Nestas cidades e vilarejos que recortavam a paisagem apocalíptica e sem esperança, as pessoas não pensam mais em ter dinheiro. Na verdade o dinheiro perdeu todo o seu valor. Produtos industrializados, pães e comida mais elaborada, isso pertencia a uma raridade de pessoas que se deslocaram para as ilhas e, por lá, criaram verdadeiros impérios.
Havia uma sociedade secreta dos Soberanos que, ao longo de vários anos previu e alertou sobre a crise. Eram um grupo formado por pessoas estudiosas, cientistas e com perfil dominante. Ao mesmo tempo que denunciavam o que estava por vir, perceberam que as pessoas não se importavam com aquilo e continuavam suas formas de viver sem alteração de nada. Notando que não era possível salvar a todos de seu egoísmo e de sua ganância, esse grupo simplesmente desistiu de alertar.
Os Soberanos passaram então a criar uma rede de colaboração entre eles e, por décadas, criaram lagos artificiais, pequenas indústrias e espaços totalmente sustentáveis em ilhas, um pedacinho do paraíso na Terra. Sistematicamente se retiraram dos continentes e acompanharam, ainda secretamente, governos caírem, a fome, a guerra e o desespero colapsar todos os continentes. E, assim como eles planejaram, as pessoas passaram a destruir seu ambiente ao invés de se unirem para recuperar seus espaços e recomeçar. Em 2150, as pessoas que ainda moravam ou tentavam sobreviver nos continentes decretaram o Colapso Global. Não havia mais países, nem governo, nem dinheiro e nem bens. As pessoas simplesmente passaram a se agrupar em grupos menores para buscar as infraestruturas mais resistentes que sobraram. Haviam poucas cidades e vilarejos pelo mundo, e pequenas metrópoles onde um dia haviam centenas de milhares de pessoas um dia.
Só depois do colapso, após mais algumas décadas, as pessoas dos continentes tiveram notícia da existência da Sociedade Secreta dos Soberanos e dos cinco impérios insulares pelo mundo: Ilhas dos Soberanos do Norte; Ilhas dos Soberanos do Sul; Ilhas dos Soberanos do Pacífico; Ilhas dos Soberanos Nórdicos e Ilhas dos Soberanos. Durante todo aquele tempo, essas ilhas se conectavam, se ajudavam e até cogitavam se meter nos problemas do mundo novamente. Mas sabiam que nada seria capaz de salvar as pessoas. O tempo de mudança tinha passado há décadas e o jeito foi assistir à tudo e a todos ruírem.
Nos continentes, devido ao fato dos Soberanos terem optado por não mais intervir, essa sociedade secreta ficou mais conhecida como Soberanos do Fim do Mundo. E nos primeiros anos eles eram interpretados como um risco às metrópoles que sobreviveram. E, por isso, um das ilhas dos Soberanos do Norte chegou a ser atacada. Porém, sem armamento adequado, sem estratégia, com fome e de forma desesperada, os invasores foram dizimados em minutos. Isso porque não era mais possível surpreender. Os barcos eram itens raríssimos, praticamente todos eram das Ilhas e os poucos que não pertenciam à frota marítima eram afundados ou vigiados por satélite.
Avião? Era muito dispendioso para colocar no ar. Mesmo que ouvissem histórias de que pessoas estariam trabalhando para voltar a voar no meio da Sibéria, eles sabiam que não conseguiriam voar por tanto tempo. Não havia mais indústria produtora de querosene ou combustível para aviões. Sem dizer que as ilhas dispunham de um verdadeiro arsenal de defesa para proteção. E a ilha mais próxima de um continente ficava há mais de 300 quilômetros sendo impossível de ser atacada por estruturas arcaicas. Fora que as pessoas dos continentes, por mais que odiassem os Soberanos, estavam mais preocupados com a sobrevivência do que atacá-los. Sem dizer que os Soberanos nunca atacaram nenhum lugar no planeta.
Porém, devido às massas de ar tóxicas, os Soberanos, que não podiam se deslocar por estarem em Ilhas, pesquisaram e produziram uma pílula que gerava uma proteção às toxinas presentes no ar. O problema é que essas pílulas tinham efeitos colaterais que causavam alterações físicas e comportamentais como: maior prepotência das mulheres sobre as outras pessoas; leitura e controle mental das mulheres sobre homens e mulheres submissas ou subalternas; infertilidade masculina; obediência extrema entre homens e mulheres submissas e afloramento do bissexualismo entre mulheres.
Por anos houve debate sobre se era ou não arriscado usar essas pílulas, sabendo das pesquisas e dos resultados. Mas foi a Grande Massa Tóxica Polar se direcionar para todo o Império, somado à impossibilidade de sair da ilha, para que todos acabassem tomando a pílula. Os que se recusaram a tomar e tentaram criar outras formas de combater o ar tóxico acabaram morrendo. Poucos acabaram saindo da ilha por se recusarem a tomar a pílula e temerem a morte, mas saíram sabendo que não seriam mais aceitos pelo Império. Após duas semanas, a Grande Massa passou e a sociedade passou a ter um novo comportamento.
Nos primeiros anos da pílula, as mulheres mais poderosas passaram a se tornar Rainhas dos Impérios. Não houve guerra, não houve discussão ou qualquer outra situação conflitante. Elas simplesmente tinham acesso às mentes das outras pessoas de todo o império e perceberam esse poder. E não só isso, faziam, mesmo que as pessoas não quisessem ou concordassem, com que elas aceitassem seu poder. Não havendo ninguém acima das Rainhas, nada podia lhes tomar o poder.
Abaixo das Rainhas havia uma hierarquia baseada no controle e leitura de mentes. Se uma mulher lê a mente da outra, ela sabia que a outra não conseguia ler a sua. Então, automaticamente, esta mulher já se colocava à sua disposição para evitar ser punida ou usada pela mais poderosa. Afinal, nesta leitura era possível saber se alguém planejava dar algum golpe ou se tinha algum interesse na obediência. A transparência passou a ser algo extremamente comum. Porém, nenhum homem conseguia ler ou controlar a mente de outra pessoa e passaram a ser controlados ou, nos casos dos indignos - pessoas que planejavam algum atentado ou não concordavam com suas superioras - o caminho era o banimento ou a morte.
Essa reorganização durou alguns meses e foi natural. Porém, por conta da hierarquia, as pessoas mais lidas acabaram tendo que fazer os trabalhos mais duros, sujos e severos. Mulheres submissas e homens passaram então a fazer parte da base da sociedade. Acontece que isso gerou espaços na sociedade dos Impérios Insulares. Era necessário integrar pessoas dos continentes à estrutura.
Ao mesmo tempo, era necessário ver a questão sexual porque as Rainhas passaram a se tornar lésbicas e a dominar suas subalternas. Quanto maior a submissão apresentada na leitura mental, maior o interesse das Rainhas, exigiria menos controle mental e maior satisfação sexual. Por isso, as Donas das ilhas passaram não a procurar a número 2 para tornar suas escravas sexuais, mas pessoas da base da estrutura para se satisfazerem. Ao mesmo tempo, as outras mulheres abaixo da hierarquia faziam o mesmo. Os homens eram os mais facilmente controlados por qualquer mulher, até mesmo a mais submissa de todas que tivesse tido acesso à pílula, conseguiria ler e controlar um homem que também tomou a pílula para tarefas de casa, de rua, militar ou mesmo sexual.
Tudo isso gerou uma espécie de mercado paralelo de submissas e homens. Mulheres queriam casais cada vez mais submissos para que o homem fizesse o trabalho delas e a submissa lhe proporcionasse prazer extremo. No final, o casal poderia ainda lhe gerar filhos, que eram analisados com o mais alto rigor para saber se as pílulas pudessem lhes conferir algum poder secreto, algo que logo foi desvendado - sem pílula, sem poder algum, mesmo em descendentes. Os filhos desses casais eram, então, condicionados desde sempre a obedecerem. Suas mentes eram lidas o tempo todo por qualquer um da sociedade, mas por não tomarem pílulas, não podiam sofrer controle mental. Até que uma nova massa de ar tóxico se avizinhava e eles tomavam sua pílula. Se homem, era base de tudo. Se mulher e se não oferecesse riscos à Rainha, ela era posicionada na hierarquia. Se oferecesse riscos, era morta pelo ar tóxico.
Assim, ninguém que tivesse nascido antes ou após a pílula, ficava sem ela. E para solucionar os espaços que eram gerados na sociedade um grupo de homens e mulheres passaram a visitar metrópoles continentais lhes prometendo uma vida melhor que no continente. Inicialmente isso foi visto como ameaça pelos continentais e os Soberanos passaram então a buscar vilarejos e áreas com grupos menores. Em meio a esse processo, eles notaram que não só entre os membros de sua comunidade, mas também fora dela, era possível ler qualquer mente das pessoas que não tomaram pílula. Eles - homens e mulheres - liam desde os interesses básicos aos sonhos, desejos, taras, expectativas e se representavam perigo ou não a eles. Porém, não era possível controlar quem não tomou pílula.
Isso gerou uma segunda situação. Os homens, ao notar que tinham esse poder sobre quem estava nos continentes, passaram a tentar fugir quando estavam sem Soberanas por perto, após dezenas deles conseguirem fazer isto, as mulheres passaram a chefiar as missões e controlar a mente daqueles que pensavam em se aproveitar daquilo.
Mas ainda assim haviam relatos de fugitivos. Por isso, para que eles não representassem uma ameaça futura. As Rainhas decretaram que qualquer Soberana (mulher que tomou a pílula) poderia eliminar um Soberano (homem que tomou a pílula) sob sua tutela, caso houvesse o flagra desse pensamento. Foi uma época em que era comum as Soberanas controlarem mentalmente os homens que pensavam na fuga a irem para o meio dos acampamentos ou embarcações e tirassem sua própria vida. Rapidamente a ideia passou a ser algo que eles não queriam ter e quando surgia na mente, eles demonstravam total obediência no afã de não serem postos para se eliminar em meio aos demais.
Um continental até poderia tomar a pílula. Mas antes era necessário provar sua fidelidade ao Império. Por isso, aqueles que topavam uma nova vida nas Ilhas, passaram a ser levados para uma das ilhas com menos infraestrutura e mais isolada das principais - ainda assim um luxo se comparado com o continente - após passarem por um processo de leitura mental para analisar se não representariam algum risco à sociedade Soberana. Os que não se adequavam, durante o processo de análise, eram simplesmente ignorados e deixados no continente.
Feito isto, eles tinham o chamado "Prazo de Validade", inicialmente trabalhavam com lixo, tarefas com maior esforço físico ou que quase nenhum Soberano ou Soberana tinha o interesse de fazer. Tudo isso por cinco anos. Após esse tempo, quem tivesse o interesse de pleitear o título de "Não-Soberano", era encaminhado à um centro de treinamento e testes gerais em que era submetido à todas as possibilidades que um homem poderia passar, estando abaixo de um Soberano, inclusive. Caso atingisse o mínimo exigido nos testes, ele receberia sua pílula, sairia da ilha mais precária e se integraria ao Império, sendo controlado por todas as mulheres e tendo de obedecer a todos os homens Soberanos. Depois do prazo vencido, por não aceitarem fazer o teste ou sendo rejeitado no teste, o continental retornava ao continente ou, muita das vezes, eram eliminados se representassem ameaça futura.
No caso das mulheres, após os cinco anos elas eram enviadas ao centro de treinamento e testes gerais feminino e lá eram analisadas por várias hierarquias de Soberanas. Além disto era posto à prova o nível de obediência com leitura mental em tempo real. Isso permitia perceber qual seria a sua hierarquia e se isso era do interesse do Império. Por isso, seu teste era muito mais profundo e intenso. Quase sempre a pílula não era concedida, mas se houvesse o interesse de alguma Soberana em "adotar" uma continental, esta seria registrada e encoleirada pela interessada e deveria obedecer a absolutamente tudo. Seus pensamentos seriam lidos frequentemente por sua Soberana que deveria comunicar às Superioras sobre qualquer situação de risco. Era impossível esconder alguma situação para proteger uma continental.
A pílula era algo que apenas a Rainha tinha acesso. Por isso, nenhuma outra pessoa do Império sequer sabia onde as pílulas estariam. Os cientistas que ainda fabricavam a pílula eram controlados pela Rainha de forma diuturna e eram condicionados a entregar tudo à ela, que guardava o material distante deles. Qualquer pensamento breve de esconder ou tentar burlar o sistema e a vida era tirada. Os mais submissos eram os que ficavam nessa tarefa. Preferencialmente homens.

angelabaixinha