O asfalto molhado da Régis Bittencourt sumia sob a garoa fria que nos acompanhava desde a saída de Curitiba. Dentro do carro, o contraste era absoluto: enquanto eu gesticulava, debatia projeções de metas e preenchia cada segundo com palavras, Ricardo permanecia em silêncio, ancorado ao banco do passageiro.
Com um metro e oitenta e cinco de altura, ombros largos moldados sob uma camisa polo azul-marinho e traços firmes herdados da ascendência polonesa, ele parecia esculpido em concreto armado. Tinha quarenta anos, um divórcio formalizado nas costas e uma aversão quase patológica a qualquer coisa que fugisse do método. Eu gerenciava a agência do Batel com jogo de cintura e persuasão; ele fiscalizava estruturas e fundações sem dar margem a meio milímetro de erro. Para o banco, éramos apenas uma dupla improvável que entregava resultados impecáveis. Para nós, existia um pacto silencioso de território compartilhado.
— Eduardo, larga essa planilha mental e olha para a pista — a voz dele cortou o som do limpador de para-brisa, grave e compassada. Ele apoiou o notebook fechado nas coxas grossas e virou o rosto para mim. — A serra está descendo fechada. Não adianta querer consertar o orçamento do trimestre a cento e dez por hora.
— Alguém precisa manter a adrenalina viva nesta cabine, querido — retruquei, sustentando o apelido que usávamos para desarmar a formalidade do trabalho. — Você dirige a vida como quem calcula a carga de uma viga mestra. Dá uma folga aos cálculos.
Ele não respondeu de imediato. Apenas soltou o ar devagar e manteve os olhos claros fixos no traçado da estrada à frente, embora o canto da boca tenha denunciado uma sombra de riso contido. Ricardo era um edifício maciço que raramente abria as janelas para o mundo, mas comigo o trinco sempre parecia um pouco mais frouxo.
A chegada a São Paulo foi caótica, e o hotel na região da Berrini nos recebeu já sob a exaustão do trânsito da capital. No balcão de atendimento, empurrei a reserva corporativa e peguei uma única chave magnética.
Ricardo parou ao meu lado, arqueando a sobrancelha escura para o cartão.
— Um quarto só, Eduardo? — ele perguntou, num tom baixo, sem disfarçar o estranhamento.
— Contingência de custos da diretoria, querido. Não fui eu quem desenhou a planilha de viagens, mas a cama é king size. Tem espaço suficiente para a sua rigidez e para o meu cansaço.
— Você é inacreditável — murmurou ele, pegando a mala de couro e caminhando em direção aos elevadores.
A convenção no dia seguinte drenou o restante da nossa energia corporativa. Ao cair da noite, o bar no mezanino do hotel virou nosso refúgio estratégico. Ricardo já havia arrancado a gravata e aberto os dois primeiros botões da camisa social, deixando à mostra o início dos pelos escuros no peito largo. Ele girava os cubos de gelo no copo de uísque com um olhar distante.
— Às vezes — ele começou, fitando o reflexo dourado da bebida —, acho que você é a única pessoa na órbita daquele banco que não me cobra para ser o "Doutor Ricardo" em tempo integral.
Aproximei minha cadeira de madeira até que nossos braços se tocassem de leve. O calor que atravessou o tecido fino da minha camisa fez o ar parecer mais rarefeito.
— Porque eu não vejo você como uma planta baixa a ser executada, Ricardo. Eu vejo o que está por trás do concreto.
Ele ergueu os olhos devagar. O peso daquele olhar sustentou o meu por longos segundos, sem desvio, até que o silêncio ficou espesso demais para um salão de hotel.
Subimos para o quarto por volta das onze. O ambiente era amplo, com iluminação indireta e a cidade fervilhando além da janela envidraçada. Sem qualquer cerimônia, passei pela porta já soltando o cinto da calça e desabotoando a camisa social.
— Vou direto para o chuveiro antes que meu corpo paralise — anunciei, ficando apenas de cueca box escura no meio do quarto.
Ricardo sentou-se na poltrona ao lado da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, acompanhando cada movimento meu com uma atenção densa e imóvel.
— Vai ficar aí sentado me vistoriando como se eu fosse um pilar prestes a ruir? — provoquei, sorrindo de canto.
— Vai logo para o banho, Edu — ele disse, com a voz ligeiramente mais rouca, sem piscar e sem tirar os olhos de mim.
Deixei a água quente levar a tensão da viagem. Quando saí do banheiro, enrolado em uma toalha e com o vapor ainda condensando na pele, Ricardo permanecia na mesma posição, a respiração pesada, a mente girando em torno de algo que ele claramente não conseguia catalogar.
— Sua vez, querido — avisei, contornando a poltrona, jogando a toalha no encosto e me deitando sob o lençol macio da cama.
Apaguei quase de imediato ao som constante da água caindo no banheiro. Não sei quanto tempo se passou até que o colchão afundasse ao meu lado, quebrando o meu sono.
Abri os olhos na penumbra dourada do abajur. Ricardo estava sentado na borda da cama, vestindo apenas uma calça de moletom cinza. O peito dele subia e descia em um ritmo acelerado, os músculos das costas tensos como cabos de sustentação sob a luz suave.
— Edu? — ele chamou baixo, a voz quase inaudível.
Sentei-me devagar, puxando o lençol até a cintura e encurtando o espaço entre nós até sentir o calor que emanava dele.
— O que foi, querido? Não conseguiu dormir?
Ele não se virou de imediato. Manteve os olhos cravados no chão, as mãos grandes apertando os próprios joelhos.
— Eu estou tentando colocar isso numa equação que faça sentido, mas não fecha — ele disse, e a voz vibrava com um tremor contido. — Minha vida inteira foi construída em cima de margens de segurança, de funções definidas. Família, carreira, controle. Mas o jeito como você me cerca... as coisas que você fala... está desmontando tudo.
Estendi a mão devagar e pousei a palma aberta no centro do peito dele. Sob os pelos escuros e a pele quente, o coração de Ricardo batia descompassado, rápido demais para um homem que se orgulhava da própria frieza.
— Suas margens de segurança eram só um esconderijo, Ricardo. Você passou anos se trancando dentro de um projeto que não cabe mais você.
— Eu não sei como fazer isso — ele confessou, os olhos claros encontrando os meus com uma vulnerabilidade crua. — Eu não sei ser outra coisa.
— Você não precisa projetar nada agora — murmurei, aproximando meu rosto do dele. — Só precisa deixar ruir.
Segurei o rosto dele com as duas mãos, sentindo a aspereza da barba por fazer. Ricardo permaneceu imóvel por uma fração de segundo, os músculos petrificados pela última barreira de hesitação. Então, o ar escapou dos pulmões dele num rosnado baixo:
— Que se danem os cálculos.
As mãos de Ricardo avançaram com urgência brutal, os dedos se enterrando na minha nuca e me puxando contra ele. A boca dele colidiu com a minha com a força de uma represa que acabara de ceder: um beijo faminto, pesado, com gosto de anos de controle absoluto sendo jogados fora. O aperto dele em mim não tinha nada de polido; era a força de um homem que finalmente decidira parar de resistir à própria queda.
VOTADO! Muito bom enredo, instigante, quero ver a sequência.