira era absurda. Eu deveria estar em casa.
Daniel achava que eu estava trabalhando. Em vez disso, eu estava no apartamento de Rafael, com a roupa desarrumada, a buceta cheia da porra de outro homem e a aliança de casamento ainda brilhando no meu dedo. Fui até o banheiro dele. Quando acendi a luz e me vi no espelho, quase não reconheci a mulher refletida ali. Meu cabelo estava completamente bagunçado, algumas mechas grudadas na testa. O batom havia borrado ao redor da boca. Minhas bochechas estavam vermelhas e eu ainda respirava mais rápido do que o normal.
Olhei para mim mesma durante alguns segundos. Depois comecei a sorrir. Aquela era Mara. A esposa de Daniel. A mulher responsável. A funcionária comportada. E também era a mulher que tinha acabado de inventar uma desculpa para o marido e correr para o apartamento de Rafael para dar para ele. Ajeitei a calcinha. Baixei a saia. Peguei um pouco de papel e limpei o batom borrado antes de reaplicá-lo cuidadosamente. Passei os dedos pelos cabelos, tentando recuperar minha aparência habitual. Era quase engraçado.
Eu estava reconstruindo a esposa perfeita diante do espelho do banheiro do meu amante. Por último, ergui a mão esquerda. A aliança continuava exatamente no mesmo lugar. Girei-a lentamente no dedo.
— Esposa exemplar — murmurei.
E ri. Foi provavelmente a primeira vez que fiz uma piada comigo mesma sobre minha infidelidade. Parece pequeno. Não foi. Eu estava deixando de encarar aquilo como um erro. Estava começando a transformar aquilo em parte de mim. Naquela noite, Daniel me buscou. Entrei no carro e ele me beijou.
— Cansada?
— Muito.
Outra mentira. Eu estava elétrica.
— Quer jantar fora?
Olhei para ele. Meu marido. Carinhoso. Atencioso. Completamente alheio ao que eu tinha feito pouco antes no apartamento de Rafael.
— Quero.
Durante o jantar, Daniel contou sobre o dia dele. Eu escutava, conversava, sorria. Mas, de vez em quando, olhava para minha própria mão sobre a mesa. Para a aliança. E lembrava que Rafael também a tinha visto. Aquilo me provocava uma sensação difícil de explicar. Eu tinha duas versões de mim mesma começando a coexistir. Para Daniel, continuava sendo Mara, sua esposa. Para Rafael, eu estava me tornando outra Mara. Mais atrevida. Mais provocadora. Mais safada. E comecei a gostar muito mais da segunda.
Nas semanas seguintes, as visitas ao apartamento de Rafael ficaram frequentes. Não havia calendário. Havia oportunidades. Uma reunião que terminava tarde. Um almoço prolongado. Uma desculpa conveniente. Uma mensagem curta.
“Pode hoje?”
E eu comecei a ficar criativa.
“Daniel vai jogar futebol.”
“Tenho uma hora.”
“Hoje não. Amanhã consigo.”
O apartamento dele virou nosso lugar. Eu já conhecia o caminho sem precisar pensar. Sabia onde Rafael guardava as bebidas, qual janela emperrava, onde ficava o banheiro e até qual parte do sofá rangia quando alguém se mexia. Aquilo também me perturbava um pouco. Não era mais um lugar desconhecido onde eu tinha cometido um erro. Estava se tornando familiar. Até que, certa tarde, Rafael respondeu:
“Você organiza isso assustadoramente bem.”
Minha resposta veio quase automática:
“Tenho talento.”
Fiquei olhando para aquelas duas palavras depois de enviá-las. Não reconheci a mulher que havia escrito aquilo. Mas gostei dela. Também comecei a provocar Rafael mais abertamente. Às vezes passava perto dele apenas para perceber seu olhar. Passei a escolher determinadas roupas sabendo exatamente o efeito que causariam. Uma manhã, ele me encontrou sozinha na copa. Olhou para mim. Depois para minha roupa.
— Isso deveria ser proibido.
— O quê?
— Você sabe muito bem.
Virei de costas para pegar uma xícara no armário. Demorei deliberadamente.
— Não faço ideia.
— Mara...
Olhei por cima do ombro.
— Algum problema?
Ele balançou a cabeça.
— Você virou uma provocadora.
Sorri.
— Talvez você seja facilmente provocado.
Saí da copa satisfeita comigo mesma. Essa era a mudança. Na primeira vez, Rafael tinha me escolhido. Agora eu gostava de sentir que era eu quem controlava o jogo. E comecei a testar limites. Durante nossos encontros no apartamento dele, eu falava mais. Provocava mais. E, principalmente, comecei a fazer questão de lembrar Rafael de que, quando tudo terminasse, eu sairia por aquela porta e voltaria para casa. Para Daniel. Na terceira vez, nem esperei Rafael tomar a iniciativa. Fui eu quem ligou. Fui eu quem disse:
— Hoje.
Rafael já tinha me dado uma cópia da chave do apartamento. Aquilo, por si só, deveria ter me feito perceber o quanto as coisas estavam avançando. Não percebi. Ou preferi não perceber. Cheguei antes dele, abri a porta com minha própria chave e entrei. A primeira vez que ouvi a fechadura se fechar atrás de mim sem Rafael ali teve um efeito estranho. Eu estava entrando sozinha no apartamento do meu amante. E tinha uma chave. Sorri só de pensar nisso. Esperei por ele. E fiz questão de preparar a surpresa.
Quando ouvi outra chave girando na fechadura, meu coração acelerou. Rafael mal teve tempo de atravessar a porta antes que eu o agarrasse pela camisa e o empurrasse contra o batente.
— Surpresa.
Ele riu contra minha boca.
— Você mudou.
Olhei para ele.
— Aprendi.
E tinha aprendido mesmo. Na primeira vez, eu ainda precisava que Rafael desse o primeiro passo. Precisava fingir que estava sendo levada pelas circunstâncias. Agora não. Eu marcava o encontro. Eu usava minha chave. Eu aparecia. Eu provocava. E estava começando a gostar de ser a mulher que decidia quando aquilo aconteceria. Na quarta vez, o apartamento dele já tinha virado o cenário do nosso jogo. Enquanto estávamos juntos, eu fazia questão de olhar para o relógio.
— Daniel me espera às oito.
Rafael fechava a expressão. Eu adorava. Não porque quisesse ir embora. Mas porque tinha descoberto que mencionar meu marido provocava Rafael quase tanto quanto me provocava. Ergui a mão esquerda entre nós e passei lentamente a língua pela aliança, sem desviar os olhos dele.
— Lembra que eu volto para a cama dele hoje?
A mão de Rafael apertou minha cintura.
— Cala a boca.
Sorri.
— Não.
Aquilo estava se tornando uma das minhas brincadeiras favoritas. Eu gostava de provocar Rafael com Daniel. Gostava de provocar a mim mesma com Daniel. E, principalmente, gostava daquela pequena disputa silenciosa que surgia toda vez que Rafael olhava para minha aliança e lembrava que, por mais que tivesse meu corpo naquele momento, depois eu simplesmente vestiria minha roupa, atravessaria a porta do apartamento dele e voltaria para meu marido. Quando terminamos, comecei a me vestir com toda a calma.
Rafael permaneceu no sofá, ainda recuperando o fôlego.
— Você faz isso de propósito.
Olhei para ele enquanto ajeitava a roupa.
— Claro que faço.
Girei a aliança no dedo. Peguei minha bolsa e caminhei até a porta. Já estava saindo quando ouvi sua voz atrás de mim:
— Por que você faz tanta questão de dizer que volta para ele?
Minha mão ficou alguns segundos sobre a maçaneta. Eu poderia ter respondido. Não respondi. Porque, naquele momento, eu ainda não sabia explicar. Só sabia que gostava. Algum tempo depois, no mesmo apartamento, Rafael voltou ao assunto. Estávamos sentados no sofá quando ele perguntou:
— Você sente culpa?
Olhei para ele.
— Às vezes.
A resposta saiu depressa demais. Talvez porque fosse a resposta que eu achava que deveria dar. Rafael continuou me encarando. E eu soube que ele também tinha percebido. Era mentira. Ou, pelo menos, estava deixando de ser verdade.
— E por que continua?
Pensei antes de responder.
— Porque gosto.
Foi a primeira vez que disse aquilo em voz alta. Rafael ficou me olhando. Eu continuei:
— E acho que gosto mais do que deveria.
— De mim?
Sorri.
— Não fique convencido.
— Então de quê?
Olhei para minha aliança. Passei o polegar sobre ela.
— Disso tudo.
— Isso tudo o quê?
Olhei ao redor. Para o sofá. Para minha bolsa jogada sobre o aparador. Para a porta pela qual eu entrava escondida e depois saía para voltar ao meu casamento.
— Ter um segredo.
Rafael não respondeu.
— Daniel confia muito em mim — continuei.
Dizer aquilo deveria ter provocado vergonha. Em vez disso, senti aquela conhecida descarga de adrenalina.
— E você gosta disso? — perguntou Rafael.
Olhei diretamente para ele.
— Estou começando a gostar.
A resposta me surpreendeu pela facilidade com que saiu. Depois disso, comecei a experimentar uma coisa nova. Mentir para Daniel enquanto Rafael estava perto. No começo, eram situações inocentes. Daniel ligava quando eu estava tomando café com Rafael no trabalho. Eu atendia normalmente.
— Oi, amor.
Rafael permanecia sentado diante de mim.
— Está trabalhando?
Olhei para Rafael. Ele sorriu.
— Estou.
Meu coração acelerou.
— Vai demorar?
— Um pouco.
— Tudo bem. Te espero em casa.
— Tá bom. Beijo.
— Te amo.
Hesitei por uma fração de segundo.
— Também te amo.
Desliguei. Rafael estava me encarando.
— O quê? — perguntei.
— Você mente muito bem.
Peguei minha xícara.
— Estou praticando.
Ele riu. Eu também. E aquilo deveria ter sido assustador. Mas não foi. Alguns dias depois, eu estava novamente no apartamento de Rafael quando meu celular começou a tocar. Olhei para a tela.
Daniel.
Rafael também viu.
— Não atende.
Olhei para ele. Depois para o telefone. Foi aí que uma ideia atravessou minha cabeça. Uma ideia pequena. Safada. Perigosa. Sorri.
— Por que não?
Atendi.
— Oi, amor.
Rafael ficou imóvel, observando.
— Onde você está? — perguntou Daniel.
Olhei ao redor do apartamento de Rafael antes de responder.
— Ainda no trabalho.
Rafael levou a mão à boca para não rir. Meu coração parecia querer sair do peito.
— Achei que já tivesse terminado.
— Surgiu uma coisa de última hora.
Enquanto conversava, percebi que não estava nervosa como antes. Estava gostando. Gostando demais. Rafael se aproximou por trás. As mãos dele fecharam na minha cintura. Desceram.
— ...e o jantar?
— Já comi alguma coisa aqui.
Menti com a boca aberta, o hálito preso, enquanto os dedos dele subiam pela minha coxa. Menti melhor quanto mais ele tocava.
— Você tá bem? — Daniel perguntou. — Tá estranha.
— Cansada. Só isso. Muito trabalho.
Rafael mordeu meu ombro. Mordi o lábio para não soltar o ar. A boca dele encostou no meu ouvido.
— Diz que me ama.
Disfarcei a risada num pigarro.
— Te amo, amor. Mas tenho que terminar isso aqui.
— Tudo bem — disse Daniel. — Não demora.
— Pode deixar.
— Te amo.
Olhei para minha aliança. Depois para Rafael.
— Também te amo.
Desliguei. Durante alguns segundos, ninguém disse nada. Então Rafael soltou:
— Você é completamente maluca.
Comecei a rir.
— Você deveria ter visto sua cara.
— Ele podia perceber.
Olhei para o telefone ainda na minha mão.
— Mas não percebeu.
Essas quatro palavras ficaram comigo.
Mas não percebeu.
Ali estava uma sensação nova. Não era apenas conseguir esconder. Era estar no apartamento de Rafael, dizer a Daniel que continuava no escritório e chegar perto o suficiente do limite para sentir o perigo. E escapar. Eu estava começando a descobrir o prazer do risco. E aquilo me deixou ainda mais ousada. Naquela noite, quando cheguei em casa, Daniel estava no sofá.
— Finalmente.
Sentei ao lado dele.
— Sentiu saudade?
— Sempre.
Ele me puxou para perto e me beijou. Olhei para minha mão apoiada no peito dele. Minha aliança brilhava. A mesma aliança. O mesmo marido. Mas Mara já não era exatamente a mesma mulher. Eu ainda não sabia, mas Rafael estava deixando de ser o destino daquela transformação. Ele era apenas o começo. Eu estava aprendendo que gostava de provocar. Gostava de esconder. Gostava de mentir. Gostava de entrar escondida no apartamento de Rafael e depois voltar para casa como se nada tivesse acontecido. Gostava do perigo de quase ser descoberta.
E, acima de tudo, gostava daquela pequena aliança dourada no meu dedo me lembrando, a cada nova mentira, exatamente quem eu deveria ser. Talvez essa fosse a parte mais safada de todas. Eu sabia perfeitamente quem deveria ser. Só estava descobrindo o quanto gostava de não ser.