Corri para abraçá-lo
Beijei seu rosto
— Finalmente
— Sentiu saudade?
— Muita
E eu não estava mentindo
Naquela noite, matamos a saudade física
Foi diferente
Não porque André tivesse mudado
Era eu
Durante o beijo, enquanto suas mãos percorriam meu corpo, pensei naquelas últimas semanas
Na mulher que eu tinha descoberto sozinha
Nas pequenas provocações
Nos olhares
Naquela sensação nova de saber que ainda podia despertar alguma coisa em alguém
E então aconteceu
Uma imagem atravessou minha cabeça
Rápida
Quase involuntária
Não era Daniel
Não era nenhum dos homens que eu tinha observado na rua
Era outra pessoa
Alguém que eu conhecia
Alguém cujo rosto apareceu na minha imaginação com uma facilidade que me assustou
Por um instante, tentei afastar o pensamento
Não consegui
Fechei os olhos
André continuava ali
Mas, dentro da minha cabeça, havia outra presença.
Eu sabia quem era
E foi justamente isso que tornou tudo diferente
Não era uma fantasia sobre um desconhecido
Não pensei no nome
Não deixei que minha mente chegasse até ele
Mas reconheci aquela sensação imediatamente
Meu corpo respondeu antes que eu pudesse decidir se queria ou não
Depois, fiquei alguns segundos em silêncio, deitada ao lado de André
Ele parecia satisfeito, tranquilo, completamente alheio ao que tinha acabado de acontecer dentro da minha cabeça
— Está tudo bem? — perguntou
— Está
Ele me puxou para perto
Eu sorri
Mas fiquei olhando para o teto
Aquela pessoa não tinha aparecido por acaso
Talvez eu tivesse apenas encontrado uma desculpa para permitir que aquela lembrança voltasse.
E pensando quem mais poderia aparecer
Só ele? Outro?
Nos dias seguintes, tentei não pensar nisso
Funcionou por aproximadamente dois dias
Depois aconteceu novamente
Estávamos no sofá assistindo televisão quando André começou a me beijar
Eu correspondi
Deixei que ele me puxasse para perto
E, novamente, aquela presença apareceu
Dessa vez, não tentei expulsá-la
Apenas deixei que permanecesse ali
Era estranho
Eu não precisava imaginar uma história inteira
Não precisava imaginar encontros escondidos ou conversas secretas
Eu não tinha beijado aquela pessoa
Não tinha enviado uma mensagem
Não tinha marcado um encontro
Não tinha feito absolutamente nada
Mas agora existia um lugar dentro de mim onde ela estava presente
E eu não queria expulsá-la
Bastava saber que aquela pessoa estava ali
Na minha cabeça
Comigo
E decidi que seria conosco
Uma noite, depois que André dormiu, fui até a cozinha beber água
Parei diante da janela
A cidade estava silenciosa
Fiquei olhando para as luzes dos prédios enquanto aquela lembrança voltava
Dessa vez, deixei o rosto aparecer completamente na minha cabeça
Fechei os olhos
Conhecia aquela voz
Conhecia a maneira como aquela pessoa costumava sorrir
Abri os olhos
Não
Não era hora de lembrar
Bastava saber que aquela pessoa estava ali
Na minha cabeça
Comigo
E decidi que seria conosco
Voltei para o quarto
Deitei ao lado de André
Ele se mexeu durante o sono e colocou o braço sobre mim
Fiquei imóvel
Bastava saber que aquela pessoa estava ali
Na minha cabeça
Comigo
E decidi que seria conosco
Na manhã seguinte, eu ainda pensava naquilo
Não na pessoa
Na situação
Naquilo que tinha acontecido dentro da minha cabeça enquanto André estava comigo
Eu sabia que precisava contar
Não porque estivesse fazendo alguma coisa errada
Mas porque, se aquilo continuasse, eu não queria que fosse um segredo entre nós
Esperamos até a noite
Estávamos deitados, conversando sobre coisas banais, quando finalmente falei:
— André?
— Hum?
— Lembra que você perguntou se estava tudo bem?
— Lembro
Fiquei alguns segundos em silêncio
— Tem uma coisa que eu não te contei
Ele virou para mim
— O quê?
— Quando estamos juntos... às vezes eu penso em outra pessoa
Ele não respondeu imediatamente
Fiquei observando seu rosto
Esperava surpresa
Talvez ciúme
Mas o que apareceu foi outra coisa
Curiosidade
— Outra pessoa?
— Sim
— Alguém específico?
Assenti
— Você conhece?
— Conheço
Ele sorriu de leve
— E você tem alguma coisa com essa pessoa?
— Não
— Já teve?
— Não
Ele ficou me olhando
— Então o que é?
Respirei fundo
— Tesão
Ele riu
Não de mim
Como quem finalmente tinha encontrado a palavra certa
— Só isso?
— Acho que sim
— Você não está apaixonada?
— Não
— Não quer ficar com essa pessoa?
— Não sei sobre isso.
Mas não é isso que está acontecendo na minha cabeça.
Ele se aproximou
— Então o que acontece?
Eu hesitei
Depois sorri
— Você está comigo.
— Sim.
— E essa pessoa também.
Ele levantou as sobrancelhas
— Como assim?
— Na minha fantasia
Ele ficou alguns segundos em silêncio
Então sorriu
Dessa vez, de um jeito diferente
— Isso me excita
Eu ri
— Sério?
— Muito
A tensão que eu carregava desapareceu de repente
— Eu achei que você fosse ficar com ciúmes
— De uma pessoa que nem está aqui?
— Ele existe
— Eu sei
Ele se aproximou mais
— Mas ele não está tirando você de mim
— Não
— Então talvez eu não tenha motivo para sentir ciúmes
Ele passou a mão pelo meu braço
— Na verdade, acho que estou começando a gostar bastante dessa história
Sorri
— Mesmo sem saber quem é?
— Principalmente sem saber
Foi naquela noite que a fantasia deixou de ser somente minha
André começou a perguntar
Não queria o nome
Pelo menos não naquele momento
Queria saber como eu imaginava
— Ele está perto de você?
— Às vezes
— E eu?
— Você está sempre
Ele sorriu
— E ele sabe que está participando?
— Na fantasia, sim
— E o que ele faz?
Eu ri
— Você está curioso demais
— Estou
Ele me beijou
— Continua
Fechei os olhos
E deixei minha imaginação fazer o resto
Dessa vez, porém, havia uma diferença enorme
Eu não estava imaginando aquela pessoa no lugar de André
Estava imaginando os dois
André percebeu isso
E parecia gostar ainda mais
— Então não é ele ou eu
— Não
— Somos nós
— Sim
Ele sorriu
— Gostei disso
Depois daquela noite, começamos a brincar com a ideia
Nunca de maneira muito séria
Às vezes bastava uma frase
Um comentário durante um beijo
Uma pergunta no meio da intimidade
— Ele está aqui?
Eu sorria
— Talvez
— E agora?
— Agora está
E aquilo bastava
Não precisávamos de nome
Não precisávamos de história
Muito menos de uma pessoa de verdade entrando no nosso quarto
Por enquanto, ele existia somente onde nós dois permitíamos
Na imaginação
E havia algo estranhamente íntimo nisso
Porque André passou a conhecer uma parte da minha fantasia que ninguém mais conhecia
E eu comecei a descobrir uma parte da fantasia dele
Uma noite, depois de ficarmos juntos, ele perguntou
— Posso te contar uma coisa?
— Pode
— Acho que comecei a imaginar ele também.
Meu coração acelerou.
— Mesmo sem saber quem é?
— É justamente o mais interessante
Sorri
— E como você imagina?
Ele chegou perto do meu ouvido
— Não vou contar
— Por quê?
— Porque quero que você descubra aos poucos
Ri
— Então agora você também tem segredos.
— Talvez.
Ficamos em silêncio
E percebi que alguma coisa tinha mudado entre nós
Aquela pessoa continuava sendo um mistério
Eu sabia quem era
André não
Mas agora ela pertencia à nossa fantasia
Não era uma ameaça
Não era um romance
Não era alguém que eu desejasse secretamente para substituir meu marido
Era simplesmente uma presença que tinha surgido do desejo
E, depois que André descobriu, o desejo ganhou outra dimensão
Agora éramos dois imaginando uma terceira pessoa
Sem saber se algum dia ela realmente entraria na nossa história
E, naquele momento, nenhum dos dois parecia ter pressa para descobrir
Talvez porque fosse mais excitante assim
Ele existia
Nós sabíamos disso
Mas, por enquanto, bastava fechar os olhos
ramone84