A viagem de Curitiba para São Paulo começou com o céu cinzento, mas o clima dentro do carro era leve. Eu estava no volante, gesticulando enquanto reclamava das metas. O Ricardo estava ao lado, com o notebook apoiado nas coxas grossas.
— Eduardo, foca na Regis Bittencourt e esquece a planilha por um minuto — ele disse, com aquela voz grave que sempre me dava um frio na espinha.
Ele estava com uma camisa polo azul-marinho que marcava bem os ombros largos. O Ricardo é um prédio sólido que esqueceu de deixar as janelas abertas. Chegamos no hotel na Berrini exaustos. No balcão, veio a surpresa.
— Um quarto só, Edu? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha para o cartão magnético.
— Logística do banco, querido. Economia de palito. Mas a cama é gigante, cabe nós dois e ainda sobra espaço — brinquei, dando uma piscadinha.
— Você não toma jeito — ele resmungou, mas vi o canto da boca dele subir de leve.
A convenção foi um massacre. No fim do dia, o bar do hotel virou nosso refúgio. Entre um uísque e outro, a gravata dele já tinha ido para o bolso e o primeiro botão da camisa estava aberto, revelando o início dos pelos escuros no peito.
— Sabe, Edu... — ele começou, fitando o copo. — Às vezes eu acho que você é a única pessoa que me faz esquecer que eu tenho que ser o "Doutor Ricardo" o tempo todo.
— É porque eu não te vejo como um projeto, Ricardo. Eu te vejo como você é — respondi, aproximando minha cadeira. O toque acidental dos nossos braços parecia queimar.
Subimos por volta das onze. Como sou desinibido, entrei no quarto já tirando o cinto.
— Vou tomar um banho primeiro, estou moído — anunciei, ficando apenas de cueca na frente dele.
Ricardo sentou na poltrona e ficou me observando em silêncio.
— Vai ficar aí parado me analisando como se eu fosse uma viga com rachadura? — provoquei.
— Só estou pensando, Edu. Vá logo — ele respondeu, mas não desviou o olhar.
Tomei um banho quente e, quando saí enrolado na toalha, ele ainda estava lá, pensativo.
— Sua vez, querido — falei, passando por ele e me jogando na cama, cobrindo-me com o lençol.
Dormi ouvindo o som do chuveiro. Acordei algum tempo depois sentindo o colchão afundar. O Ricardo estava sentado na beira da cama, apenas de calça de moletom cinza. O peito dele era coberto por pelos escuros, mas as costas eram lisas e claras sob a luz do abajur.
— Edu? Acordou? — ele chamou baixo.
— Oi, querido... não conseguiu dormir? — murmurei, me sentando e ficando bem próximo dele.
— Eu estou tentando entender o que está acontecendo aqui — ele disse, a voz vibrando. — Eu sou um homem de regras, Edu. Tudo na minha vida tem uma função. Mas essa nossa amizade... o jeito que você me toca... está quebrando tudo.
— Talvez as suas regras fossem apertadas demais, Ricardo. Você vive trancado — eu disse, tocando o peito dele. Senti os pelos sob meus dedos e o coração dele disparado.
— Eu nunca fiz isso. Eu nem sei se sei ser outra coisa — ele confessou, a voz quase um sussurro.
— Você não precisa saber. Só precisa sentir.
Puxei o rosto dele com as duas mãos. Ricardo hesitou por um segundo, o corpo rígido, até que a barreira ruiu.
— Que se danem os cálculos — ele rosnou, antes de me puxar para um beijo urgente.
Foi profundo, com gosto de desejo represado. As mãos grandes dele agarraram minha nuca com uma força que me pegou de surpresa. O engenheiro silencioso finalmente tinha quebrado a estrutura, e o aperto bruto de suas mãos dizia que a noite estava apenas começando.
Adoro seus contos, dá um tesao danado lendo! Votado com prazer, bjinhos Ângela. PS. Adoraria um comentário seu no meu último conto.