Na segunda-feira, o envelope veio cedo.
"Hoje, 20h. Não bata. A porta estará aberta. Entre de joelhos. Assinado: Seus donos."
Seus donos.
Lucas leu tantas vezes que o papel amassou. Colou na pele. Passou o dia num estado de transe, o coração batendo em lugares estranhos.
20h. Ele parou diante da porta do 1502. Experimentou a maçaneta. Aberta.
Empurrou devagar. O apartamento estava escuro, apenas velas no chão formando um corredor de luz. A música era diferente. Mais grave. Mais antiga. Tambores.
Ele ajoelhou no batente da porta. Sentiu a madeira fria nos joelhos nus — vestira apenas uma camisa fina, como fora instruído por um bilhete anterior. Nada mais.
Entrou de joelhos. Cada passo uma dor, uma entrega. As velas ladeavam o caminho até a sala.
Eles estavam no sofá.
Ela estava completamente nua, sentada no colo dele, de costas para o peito do marido. As pernas abertas, os pés apoiados no chão. Ele, também nu, tinha as mãos nos seios dela, tocando devagar.
Ambos olhavam para Lucas.
Ele parou a alguns metros. Os joelhos doendo na cerâmica. O sexo já duro, traindo qualquer pretensão de controle.
"Mais perto", disse ele. A voz grave.
Lucas rastejou os joelhos até ficar diante do sofá. Cabisbaixo. Esperando.
Ela se inclinou para frente. Pegou o queixo de Lucas, ergueu. Os olhos dela brilhavam na penumbra.
"Você leu o bilhete", disse. Não era pergunta.
"Sim, senhora."
"E aceitou."
"Sim, senhora."
Ela soltou o queixo dele. Recostou no peito do marido. Os olhos dos dois fixos nele. Lucas sentiu o peso físico daquele olhar, como se fosse feito de mãos.
"A partir de hoje", disse ele, "as regras mudam."
Lucas esperou.
"Você não sai mais daqui. Fica. Uma semana. Talvez mais. Pedimos licença no seu trabalho. Arrumamos tudo."
O estômago de Lucas deu um nó. Sete dias. Sete noites. Ele olhou para os dois, procurando o brincar, o teste. Não havia. Apenas a certeza.
"Se quiser", completou ela. "Se não quiser, a porta está ali. Ninguém segura."
Lucas pensou no apartamento vazio do lado. Na cama fria. Nas noites ouvindo os sons através da parede. Depois pensou no chão da varanda, no gosto, nas mãos deles.
"Inclina a cabeça", ele pediu, a voz falhando.
Ela inclinou, curiosa.
"Me dá um tapa."
Ela ergueu a sobrancelha.
"Por favor", ele completou. "Senhora."
Ela olhou para o marido. Ele assentiu, os olhos brilhando.
Ela levantou a mão e bateu. Forte. A palma estalou na face de Lucas, virando o rosto dele. A ardência, a surpresa, a humilhação — tudo se dissolveu num prazer fundo, quente.
Ele voltou o rosto para ela. Os olhos marejados. O sorriso nos lábios.
"Quero ficar", disse.
A primeira noite foi de reconhecimento.
Eles o fizeram rastejar pelo apartamento de joelhos, mostrando cada cômodo. A cozinha, onde ele serviria as refeições — de joelhos, a bandeja na mão. O banheiro, onde ele lavaria os pés deles antes de dormir. O quarto, onde uma cama pequena fora colocada aos pés da cama deles.
"Para cachorros", explicou ele, com um sorriso.
Lucas olhou para a caminha. Pequena, apertada, no chão. Sem travesseiro. Um cobertor fino.
"Sua mão", ele pediu, estendendo a mão para ela.
Ela colocou a mão na dele. Ele beijou, devagar. Depois levou ao rosto, fechou os olhos.
"Obrigado", sussurrou. "Obrigado por me aceitarem assim."
Ela trocou olhar com o marido. Algo se desfez nos olhos dela, uma dureza que deu lugar a outra coisa. Afeto? Cuidado?
Ele também viu. Apertou a nuca dela, beijou o ombro.
"A gente cuida de você", disse o marido, para Lucas. "Mas você obedece."
"Sempre", Lucas respondeu.
Na terceira noite, ele aprendeu o que era ser realmente objeto.
Acordou com os pés deles no rosto. Literalmente. Ela estava sentada na cama, os pés apoiados no travesseiro dele, nos peitos dele. Ele abriu os olhos, viu as solas dos pés dela a centímetros da boca.
"Bom dia", ela disse, sonolenta. "Acorda teu dono também. Ele merece."
Lucas sentou na caminha. Olhou para a cama. Ele estava deitado de bruços, o corpo largo ocupando quase toda a cama. As costas nuas, o cobertor na cintura.
Lucas levantou, foi até a cama. Ajoelhou na borda. Beijou o ombro dele. Depois as costas. Desceu beijando a coluna, devagar, enquanto a mão dela pousava na cabeça dele, guiando.
Quando chegou na cintura, puxou o cobertor. Beijou as nádegas, abriu com as mãos, enterrou o rosto. Ele gemeu baixo, ainda dormindo, mas o corpo respondeu.
Lucas trabalhou com a língua, com os dedos, até que ele acordou de verdade. Até que a mão grande segurou a nuca dele, firme.
"Assim", a voz rouca de sono. "Mais fundo."
Lucas obedeceu. Sentiu o gosto, o cheiro, a respiração ofegante do homem acima dele. A mão dela agora acariciava as costas dele, elogio silencioso.
Quando ele gozou, apertou a cabeça de Lucas contra si, segurando, deixando sem ar por alguns segundos. Depois soltou, empurrou para longe.
Lucas caiu sentado no chão, ofegante, a boca molhada, os olhos ardendo.
Ela riu, satisfeita. Estendeu a mão, puxou ele para a cama. Colocou a cabeça dele no colo dela, passou os dedos no cabelo sujo.
"Bom menino", murmurou. "Agora descansa. Hoje vai ser longo."
No quinto dia, ele perdeu a conta das vezes que foi usado.
Eles o chamavam de "cachorro". Não com maldade, mas como fato. Ele comia de joelhos, a tigela no chão. Pedia para ir ao banheiro, sentado, esperando permissão. Quando eles transavam, ele assistia, de joelhos num canto, as mãos para trás, sem tocar em si mesmo.
"Hoje", disse ele naquela noite, "você vai ser nosso completamente."
Lucas esperou, o coração disparado.
Ela foi até um armário. Trouxe uma coleira. Couro preto, argola de metal. E uma guia.
Lucas sentiu os olhos encherem. Estendeu o pescoço.
Ela colocou a coleira nele. Ajustou. Ficou justa, marcando. O barulho do metal ao fechar ecoou no silêncio.
"Pronto", ela sussurrou. "Agora você é nosso. Pra sempre."
Ele pegou a guia. Entregou ao marido.
Ele levantou, puxou a guia. Lucas seguiu de joelhos. Atravessaram a sala, a varanda, pararam no gradil. A cidade lá embaixo. O vento fresco.
Ele prendeu a guia no gradil. Lucas ficou ali, ajoelhado, nu, coleira, preso à varanda como um cão.
Ela veio com uma tigela. Colocou água no chão, perto dele.
"Quando tiver sede", disse.
Depois os dois se afastaram. Voltaram para a sala. Sentaram no sofá, abriram vinho, conversaram baixinho. De vez em quando olhavam para ele, lá fora, preso, observando.
Lucas ficou duas horas na varanda. Ajoelhado. A coleira apertando. A cidade testemunha. Quando ela finalmente veio soltá-lo, ele estava tremendo, não de frio, mas de algo maior.
"Gostou?", ela perguntou.
Ele não conseguiu responder. Apenas enterrou o rosto no colo dela e chorou. Ela passou a mão no cabelo dele, devagar, enquanto ele sacudia em silêncio.
"Meu bem", ela murmurou. "Meu cachorro bom."
Na sétima noite, ele estava irreconhecível.
Não fisicamente — os olhos ainda eram os mesmos, o corpo ainda o mesmo. Mas havia algo nos olhos. Uma paz. Uma entrega completa. Ele se movia diferente, olhava diferente, existia diferente.
Eles o chamaram para a varanda. Os três nus, a noite quente.
"Uma semana", disse ele. "Acabou."
Lucas sentiu o peito apertar.
"Se você quiser voltar pra lá..." ela apontou o apartamento 1501.
Lucas balançou a cabeça. "Não quero."
Ela sorriu. Trocou olhar com o marido.
"Então fica", disse ele. "Mas muda de novo."
Lucas esperou.
"Você não dorme mais na caminha", continuou ele. "Dorme na nossa cama. Entre a gente. Abraçado."
Lucas piscou.
"E não come mais no chão", completou ela. "Come na mesa. Com a gente. Conversando."
"Mas a coleira?", ele perguntou, confuso.
"A coleira fica", ela disse. "Quando a gente quiser. Quando você quiser. Mas não é mais só isso."
O marido se aproximou. Segurou o rosto de Lucas com as duas mãos. Olhou fundo.
"Você é nosso", disse. "Mas também é amado. Entende?"
Lucas entendeu. As lágrimas vieram de novo, mas agora eram diferentes.
Ela o abraçou por trás. Ele na frente. Lucas no meio. Os três na varanda, a cidade aos pés.
"Então é isso", ela murmurou. "Pra sempre."
Lucas fechou os olhos. Sentiu os braços deles, o calor, a coleira no pescoço, o coração batendo no mesmo ritmo dos dois.
"Pra sempre", repetiu.
E dessa vez não era uma pergunta.
Continua