Clinica ProctoVital (Dr. Laércio Mendonça)

A ProctoVital não chamava atenção da rua. Segundo andar, vidro fosco, placa pequena demais para o que acontecia no fundo do corredor. Quem subava o elevador via um consultório de homem velho: revistas de pesca, cheiro de álcool, relógio alto demais na parede. Quem conhecia o lugar sabia que o relógio mentia. Ali o tempo alongava quando a luva já estava dentro.
O Dr. Laércio Mendonça tinha 56 anos, jaleco sempre fechado no primeiro botão, bigode aparado, voz baixa de quem pede exame de sangue. Os pacientes acreditavam naquele tom. Acreditavam até deitar. Laércio gostava do instante em que a voz clínica ainda estava no ar e o dedo já tinha passado do razoável. Não falava suco. Não precisava. Perguntava de evacuação, de pressão, de rotina em casa. A mão fazia o resto.
Kauê tinha 24 e a agenda na palma. Entrou na clínica para atender telefone e aprender convênio. Ficou porque ouvia a porta. No terceiro mês já distinguia gemido de desconforto de gemido de homem fingindo que não entendeu. Achava graça de certas coisas: o casado que rezava baixo, o personal que pedia “mais um segundo” como se fosse alongamento, o blogueiro que saía arrumando a camisa na frente do espelho da recepção. Graça calada. Kauê sabia conduzir. Segurava visita. Inventava atraso. Passava água. E, principalmente, escrevia nas fichas o que o chefe gostava de ler depois, quando a sala esvaziava e o jaleco ainda não tinha desinchado.
As anotações da terça estavam prontas antes do primeiro nome:
Marcelo — personal. Agacha bonito. Aqui empurra melhor.
Armando — casado. Hemorroida na história. Outra fome na luva.
Rafael — blogueiro de carne. Escreve picanha. Sai linguiça.
Jeferson — último. Se o senhor quiser ir além do dedo, eu tranco. Já sei o volume do jaleco.
Laércio leu no consultório. Guardou. Chamou Marcelo.
O personal deitou de lado, calça no meio da coxa, o cu exposto sob a luz branca. Gel frio. Um dedo. Depois dois. A próstata veio fácil, inchada, batendo na luva.
— Faz força para evacuar? — perguntou Laércio.
— Um pouco. — Marcelo olhou a parede. — É o treino, acho.
— A resposta está acima do esperado. Empurre.
Marcelo empurrou com vergonha, como se ainda pudesse chamar aquilo de exame. O médico ficou no ponto, frio, girando, até o personal gozar no papel sem a mão na pica. O cu dele latejou nos dedos. Laércio só retirou quando o spasm passou.
— Uma pomada vai ajudar e se o sintoma repetir, retorna.
Kauê ouviu o silêncio depois do gozo. Anotou:
Repetiu. Papel sujo. Personal saiu com a perna mole e a desculpa intacta.
Armando entrou falando da esposa até a maca. A calça social desceu. A aliança virou para dentro da mão. Laércio enfiou o dedo fundo, sem pressa, e perguntou se doía para evacuar. Armando disse que sim, que era hemorroida, que em casa ninguém mexia nisso. Três dedos depois, o homem casado gozava calado, o leite escapando entre os dedos da própria palma, a boca tentando formar “intestino”.
Quando a porta abriu, Kauê já tinha o recado.
Na ficha, abaixo do nome de Armando:
Sua esposa ligou. Queria saber horário do jantar. Pelo volume na frente do jaleco, não acho que o senhor vá retornar agora. Eu falei que estava em procedimento.
Laércio leu aquilo no corredor, entre um paciente e outro. Não ligou. Ajustou o jaleco. Chamou o blogueiro.
Rafael falou de marca, de brasa, de público família. Deitou de peito, joelho aberto. O speculum afastou o cu até a luz entrar. Ele perguntou se era normal. Laércio só disse que a próstata estava reativa e pediu para empurrar como no vaso. Rafael empurrou, vermelho, fingindo que não entendia o próprio gemido. Gozo grosso escorreu pela base da pica. Kauê nem caprichou na frase.
Escreve picanha. Gozou linguiça. Próximo.
O surpresa do dia não veio da sala. Veio da gaveta. Kauê, no intervalo, deixou sobre a bandeja do último horário um par de luvas, gel demais e um preservativo ainda na caixa, alinhado ao lado do speculum, como se fosse material de rotina. Não falou nada. Laércio viu. Também não falou. Entendeu o recado do menino que já tinha ouvido demais e aprendido a agradar.
Jeferson chegou no fim. Capacete na recepção. Kauê trancou a entrada, apagou o “próximo” e encostou o ombro no vão da porta.
Na maca, o motoboy foi de quatro sem ser mandado. Laércio gelou a luva e meteu três dedos de uma vez. O som molhado encheu o consultório.
— Dor?
— Não.
— Pressão?
— Pressão. — A voz de Jeferson saiu baixa, envergonhada no começo, honesta no fim. — Dá pra continuar.
Laércio continuou até o punho quase sumir. Do lado de fora, Kauê ouvia o ritmo e sorria no papel:
Trancado. Ele tá pedindo exame com a bunda. O senhor vai além. Eu sei.
Lá dentro, o médico tirou os dedos, abriu o pacote que Kauê tinha deixado, desceu só o zíper por baixo do jaleco e ajeitou o preservativo sem discurso. A cabeça do pau encostou no cu já aberto, molhado de gel. Jeferson prendeu o ar.
— É… ainda o exame?
— Fica quieto. Empurra.
O motoboy empurrou. Laércio enterrou devagar, até o saco bater na bunda, e fodeu com a mesma calma fria das perguntas: fundo, ritmado, sem xingamento. A maca rangeu. Jeferson enterrou o rosto no papel e gemeu baixo, depois alto, a vergonha perdendo para o fundo sendo usado de verdade. Kauê, no corredor, fechou os olhos um segundo só para ouvir melhor o tapa da pelve no assento.
Laércio segurou a cintura do motoboy e foi até o fim. Gozo preso no preservativo, o cu do paciente latejando em volta, aberto, brilhante, ainda pedindo quando o pau saiu. O médico tirou o plástico, amarrou, jogou no lixo amarelo. Jaleco abaixado. Voz igual à da manhã.
— Retorno em quinze dias. Se o incômodo voltar, marca o último horário.
Jeferson passou pela recepção olhando o chão. Kauê falou de convênio e água. Embaixo da ficha, só para o chefe:
Esposa ligou de novo. Eu disse que o senhor estava encerrando. Encerrando o motoboy. Jaleco agora deve voltar ao tamanho. Quarta que vem eu deixo o último nome e a porta certa.
Laércio pegou as fichas e o café. Na rua, a placa da ProctoVital continuava pequena. Do segundo andar, ninguém ouvia nada. Kauê apagou a luz da recepção e sorriu para o livro de ponto, como quem tinha feito bem o próprio serviço.

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Ficha do conto

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Nome do conto:
Clinica ProctoVital (Dr. Laércio Mendonça)

Codigo do conto:
271817

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
09/09/2026

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