Hoje, cumpro uma pena em regime fechado de 60 anos de reclusão por duplo homicídio qualificado — com crueldade e por motivos torpes — na Colônia Penal Feminina do Recife (CPFR), em Pernambuco. Mas o tempo máximo de cumprimento de pena no Brasil é de até 40 anos. Foi o que o advogado me disse. Ainda bem que o juiz não atribuiu feminicídio aos autos. Mesmo assim, minha jornada aqui, atrás das grades, é longa e solitária, sem nenhum parente para me visitar. Preciso ser forte. Estou pagando pelos meus erros, e talvez nunca quite essa dívida.
Desculpe por não me apresentar de início. Meu nome é Andreia. Morei em Caruaru por quase toda a vida, também em Pernambuco, em uma casa grande e confortável construída por minha mãe antes de sua morte, à base dos relacionamentos amorosos que tivera com trabalhadores da região, depois que largou a vida como prostituta em um puteiro da cidade. Tive vários padrastos ao longo desses anos — tantos que não posso contá-los nos dedos. Quase todos eram funcionários de lojas e não ganhavam mais que um salário-mínimo na época. E como eram bestas... Homens bestas, que não sabem lidar com uma mulher bonita sem querer morar junto com ela logo de primeira — principalmente se ela fosse uma ex-mulher da vida e mandasse muito bem na cama.
Ainda menina, quando eu estava prestes a fazer 16 anos, meu pai se envolveu em uma briga de bar com dois marginais do bairro por causa de uma partida de sinuca, em que os homens perderam cem reais para ele e não quiseram pagar. O assassinaram a sangue-frio com diversas facadas depois de uma discussão.
Meu tio Roberto, seu irmão mais novo, que sempre foi muito chegado a nós, se aproximou ainda mais de minha mãe, Adriana, logo após o sepultamento. Ele trabalhava como garçom e não ganhava lá essas coisas — quase tudo o que recebia era para pagar a faculdade de Direito que cursava na época —, mas sempre nos ajudava como podia.
"Roberval ficaria muito orgulhoso de você, mesmo não precisando fazer isso." Era o que eu sempre a ouvia dizer nas noites de sexta-feira, na cozinha de casa, quando ele ia jantar conosco — depois que lhe dava uma certa quantia, achando que eu não estava vendo. O luto dela, somado à carência e à dificuldade financeira que vínhamos enfrentando, principalmente com o aluguel, fez com que os dois se envolvessem.
Mas, com o passar do tempo, a sua ajuda se mostrou insuficiente, e como minha mãe era uma mulher muito bonita (eu lembro muito dela), resolveu — quando uma antiga amiga, em um salão de beleza, lhe sugeriu — fazer programas no centro da cidade. A princípio, ela ficou em dúvida, mas, ao perceber que não tinha nenhuma profissão e que sempre foi meu velho pai quem a bancou e nos sustentou, acabou cedendo.
Às vezes, eu também ia junto para ajudá-la com o dinheiro. Só que, com o tempo, muitos homens também começaram a me cobiçar, visto que eu também era muito bonita — até mais do que ela na minha idade. Por sua insistência, fui empurrada para essa vida, mas ela tentava manter a desculpa de que eu só faria programas se os seus clientes não a procurassem.
Percebam: era nas suas últimas tentativas, quando não havia mais nenhuma alternativa, que ela recorria a mim. De certa forma, comecei a gostar daquilo. Vai ver, não sei, se por conta da porcentagem em dinheiro que ficava para mim ou pelo fato de eu estar me descobrindo sexualmente em um ambiente tão propício para sexo com diversos tipos de homens.
Depois que meu tio descobriu o que fazíamos, não esboçou nenhum tipo de aborrecimento ou preocupação. Mas, ao perceber que minha beleza só aumentava conforme ia crescendo, também quis ter relações comigo. Certo dia, procurou-a, fazendo-lhe a proposta de me comer pelo menos uma vez por semana, garantindo que sempre pagaria adiantado pelo serviço. Ela aceitou, mas sob a condição de que eu nunca descobrisse o que estava acontecendo. Acho que você consegue imaginar o que ele teve que fazer para me seduzir e convencer-me a ceder aos seus desejos sexuais.
Inicialmente, meu tio começou a se aproximar de mim com presentes, coisas das quais eu gostava: maquiagem, vestidos curtos e joias. Imagino que tenha se endividado bastante para me conquistar. Também demonstrava muito interesse pelo meu gosto musical, colocando forró e pagode com frequência para ouvirmos em casa, nas tardes de domingo, quando fazíamos churrasco com o restante dos parentes do meu pai.
Certa vez, depois de uma briga com uma garota da escola, fiquei com o rosto cheio de hematomas e arranhões. Tio Roberto se mostrou bastante cuidadoso, atencioso e muito carinhoso comigo ao me levar e buscar no pronto-socorro. Não sei por que quis brigar com aquela megera de 120 quilos, medindo 1,80 m de altura, com uma velocidade e força descomunais, mas sei que até hoje me arrependo amargamente da vergonha que passei na frente das minhas amigas e conhecidos da rua.
Só sei que estava começando a gostar da sua companhia. Ele se mostrava o pai que eu nunca tive quando agia dessa forma.
Foi aí que tudo aconteceu, quando estávamos sozinhos em casa — provavelmente sua amada esposa tinha ido ao mercado, a seu pedido, para que tivéssemos mais privacidade. Lembro-me da forma violenta e brusca como entrou em mim, insaciável, comigo logo posta de quatro na cama deles, enquanto eu apanhava forte na bunda. Seu pau era muito grande, grosso e curvado para cima, com uma cabeça enorme — como eu nunca tinha visto antes. Fiquei admirada. Adorei ser tratada daquela forma. Eu era uma verdadeira puta. Esse foi o meu primeiro erro.
Minha mãe foi tomada pelo ciúme um tempo depois, claro, quando ficamos mais próximos do que o normal, e resolveu expulsá-lo de casa após um surto psicótico, com a ameaça de denunciá-lo por estupro.
Certa noite, meu amado tio ligou para o nosso número fixo. Escutei toda a conversa, encolhida atrás do sofá.
"O que você quer? Não, eu não quero voltar com você, seu idiota mentiroso. Como assim? Eu ouvi, Roberto. Através da porta do quarto dela, trancada, quando você dava suas fugidinhas para vê-la à noite, seu imbecil. Vocês planejavam fugir e me deixar aqui, sozinha! Brincadeira? Eu não sou nenhuma idiota. Você só tinha que fazer uma coisa: foder ela e me pagar por isso. Adeus."
Fui tomada pelo choque. Não imaginava que ela sabia de tudo — e, mais ainda, que os dois eram cúmplices e que eu estava sendo enganada todo esse tempo. Achava que tudo não passava de ciúmes bobos da minha mãe, e que ele voltaria com ela para que fugíssemos juntos depois. Todo o meu corpo parecia dormente, minha cabeça rodava. Dei um berro de desespero.
"Andreia? Calma, posso explicar tudo. Não é o que você está pensando."
Mais tarde, descobri que estava grávida. Sim, o bebê que eu carregava no ventre era dele.
Minha mãe faleceu, vítima de câncer de colo de útero causado pelo vírus HPV, anos depois — mas conseguiu acompanhar o crescimento da neta.
Eu já tinha 34 anos e minha filha, 18, quando ela começou a namorar um homem bem mais velho. A princípio, Juliana não quis me dizer quem era, mas achei melhor aprovar o relacionamento, já que ele era solteiro e não tinha filhos. Também não fiz muita questão de conhecê-lo — até que ela marcou um jantar na quitinete onde morava, perto de seu trabalho.
Quando me mostrou a foto dele no celular, enquanto estávamos no mercado comprando os preparativos do jantar, fiquei atônita. Quase desmaiei. Estava bem mais velho, claro, mesmo assim consegui reconhecê-lo. Como eu iria contar para minha filha que o cara com quem estava namorando era seu pai? O mesmo pai que eu inventei ter sido um caminhoneiro qualquer que nos abandonou quando eu estava grávida?
O jantar foi adiado com a desculpa de que eu não estava passando bem. Durante as semanas que se seguiram, ela fazia questão de me contar como ele era gentil, romântico, que sempre dava tudo o que ela queria, pois era um advogado bem-sucedido, vindo de São Paulo, com quem havia se envolvido numa festa, e que agora planejava retornar à cidade e levá-la junto. Mas o que mais me doía — e me deixava com raiva e enciumada — eram os relatos dela sobre como ele era bom de cama.
Porém, quando contou que tinha engravidado dele, meu mundo caiu.
Remarcamos o jantar. Roberto recebeu uma mensagem de texto dizendo que ela já o esperava na quitinete, que, quando chegasse, poderia entrar direto, pois Juliana estaria ocupada arrumando a mesa e eu ainda estava a caminho.
Ele estacionou o carro bem em frente ao portão, que estava destrancado, passou pelo pátio escuro e se dirigiu à porta entreaberta. Depois de algumas singelas batidas, antes que seu pai — tio por parte de pai e agora futuro marido — entrasse, a faca suja de sangue tremia em minha mão.
O grito dele foi ensurdecedor ao se deparar com a cena: “Meu amor! O que fizeram com você? Meu Deus!” O coração de sua amada — filha, sobrinha e agora finada esposa — repousava em um prato sobre a mesa, ainda batendo. Seu corpo permanecia sentado na cadeira à frente, com os braços pendurados como pêndulos, as pernas esticadas e o peito recém-aberto.
Ele se virou de repente para ver quem estava atrás, e eu pronunciei, com a voz trêmula e gutural:
"Você... um monstro. Por que voltou? Para destruir o que restava?"
Seus olhos se arregalaram antes que eu desferisse facadas profundas em seu peito. Queria dizer alguma coisa, mas não conseguiu.
Realmente, Roberto provavelmente não sabia que ela era nossa filha. Juliana dificilmente — ou talvez nunca — tenha falado muito a meu respeito. E ela morreu sem saber quem ele realmente era.
Quando a polícia chegou ao local, o coração dos dois jazia sobre o mesmo prato — agora era o dele que pulsava, mais ritmado e mais forte. Seu corpo estava estendido seminu no chão, com os olhos arregalados e a boca aberta, ao lado do dela.
Como seu pênis ainda era monumental, magnífico, fora dos padrões convencionais, pude observar bem isso novamente, com ele na palma da minha mão esquerda, sangrando, enquanto eu chorava no sofá da sala — quase arrependida do que fiz. Mas não completamente.
