Nesse desabafo eu vou falar sobre uma situação específica que perdurou por alguns anos, com uma pessoa específica. Eu não vou citar nomes, e gostaria de dizer que é pra manter a privacidade, mas a realidade é que eu não vou citar nomes porque eu nem sequer sei o nome verdadeiro dele, e isso me entristece muito, é como uma ferida na carne, como uma faca fincada no corpo. Mas tudo bem, vou seguir escrevendo, e no final ficará claro o porquê de, apesar de tanta dor, eu ter vindo aqui escrever sobre tudo isso. Peço um pouquinho de paciência para quem por sorte ou destino acabar por cair nesse conto, e ficaria feliz se lesse até o final. Espero que ele possa servir para alguma prevenção, para impedir que as coisas terríveis que me aconteceram aconteçam com mais alguém, e basicamente essa é a razão central que me motiva a escrever, e todo o resto são razões desta derivadas.
Na minha página de contos vocês vão encontrar alguns falando sobre um tal "porteiro", um tal hétero com quem eu mantinha relações no sigilo, aqui no litoral de SP. Ele é a pessoal na qual o conto é centrada. Eu não tenho o direito de culpar ele por nada, e isso já quero deixar claro desde o início, ok? Talvez eu seja até mesmo mais culpado do que ele, no final. Mas é por isso que eu preciso que você leia, pois o veredito será seu. Caso queira ler os contos sobre ele, vai perceber e ficará nítido o quanto os momentos que eu passava com ele causavam euforia em mim, o quanto eu adorava aqueles momentos, o quanto aquilo era para mim melhor do que qualquer outra coisa no mundo. Mas vou te avisar antes de terminar esse parágrafo que as coisas começaram a ruir de uma forma gigantesca e tudo se corrompeu permanentemente muito rapidamente. Daqui pra frente usarei palavras dolorosas, relatarei a verdade e somente a verdade, direi coisas tristes de se ler e contarei coisas pelas quais passei que não desejo que ninguém nunca passe. Se serve de consolo, aqui vai uma informação: no momento em que escrevo essa mensagem, dentro da cronologia das coisas, estou melhor,. Estou entendendo como funciona a cura. É lenta, demorada. Mas acontece. Existe cura dentro de todo mundo, incluside dentro de mim.
Julho/2022: Primeiro contato com o Lucas (Esse é o nome que ele usava no App Grindr, mas como era um perfil sem foto totalmente sem informações, e nunca consegui confirmar de nenhum jeito, nem mesmo perguntando, provavelmente não é o nome verdadeiro dele. Uma vez sonhei que o nome dele era Bruno, mas nunca irei saber ao certo). Trocamos mensagens e algumas fotos de corpo com roupa. Alinhamos expectativas em termos sexuais e ele deixou claro que não era gay ou bi, que não gostava de beijos e que era casado. Ele disse que nunca ficava com local em casa, apenas em seu local de trabalho, e que quando acontecia, era subitamente, em horários variados e repentinamente. Eu topei, disse que tudo bem. (Eu tinha acabado de fazer 19 anos. Ele alegava ter 26 anos, se não me engano. Na época não me pareceu uma ideia ruim, apesar de tudo. Eu estava com a adrenalina a 1000 no corpo e tudo parecia excitante).
Outubro/2022: Primeiro contato físico/sexual: No dia do segundo turno das eleições entre Lula e Bolsonaro, curiosamente, ele mandou mensagem e disse que se eu estivesse livre, poderia ir no trabalho dele e mamar ele. Eu aceitei na hora, me arrumei, chamei o uber e fui. Foi excelente. Senti na hora uma conexão física que nunca tinha sentido com ninguém. Fisicamente, ele me completava de um jeito que eu nunca tinha experimentado, e isso partia dele de forma espontânea, eu nem precisava pedir nada. Era natural. Não nos beijamos (nunca nos beijamos na boca, na realidade. Nunca).
Ano de 2023: Eu estava estudando em São Paulo (quem me acompanha sabe que eu sou acessor de química, e estava no terceiro ano da faculdade). Nos víamos com uma frequência média de 1 vez ao mês, pois tínhamos que alinhar 2 fatores: eu estar na baixada (quase todo fim de semana) e ele estar disponível. Nesse ano em específico eu ainda não estava associando ele a nada em específico. Eu gostava dos momentos em que havia algo entre nós, gostava de quando transávamos, gostava de mamar ele, de sair de madrugada pra ver ele ou de mamar ele no carro dele. Mas era só isso, dificilmente pensava nele durante o dia a dia. Meu cotidiano passava sem que eu sequer pensasse nele. Inclusive nesse ano cheguei a me apaixonar por um colega de classe da faculdade, esquecendo completamente do "Lucas" por algumas semanas/meses. Ele ainda não representava nada além de algo físico momentâneo.
Ano de 2024: Era meu último/penúltimo ano de faculdade. Eu estava com algumas pendências de estágio no curso, e por isso o diploma iria atrasar um ano, mas eu iria para o litoral ainda sim no ano seguinte (em 2025). Eu agora trabalhava em sp, e estudava em Suzano (cidades próximas). Todo final de semana eu vinha para Praia Grande. Nesse ano as coisas começaram a mudar sem que eu percebesse. Um certo tipo de ansiedade/queimação começou a surgir em meu peito. Nossos encontros começaram a ficar mais frequentes, na taxa de 2 por mês, em um certo mês foram 3 ao mês. Eu mandava mensagem para ele com mais frequência, ao invés de esperar somente o contato dele. Ele já quase não vinha mais até mim, como antes. Quando eu recebia uma mensagem dele mas estava em Suzano, isso era motivo de um certo desconforto. Não poder estar com ele, o que era estranho, já que desde o princípio era consenso entre nós que não havia um "nós". Conforme o ano de 2024 progrediu até dezembro, percebi que a cada encontro, meu corpo que antes não pensava em nada depois dos momentos começou a reagir de forma diferente, como se estivesse entrando em um ciclo de dependência química por ele, pelas coisas que ele provocava em mim. O ciclo no começo era leve, pouco pronunciado. Tinha uma duração total de um mês e meio, mais ou menos. Até que era tolerável, já que eu era um cara ocupado. Passava batido, até. Funcionava assim: 1) Eu encontrava o Lucas. 2) O prazer me deixava tranquilo e satisfeito. 3) O prazer ia passando. 4) O corpo começava a querer saber quando ia ser a próxima dose. 5) O corpo começava a exigir a próxima dose imediatamente. 6) O corpo não se preocupava mais com a próxima dose. 7) Mensagem do Lucas/Eu mandava mensagem 8) Prazer momentâneo 9) Ciclo reinicia
Ano de 2025
E é aqui, meus amigos, que a coisa fica realmente ruim
Para quem já achou que a coisa estava intolerável antes, sinto muito. Mas aqui em 2025 as coisas vão piorar em 2000%. Aqui vão acontecer coisas intoleráveis.
Início do ano: alguns encontros. Começo a dar aulas no litoral.
Meio do ano: o intervalo do ciclo diminui para 1 semana. Com menos ocupação, fica difícil ignorar ele ou deixar passar batido. Ansiedade severa. Sintomas físicos insanos. Muitas vezes fiquei incapacitado de trabalhar por entrar em estado de estupor.
Julho: Aqui preciso ser específico porque preciso mostrar pra você o quanto uma pessoa pode causar danos em seu esppírito se você permitir, como foi meu caso:
Perdi a capacidade de suportar sons altos ou sons repetitivos
Dificuldade em suportar toques físicos
Não conseguir frequentar lugares cheios como mercados, ruas, etc
Sensibilidade aumentada para claridade, luz do sol, lâmpadas, televisão
Ouvir o nome Lucas, ler ou qualquer coisa do tipo causava falta de ar
Esses foram os sintomas que tive que me entristeceram porque mostraram o quanto eu tinha perdido, o quanto eu tinha aberto mão. Até então eu e Lucas ainda nos víamos. Escolhi levar a situação a diante, achando que iria passar, que isso tudo era estresse pelo trabalho, e que se eu esperasse mais um pouco, Lucas perceberia o quanto eu estava me entregando a ele e iria ceder um pouco também e então tudo iria melhorar.
Agosto de 2025: Os sintomas acima aumentaram muito. Comecei a sentir um tipo estranho de falta de ar, presente em 100% do dia (deitado, sentado, falando, andando, enfim, em 100% do tempo). Experimentei 1 maço de gudan pela primeira vez na vida e foi a melhor coisa do ano. Acalma muito, a pressão cai e a ansiedade vai embora em segundos. Nos intervalos entre as aulas, eu ia no jardim fumar com os outros colegas. Ou ficava sozinho no muro encostado na parede fumando, pensando na vida.
Setembro de 2025: Os sintomas aumentaram. Eu tinha o hábito de escrever, pintar telas (com tinta a óleo) e de ir pra Suzano de vez em quando pra ver meus amigos. Comecei a não conseguir mais fazer essas coisas. Minhas mãos tremiam. Minhas mãos tremiam muito, muito. Não conseguia mais segurar um pincel. Viajar ficou impossível, mesmo uma distância relativamente curta de 100 Km. Eu sentia que iria me perder. Que não conseguiria voltar para casa. Qu nunca mais iria achar o caminho de volta. Na vez que tentei, errei o caminho e peguei o metrô errado 3 vezes por não conseguir ler as placas. Desci a serra e voltei pro Litoral. Não conseguia mais me orientar no espaço. Não conseguia mais ficar no mercado. Estar na rua era sensação de perigo. Qualquer notificação de som no celular me deixava em alerta. Eu colocava o celular pra despertar a cada 20/30 min pra ver se o Lucas não tinha mandado mensagem na madrugada. Diante de tudo isso, recorri a um amigo que tinha medicamentos em casa e ele me deu algumas caixas de analgésicos. Analgésicos são pra dor, mas eles dão uma "brisa" eufórica que corta a ansiedade. Usei altas doses de morfina de setembro de 25 a novembro de 25. Uma das vezes usei uma dose tão alta que quase cheguei no coma. Um amigo me encontrou em casa quase sem respirar e todo azul. Ia pro trabalho dopado de ópio. O ópio não te deixa bebado. Te deixa sem ansiedade. Eu conseguia ensinar química normalmente. A morfina tirava o Lucas da cabeça, entende? Eu não queria a euforia. Eu só não queria a dor.
Outubro 25: No final de outubro, descobri que a falta de ar que eu estava sentindo era por conta de uma pneumonia avançada que eu estava. A pneumonia tinha se instalado nos dois pulmões e progredido por conta das semanas que eu tinha ignorado. O uso de morfina tinha mascarado a falta de ar, e por isso não tinha mais ido buscar tratamento. O médico me prescreveu um longo tratamento. Cheguei em casa e deitei na cama. Era um domingo. Chorei como nunca, pela primeira vez no ano. Minha imunidade estava baixa porque eu não vinha me alimentando, não sentia fome (efeito colateral da morfina e dos outros remédios que estava usando pra ansiedade). No dia seguinte, segunda,. estava deitado na cama, olhando para a parede e chorando. Pedindo a Deus para morrer naquele instante. Pensando em como iria trabalhar. Em como iria levantar. Mal conseguindo respirar. Sem oxigênio no sangue. Levantei. Tomei banho. Coloquei uma roupa básica adequada para dar aula. E andei até a escola enquanto fumava um gudan.
novembro de 25/dezembro: pneumonia entrou em remissão depois de 6 benzetacis, 2 semanas de vários antibióticos e outros medicamentos. A falta de ar passou. Os gudans continuaram. Continuei a visitar o amigo que me fornecia medicamentos toda madrugada, quase sempre só pra bater papo, ver desenhos antigos da MTV e falar besteira. Em um dos dias de novembro, cheguei lá já dopado de morfina. Misturei com outros medicamentos. Tomei mais morfina. Ele me ofereceu uma skol beats e eu aceitei. Entrei quase coma pela segunda vez.
dezembro de 25: depois de estar perto da morte mais uma vez, entendi que a situação com a morfina, o cigarro e o Lucas iriam mesmo acabar me matando. então eu precisaria mesmo acabar com a situação, ou a situação iria me matar de overdose em algum momento. No dia 26/12 fumei o último cigarro do ano e descartei o restante do maço e o isqueiro em uma lata de lixo.
janeiro de 26: Lucas e eu nos vimos pela última vez na primeira vez do ano. Algo em meu corpo parecia saber que era a última vez. Foi diferente de todas as outras vezes. No dia 28/01/2026, ele sumiu para sempre, sem deixar qualquer vestígio de sua existência em minha vida. Entrei em choque. Durante 1 hora, não consegui me mexer. Dpois dessa 1 hora de esupor, achei 1 caixa de analgésicos e tomei uma dose alta. Deu enjoo, mas depois entorpeceu a mente. Capotei. Acordei. O mundo sob meus pés havia sumido.
fevereiro de 26: na primeira semana, consegui com meu amigo várias caixas de morfina e usava elas para passar os dias com a dor num limiar tolerável. Deu certo. Todos os sintomas que eu citei antes ainda estavam lá, claro. Mas eu conseguia funcionar: trabalhar bem. Pagar contas. Sorrir pro chefe. Ser eficiente. Mas em casa, cheguei a passar dois dias inteiros sem comer. Chorar por nada. Perdi 19 Kg de dezembro para fevereiro. Nesse mês algo curioso aconteceu: meu cérebro tentou meio que apagar o rosto dele. A voz. As memórias. Tudo virou letras, como se fossem textos. Irreais. Tive até dúvidas se foram mesmo acontecimentos meus ou coisas que li em livros.
março:
dia 01 de março: acordei diferente. senti que se continuasse assim, iria morrer ainda naquele ano, talvez naquele mês. 22 anos é uma idade nova para se morrer. como eu disse, Lucas não teve culpa de eu ter feito tudo o que fiz, ele sempre foi honesto. Sei lá, eu sou suspeito para falar, pois sou parte envolvida. Nesse dia, joguei fora toda a morfina. Fiquei só com os calmantes.
Os 5/7 dias que se sucederam só posso descrever como uma coisa: o inferno na Terra.
A abstinência de ópio (morfina) é um tipo de dor que não tem como ser descrita, é algo que só quem sente sabe como é. Ela dói no espírito. Na carne. Na alma. Na mente. Ela dói em tudo. Ela dói o tempo todo. Ela dói 24h/7d/30d. É como se o preço por todo o alívio fosse cobrado 200x maior em 30x menos tempo. Durante esses dias, essas semanas em que retirei subitamente a morfina, eu desejei morrer. Desejei não ter pessoas que me amassem para que eu pudesse pegar uma faca e cortar os pulsos. E por Deus, eu faria isso se aquela dor fosse cessar. Desejei sair na rua de noite e ser morto por um assaltante só para que a dor passasse. O terceiro dia foi o pior de todos. O píor. No terceiro dia, parecia que o demônio em pessoa estava me torturando. Eu sentia dor em cada célula de meu corpo. Eu chorei como nunca, e de forma silenciosa. Eu chorei por tudo. Por tudo que vocês leram até aqui. Pelo que fiz, pelo que não fiz.
Março (última semana, esses dias): estou bem melhor do que antes. Ainda devo ter algum resquício de sintoma da abstinência no corpo, é claro. Leva semanas a meses pra passar. Mas o pico (95%) já passou. Sobre o Lucas? Bem, eu sei que isso vai demorar pra parar de doer. Mas no dia 01 eu joguei fora tudo o que tinha de físico em casa relacionado a ele. No celular, apaguei tudo relacionado a ele. Tudo, tudo. Hoje estou percebendo que a cura é difícil mesmo. Que destruir algo é rápido, sim. Que quebrar as coisas é fácil, que matar é fácil. Mas que curar pode levar uma vida inteira, gerações. E que curar requer perdão, paciência, cuidado. E eu estou trabalhando nisso. Dessa vez sem medicamentos. Somente vitamina C e ferro pra tratar a anemia que peguei, mas fora isso... Sem nada demais. Ontem consegui abrir o baú de pintura pela primeira vez e pintei uma rosa com tinta a óleo. Voltei a tomar café com leite. Tentei ir no mercado. Fui, comprei algumas coisas. Não forcei a barra. Fiquei o tempo que era confortável, e depois fui pro caixa e voltei pra casa.
E é isso. Espero que ninguém nunca passe por isso, do fundo do coração.
Eu errei muitas e muitas vezes, a começar em 2022 por deixar alguém assim entrar em minha vida
Não posso culpar ele pelos erros que eu cometi ao longo dos anos
Mas posso aprender a tentar me perdoar aos poucos e aprender a conviver com as cicatrizer e me curar
Esse ano ainda não tive contato sexual com nenhum homem, e talvez nem tenha... Estou dando um tempo, meu corpo sente receio sempre que um homem toca em mim. Também trabalharei isso. Mas quem sabe não volte a escrever aqui? Então eu não direi adeus. Direi somente até breve. Sim, até breve.
Gosto demais dessa comunidade.
Abraços, galera!