Ela entrou quando eu já estava sentado.
Vestido de verão, leve, daqueles que acompanham o movimento do corpo como se dançassem com ele. Estampado suave, alças finas, sandálias simples. Cabelo solto, ainda com aquele brilho de quem tem 20 anos e o mundo inteiro pela frente.
Sentou-se ao meu lado e sorriu.
Descobri que estudava psicologia. Vinte anos. Inteligente, curiosa, observadora. Mas havia uma diferença clara entre curiosidade académica e o modo como ela me observava.
Ela não estava apenas a conversar.
Estava a experimentar.
— Gosto de homens mais velhos — disse em determinado momento, como quem comenta o clima. — São mais confiantes. Não têm pressa.
O olhar que me lançou ficou um segundo a mais do que o necessário.
A primeira turbulência foi leve, mas ela aproveitou-a como se fosse uma desculpa perfeita. A mão dela agarrou o meu braço com firmeza. Os dedos afundaram ligeiramente no tecido da minha camisa.
Não se afastou quando o avião estabilizou.
Ficou ali.
— Desculpa… fico sensível com estas coisas — murmurou, mas os olhos dela estavam calmos. Muito calmos.
Deixei a minha mão pousar sobre a dela. Não para afastar. Para segurar.
Senti o calor da pele dela. Jovem. Viva.
O espaço entre nós começou a diminuir sem que nenhum de nós assumisse ter dado o passo. As nossas pernas começaram a tocar-se sob o pretexto do espaço apertado. Ela ajustava-se no assento com movimentos suaves, quase preguiçosos, e o tecido do vestido roçava na minha perna. Não era acidente. Era convite.
Ela inspirou mais fundo.
A partir daí, o toque deixou de ser acidental.
O espaço entre as nossas pernas diminuiu milimetricamente até não existir. O tecido do vestido roçava na minha perna sempre que ela se mexia. E ela mexia-se com frequência. Devagar. Ajustando-se no assento como se procurasse conforto — mas encontrando fricção.
Eu já não estava apenas consciente do corpo dela. Estava consciente do meu próprio.
Os passageiros ao lado começaram a reparar. Eu sentia. Pequenos olhares de relance. Silêncios mais atentos. Uma tensão que não era só nossa.
Ela percebeu primeiro.
— Estão a olhar — sussurrou, quase roçando os lábios no meu ouvido.
O arrepio percorreu-me inteiro.
— Deixa que olhem — respondi, baixo.
O sorriso que ela me deu naquele momento mudou tudo.
A mão dela deslizou da minha mão para o meu antebraço… depois para o meu peito. Não de forma descarada. Apenas explorando o tecido da camisa aberta no colarinho, os dedos desenhando distraidamente a linha do meu tórax por cima do tecido.
— Engenheiros gostam de precisão… — murmurou. — Quero ver se também gostam de intensidade.
Ela aproximou-se mais. O corpo dela agora encostado ao meu sem qualquer disfarce. O calor atravessava o tecido fino do vestido. Eu podia sentir a respiração dela mudar.
Decidi responder.
A minha mão desceu lentamente pela lateral do corpo dela, sentindo a curva da cintura, a suavidade do tecido leve que parecia quase inexistente sob os dedos. Ela não recuou. Pelo contrário — inclinou-se ainda mais contra mim.
Os olhos dela fecharam-se por um instante.
O polegar dela começou a mover-se sobre o meu peito em círculos lentos. Provocadores. Calculados. Cada movimento parecia uma pergunta silenciosa.
Eu inclinei-me até os nossos rostos ficarem a centímetros.
— Tens a certeza que sabes o que estás a provocar? — perguntei.
Ela abriu os olhos devagar.
— Tenho curiosidade de descobrir até onde vai o teu controlo.
A tensão tornou-se quase insuportável.
O resto do voo passou num estado suspenso. Toques que começavam inocentes e demoravam demais. Respirações mais pesadas. Olhares que diziam tudo o que as palavras já não conseguiam esconder.
Havia uma energia quase exibicionista no ar. Como se o facto de estarmos rodeados tornasse cada gesto ainda mais intenso. Proibido. Perigoso.
Quando o avião iniciou a descida, ela estava completamente encostada a mim. A mão dela entrelaçada na minha. As nossas coxas firmemente pressionadas.
Ela inclinou-se e murmurou:
— A tensão acumulada precisa de um desfecho.
O tom da voz dela era mais grave agora. Menos brincadeira. Mais intenção.
Ao aterrarmos, levantámo-nos devagar. O contacto não se quebrou. Pelo contrário — parecia crescer com a promessa de privacidade.
Perto das casas de banho do aeroporto, ela parou. Virou-se para mim. O mundo continuava a mover-se atrás dela, mas naquele momento parecia distante.
— Sabes qual é a parte mais interessante da mente humana? — perguntou.
— Qual?
Ela deu um passo à frente. Ficámos a centímetros.
— A forma como justificamos aquilo que já decidimos fazer.
O clique da tranca do banheiro pareceu alto demais. Definitivo demais.
Por um segundo ficámos apenas a olhar um para o outro. O espaço era pequeno, iluminado por uma luz fria que contrastava com o calor que já nos consumia desde o avião.
Ela encostou-se à porta. O vestido de verão, agora ligeiramente desalinhado, moldava-se ao corpo dela como se tivesse sido feito para aquele momento. A respiração dela estava mais profunda. O peito subia e descia devagar — mas não era calma. Era antecipação.
— Ainda estás tão seguro como parecias lá em cima? — perguntou.
A voz dela estava diferente. Menos brincalhona. Mais baixa. Mais íntima.
Eu aproximei-me sem pressa. A maturidade ensina que a lentidão pode ser mais intensa do que a urgência.
Quando a minha mão encontrou a cintura dela, senti o corpo reagir instantaneamente. Não era imaginação. Era resposta. A pele dela parecia sensível sob o tecido fino.
Ela puxou-me pela camisa.
O beijo foi direto. Não havia mais teste. Não havia plateia. Só desejo acumulado.
A mão dela deslizou pelo meu peito, firme, explorando com curiosidade deliberada. Não era toque distraído. Era toque que queria provocar reação.
Eu desci os dedos pelas costas dela, sentindo a linha da coluna sob o vestido leve. Ela arqueou-se ligeiramente contra mim — um gesto quase involuntário que me fez perder parte daquele controlo que eu fingia ter.
O espelho à frente refletia tudo: dois corpos demasiado próximos, respirações que já não estavam sincronizadas, olhares que ardiam.
Ela aproximou os lábios do meu ouvido.
— Gosto de ver quando um homem deixa de fingir que está no comando.
A provocação fez o meu corpo reagir antes do pensamento. Segurei-a com mais firmeza. Não com violência — mas com intenção. Ela respondeu imediatamente, as mãos subindo pelas minhas costas, prendendo-me contra ela.
O espaço era mínimo. Cada movimento era amplificado. O menor roçar de tecido parecia eletricidade.
Havia algo quase vertiginoso naquela consciência de estarmos num lugar público. O risco tornava cada segundo mais intenso. Cada suspiro parecia alto demais. Cada pausa parecia perigosa.
A minha boca percorreu lentamente o pescoço dela. A pele reagiu. Ela respirou fundo, os dedos apertando o tecido da minha camisa.
— Não pares — murmurou.
Não havia mais teoria. Não havia mais psicologia. Só instinto.
O calor entre nós era direto, inevitável. Os corpos ajustavam-se naturalmente, procurando encaixe, pressão, proximidade. O tempo parecia suspenso.
Quando finalmente nos afastámos — não por falta de desejo, mas por excesso — ficámos imóveis, ainda colados, respirando como se tivéssemos corrido.
Ela olhou para mim com um brilho diferente.
Não era apenas excitação.
Era a satisfação de ter provocado exatamente aquilo que queria.
E eu sabia que, por mais apresentações que fizesse naquela viagem, nada teria a intensidade daquele momento roubado ao mundo.
O meu coração batia mais forte do que antes de qualquer apresentação importante. Talvez ela tivesse razão: ninguém é tão lógico quanto pensa.
Quando nos afastámos, ela passou a mão pelo cabelo, recompondo-se. O vestido voltou ao lugar, inocente como antes. Mas o olhar… o olhar já não era o mesmo.
— Acho que vou ter material interessante para estudar — disse ela, com um meio-sorriso.
Ajeitei o blazer, sentindo-me estranhamente rejuvenescido.
— E eu talvez tenha aprendido algo sobre psicologia aplicada.
Caminhámos até à saída juntos. Depois, caminhos diferentes.
Entrei no táxi a caminho da conferência com a apresentação perfeitamente memorizada na cabeça.
Mas não era o projeto de engenharia que ocupava os meus pensamentos.
Era a forma como, às vezes, basta um voo para nos lembrar que ainda estamos muito vivos.
Eu já não era um homem impressionável.