A luz cinzenta da manhã de São Paulo filtrava-se pelas cortinas do hotel na Berrini, encontrando-nos ainda emaranhados nos lençóis bagunçados da cama king size. Eu sentia o peso do braço do Ricardo sobre minha cintura, uma âncora sólida de um homem de 1,85m que, por algumas horas, tinha esquecido completamente de ser o "Doutor Ricardo". Ele abriu os olhos claros, aqueles que costumavam ler pensamentos e plantas de engenharia, e por um segundo vi o pânico da realidade lutar contra o brilho da satisfação.
— Bom dia, querido — sussurrei, sentindo a barba por fazer dele roçar no meu ombro.
— Eu disse que o café seria estranho, Edu — ele resmungou, a voz ainda mais grave pelo sono, mas o canto da boca subiu naquele sorriso raro que eu tinha acabado de descobrir. — Como eu vou olhar para o diretor regional na palestra agora? Como eu vou sentar naquela cadeira e fingir que ainda sou o mesmo homem "quadrado" que saiu de Curitiba?.
— Você não finge, Ricardo. Você apenas incorpora a nova estrutura — brinquei, dando uma piscadinha enquanto me sentava, deixando o lençol escorregar. — E a gente vai chegar atrasado na palestra, lembra?.
Ele se sentou na beira da cama, as costas lisas e claras contrastando com os pelos escuros que cobriam seu peito e sumiam no cós do moletom cinza. Ele me olhou fixamente, um olhar de quem estava recalculando toda a fundação de uma vida de trinta anos de silêncio.
— No banco, Eduardo... nada muda. Entendeu? — O tom era de comando, mas a mão que ele passou no meu rosto tremia levemente. — Ninguém pode sequer desconfiar. Eu não sei lidar com o que os outros pensam, eu só sei lidar com o que eu sinto quando você me toca.
A volta para Curitiba pela Regis Bittencourt foi preenchida por um silêncio diferente. Eu estava no volante, mas minha mente não estava nas metas da agência; estava na forma como aquele polonês rígido tinha gritado de libertação quando finalmente o preenchi. Eu já me relacionei com muitas pessoas, homens e mulheres, e essa fluidez sempre foi minha marca, mas o Ricardo estava se tornando uma obsessão que eu não conseguia arquivar.
Nas semanas seguintes, a agência tornou-se um campo de jogos perigosos. Ele passava pela minha mesa com sua pasta de couro, o engenheiro impecável, metódico e reservado, mas eu via o suor brotar no seu lábio superior quando nossos olhares se cruzavam no café.
— Gerente, os números da agência estão excelentes — ele disse um dia, alto o suficiente para os estagiários ouvirem, mas seus olhos claros diziam: "eu não paro de pensar na sua boca".
— É a logística, querido. Economia de palito e eficiência máxima — respondi, usando nossa piada interna, vendo-o apertar os dedos brancos ao redor da xícara.
Numa sexta-feira chuvosa, típica de Curitiba, fomos à nossa pizzaria de sempre. O ritual era o mesmo: uísque para ele, cerveja para mim, e uma conversa que parecia nunca ter fim. Mas o Ricardo estava diferente. Ele falava mais, ria de piadas bobas e, sob a mesa, sua coxa grossa pressionava a minha com uma insistência que me deixava tonto.
— Vamos para a sua casa? — ele perguntou, cortando minha explicação sobre o novo fundo de investimento. — Minha casa ainda tem cheiro de móveis planejados e solidão. Eu gosto da sua bagunça, Edu.
O silêncio no elevador durou exatamente os três segundos que eu costumo evitar. Eu conseguia sentir a respiração do **Ricardo** pesada ao meu lado, um contraste absoluto com o homem metódico que, horas antes, discutia cronogramas de obras com uma frieza cirúrgica. Assim que a porta do meu apartamento se fechou, eu tomei a iniciativa.
Não usei palavras, apenas puxei o pela gola daquela camisa polo que marcava seus ombros largos. Comecei um beijo que era puro convite, explorando a boca do engenheiro com a segurança de quem já tinha derrubado suas primeiras defesas.
Mas o que começou com a minha provocação logo mudou de mãos. O Ricardo rosnou baixo, um som que vibrou no meu peito, e me prensou contra a parede com uma força que quase me tirou o fôlego. Se em São Paulo ele parecia uma viga com rachaduras, aqui ele era uma avalanche tentando recuperar trinta anos de silêncio em um único abraço. Suas mãos grandes, acostumadas a plantas e cálculos, agora desciam pelo meu corpo com uma urgência bruta, apertando minha nuca e me puxando para mais perto, como se quisesse fundir nossas estruturas.
Fomos para o quarto tropeçando em nossos próprios sapatos. Sendo o homem desinibido que sou, não perdi tempo e me ajoelhei diante dele, tirando sua calça com uma agilidade que o deixou momentaneamente sem fala. O pau do Ricardo saltou, pulsante e grosso, apontando para aquele peito coberto por pelos escuros que eu tanto gostava de tocar. Eu o tomei na boca com vontade, usando toda a minha experiência, querendo mostrar para ele que o prazer não precisava de regras. Ele soltou um ronco alto, as mãos enterradas nos meus cabelos, enquanto suas pernas, antes tão rígidas, agora tremiam sob o impacto do que eu estava fazendo.
Em um ímpeto de querer retribuir, ele tentou me imitar. Ele se ajoelhou à minha frente, mas a sua rigidez de homem "quadrado" ainda se fazia presente nos movimentos. Ele tentou me chupar de forma desajeitada, incerto sobre a pressão ou o ritmo, as juntas dos dedos brancas de tanto apertar o lençol enquanto se concentrava na tarefa como se estivesse resolvendo um problema complexo de cálculo estrutural. Eu sorri, achando adorável aquele esforço sincero de um homem que estava reaprendendo a sentir.
— Calma, bonitão — sussurrei, levantando o rosto dele e obrigando-o a me encarar com aqueles olhos claros e penetrantes. — Você quer estar no comando hoje ou quer que eu te mostre o caminho de novo? O que você prefere, ser ativo ou passivo?
Ricardo hesitou por um segundo, o suor brilhando sob a luz do abajur. Ele olhou para mim com uma mistura de desejo e entrega
— Eu quero sentir tudo, Edu. Quero que você me quebre de novo — ele confessou, a voz quase um sussurro rouco. — Quero ser seu.
Ele se posicionou na cama, entregando-se àquela "invasão" que ele protegeu por tanto tempo. Usei o lubrificante com paciência, massageando a entrada que ainda oferecia uma resistência metódica, mas que logo começou a ceder sob meus dedos. Quando finalmente o penetrei, o grito que ele soltou não foi de dor, mas daquela libertação que agora parecia ser sua droga favorita. Eu o fodia com vontade, sentindo o aperto final do seu corpo me esmagando a cada estocada profunda, enquanto ele buscava minha mão para apertar com força.
Gozamos juntos, um impacto de corpos que ecoou no quarto como o desabamento de uma construção antiga para dar lugar a algo novo. Depois, enquanto o cheiro de sexo e suor dominava o ar, ele me puxou para o seu peito peludo, mas eu vi a sombra voltar aos seus olhos quando o relógio marcou o fim da madrugada. Ele estava feliz, radiante por dentro, mas eu sabia que, na segunda-feira, ele voltaria a fechar as janelas do seu prédio sólido para o resto do mundo, mantendo o que tínhamos trancado apenas entre nós.