Ontem eu ouvi dizer que alguns deles visitaram o Vilarejo da Mancha. Até falei pra Fabiana, que eles não visitam, eles invadem e levam as pessoas sabe-se lá pra onde. Antes dela, outra amiga, a Júlia, falou o mesmo. Que eles visitam, sei. O fato é que tem algo errado nessas visitas e eu ainda vou descobrir.
Mas é complicado, as pessoas também não se ajudam. Mês passado, um grupo de pessoas afirmou que encontrou gasolina dando sopa no Pico do Talismã. Fazia tempo que eu nem ouvia mais essa palavra: gasolina. Pra ser sincera, eu nem sei pra quê serve. Dizem que é pra fazer os veículos funcionarem. Eu cheguei a ir para as redondezas de Talismã. Devia haver umas mil ou duas mil pessoas reunidas esperando a tal da gasolina. No final nada apareceu e as pessoas saíram no tapa se ofendendo, dizendo que mentiam mais uma vez. Mas ninguém sabia dizer quem falou sobre aquilo. Acho até que ninguém sabe mais para que serve a tal gasolina, mas brigam por ela.
Minha barriga agora dói. Faz dois dias que não encontro nada. Apenas água, muita pouca água. Nosso grupo tem se revezado para tentar caçar lagarto ou qualquer bicho que possa diminuir nosso incômodo. Como eu gostaria de dar de cara com uma floresta de novo. Que nem aconteceu uns dois meses atrás. Comemos até lasca de tronco, minhocas e umas folhas. Só não ficamos mais porque um grupo maior surgiu e nos sentimos ameaçados. Saímos sem eles perceberem nossa presença, eu acho.
Mas o que eu queria escrever mesmo é que tem algo esquisito aqui e se alguém encontrar esse pedaço de papel, que tenha piedade de nós e nos ajude. Somos um grupo pequeno e a cada dia que passa sinto que não vamos durar muito. Sou a mais jovem e tenho 20 anos, depois de mim tem a Jucelia, com 29. Se vocês puderem ajudar, a gente sempre está no Morro do Triunfo. Venha...
- KIARA! KIARA!
- Oi Jucélia, o que houve?
- Maria quer saber o que você tanto faz sozinha, sabe que não é adequado ficar distante.
- Eu sei, eu estou pensando apenas - respondia Kiara escondendo o pedaço de papel.
- Você não está fazendo aquilo de novo, né?
- O quê?
- Escrevendo.
- Não, só estou pensando mesmo.
- Ótimo, venha pro grupo, acharam algo pra comer.
Mais que depressa, Kiara saiu de onde estava, pegou suas poucas coisas e correu junto com Jucélia até o restante do grupo que se autodenominava "Astros". Tratava-se de pessoas nômades que circulavam entre o que já foi a Espanha e Portugal por anos. Seu circuito era bem definido, não iam ao interior do continente por ser repleto de riscos e evitavam de ficar tanto tempo parado. Sempre havia o risco de mercenários ou grupos armados surgirem para tomar, roubar ou até mesmo matar ou abusar de pessoas. O Morro do Triunfo era uma espécie de base, no qual a cada 15 ou 20 dias reapareciam para recarregar suas garrafas e descansar. O local ficava após um desfiladeiro e, por isso, lhes dava vantagem de defesa, caso fosse preciso.
No passado, o grupo Astros era bem numeroso, coisa de milhares de pessoas, e representava medo aos demais. Porém, por se interessarem em conflitos e estabelecer um território, o grupo acabou sendo alvo de vários outros. Atualmente haviam cerca de 50 integrantes, grande maioria de homens. Havia código de honra e com o passar do tempo, a ideia de território foi abandonada. Alguns outros grupos chegaram a selar a paz, mas outros ainda tinham sede de vingança. Alguns desertores preferiram se fixar em vilarejos ou cidades das regiões. A ideia de pertencer a grupos nômades não era mais tão apreciada quanto no passado.
Kiara era uma mulher de 20 anos e desde sempre foi ensinada a não confiar ou acreditar nos Soberanos. Sempre foi extremamente obediente aos mais velhos e também fazia absolutamente tudo que lhe era pedido sem questionamentos. Embora ficasse muito tempo exposta ao Sol, Kiara encontrava formas de cuidar da pele e era, sem dúvidas, a pessoa mais linda daquele grupo. Alguns dos homens eram loucos para poder ficar com ela, mas o problema para eles é que ela nunca demonstrou nenhum tipo de interesse por homens. Kiara era lésbica, mas não tinha quase nenhuma experiência com qualquer nível ou tipo de relacionamento.
Ela tinha 1,55 de altura, era magra, de pele clara. Tinha olhos e cabelos castanhos, seios pequenos, quadril médio e uma pele surpreendentemente lisinha e bem macia. Evitava tocar ou permitir que outros tocassem em seu corpo porque sabia que isso poderia deixar os homens mais excitados ainda. E tudo que ela queria evitar era que eles a desejassem mais ainda. Por isso, sempre estava vestida com roupas militares ou alusivas a isto ou envolta a panos e proteção solar. Quanto mais escondida ficava, melhor para ela.
Mas ao mesmo tempo que tinha noção do que causava nos outros, Kiara era sonhadora e acreditava que alguém poderia lhes ajudar. Por isso, sempre que conseguia ter acesso a pedras ou material que manchasse papéis ou tábuas, ela escrevia um pedido de socorro e ajuda.
- Aqui está Kiara, graças à Orlando, conseguimos uma carne de maior sustança - disse Maria ao entregar uma pequena vasilha com caldo e um pedaço de ave.
- Obrigada, Orlando! - disse ela.
- Não por isto, Kiara! - respondeu.
Orlando tinha 41 anos e era um dos membros mais respeitados do Astros desde que passou a fazer parte. Mas o que pouca gente sabia é que, quando o grupo chegou ao ápice e eles tocavam o terror na região, Orlando passou a chefiar grupos de homens que se aproveitavam de mulheres de grupos dominados. Por anos, a fama do grupo era associada a isto e só acabou quando o próprio Orlando resolveu culpar um de seus colegas mais próximos pelos seus pecados e erros, resultando na morte do mesmo.
Entre os Astros, Orlando recuperou a moral e deu a entender que nunca foi favorável ao antigo comportamento. Porém, nos grupos que sofreram algum tipo de ataque, sua face não era esquecida. Havia inclusive alguns homens e mulheres que sonhavam em poder se vingar do que ele fez.
- Ele é tão bonito, amiga. Eu daria tudo pra ele me ver como te vê! - cochichou Jucélia à Kiara revelando um desejo antigo de Orlando, que era ter Kiara como sua esposa.
- Aff, você só pensa nisso. É tão bom ficar assim, livre pra fazer o que quiser.
- Livre? Morrendo de medo dos outros grupos? - discordou Jucélia.
- Você entendeu o que eu quis dizer.
Durante aquela noite, nada de importante aconteceu além do cotidiano. Na manhã seguinte, Kiara acordou mais cedo que o habitual e foi até Jucélia. Cutucou querendo acordá-la, mas ele resmungou e não abriu os olhos se virando para o lado. Então ela se dirigiu até Júlia, que até acordou querendo saber o que ela queria. Mas ao ser avisada que queria sua companhia para poder ir ao lago, Júlia mandou Kiara voltar pra cama e ignorou o pedido.
Irritada e com vontade de beber água, Kiara então resolveu ir sozinha até o lago. Entre os Astros, uma mulher nunca poderia sair da área de acampamento sozinha. Ela pegou uma cuia e seguiu a trilha por aproximadamente 500 ou 600 metros em meio a pedras e pouco mato seco. Quando estava para chegar no lago, viu um movimento próximo da margem, mais distante e se abaixou com medo.
- Merda, merda, merda! - disse arrependida por estar sozinha.
Ela ergueu a cabeça tentando saber o que poderia ser e então viu a silhueta de um homem, estava distante mas ela poderia apostar que se tratava de Orlando.
- Ué, mas ele deveria estar no desfiladeiro, não aqui. Quem vai proteger o grupo?
Mas Orlando não estava sozinho, duas ou três pessoas estavam conversando com ele. Aparentavam estar bem vestidos e portavam armas do tipo metralhadora, algo incomum para a região.
- São Soberanos? Aqui? Estamos tão distantes da margem!
Eles então começaram a caminhar rumo ao acampamento. Kiara, assustada e sem poder retornar, resolveu se deitar torcendo para que o mato seco pudesse lhe esconder. Para sua sorte, o grupo não retornou na mesma trilha que ela e, muito provavelmente não tinham ideia de que ela poderia estar por ali.
O grupo passou tranquilamente a uns 50, talvez 100 metros de distância de onde ela estava. Curiosa, ela levantou o rosto e quis ver. Ela não acreditava que Orlando estaria caminhando com os Soberanos em direção ao acampamento. Mas ao espiar se expondo o suficiente para o olho captar a imagem, ela se deitou com força novamente e se assustou.
- SÃO SOBERANOS! - pensou e não conseguiu fazer mais nada.
A sede, que antes lhe incomodava, sumiu. Quando o grupo passou e se afastou, Kiara se rastejou atrás. Ela tinha ouvido dizer que os Soberanos não podem lhe ver, pois de algum modo eles previam o que você iria fazer na sequência. Mas sem te ver, isso não era possível. Porém, por mais rápido que ela pudesse se esfregar ao chão para chegar ao acampamento, os passos dos Soberanos e de Orlando eram muito mais velozes. Para piorar, ao chegar próximo, o quarteto correu.
Kiara então resolveu se levantar, estavam distantes. Foi quando ela viu os Soberanos mirarem suas armas para os sentinelas do grupo. Depois, um dos Astros tomava tiros e caía no chão. Logo o suspense se tornou em terror e ela, à distância, viu os Soberanos reunirem todo seu grupo num estalar de dedos. Percebendo que seria notada sua ausência, Kiara correu para o outro lado se afastando do lago. Ela queria se aproximar e ver o que aconteceria.
Mas em minutos, parte do grupo Astros tentou revidar e antes que pudessem pensar em algo, os Soberanos, cientes do que poderiam fazer contra eles, eliminavam o risco com uma facilidade tremenda. Orlando, na frente do grupo, entregou seus pertences em sinal de obediência, indicando que era o melhor a fazer. Alguns fizeram o mesmo, mas ainda havia o receio de outros. Maria, Jucélia, Júlia e outros membros foram instigados a obedecer pelos Soberanos, mas recusavam e tentavam revidar. Acabavam sendo mortos. Kiara então ficou inerte, em segurança, olhando tudo aquilo.
O grupo de 50 tinha sido reduzido a 20, os Soberanos então algemaram cada um deles e fez uma fila indiana. Orlando, que até então parecia auxiliar os Soberanos, foi algemado nos pés e mãos, o que lhe causou estranheza.
- Mas o que vocês estão fazendo?
- Pelo que você fez a outros grupos e por não ser confiável ao ponto de entregar seus companheiros, você será punido pelos seus inimigos!
O grupo e Kiara se surpreenderam com aquela notícia. Como Orlando poderia ter feito isso com os Astros? Logo ele. Seus companheiros chegaram a querer bater nele e alguns pediram a morte por conta da traição, mas sob domínio dos Soberanos, que liam suas mentes e analisava todo o cenário, eles simplesmente puxaram as correntes levando o grupo dali com Orlando ficando mais atrás, fazendo maior esforço.
Só depois de saírem, Kiara desceu de onde estava e não acreditou no que viu. Todos os que ela conhecia estavam lá, mortos ou tinham sido levados pelos Soberanos. Ela chorou copiosamente, especialmente porque Jucélia, que na verdade era seu verdadeiro amor que jamais havia sido consumado, tinha sido assassinada. Por um instante ela sentiu orgulho por ela não ter se entregado, mas ao mesmo tempo vergonha por não ter tentado fazer algo.
Sem ter muito o que fazer, Kiara cobriu os corpos como deu, reuniu as coisas mais úteis que o local lhe oferecia, foi ao lago matar a sede e recarregar suas garrafas e fez uma promessa:
- Eu prometo que eu farei de tudo para acabar com os Soberanos!
Continua...

angelabaixinha