BERNARDO [01] ~ INICIO

Passava da uma da manhã e eu ainda estava com o celular na cara, rolando o feed do Facebook, vendo a vida alheia parecer mais interessante que a minha. Amigos postando fotos de festas, de beijos roubados debaixo de luz de rua, de declarações melosas para namoradas e namorados. Eu tinha dezoito anos, era Peixes — o que, segundo minha irmã, explicava minha mania de viver mais dentro da cabeça do que no mundo real — e não tinha a menor ideia de como seria beijar alguém que eu realmente quisesse beijar. Tinha meus fones de ouvido tocando baixinho um álbum do Sam Smith que eu tinha baixado escondido, porque até isso eu escondia, como se gostar daquela voz fosse revelar alguma coisa sobre mim que eu não estava pronto para assumir nem pra mim mesmo.
Devia dormir. No dia seguinte era meu primeiro dia de aula na universidade, e eu sabia que precisava estar descansado, mas o sono não vinha. Vinha só aquele frio na barriga de sempre, misturado com uma vontade que eu nunca soube nomear direito: vontade de ficar com alguém, de verdade, e o medo de que isso nunca fosse acontecer, porque eu tinha decidido, ainda sem saber bem quando, que era mais seguro viver fingindo que aquela vontade não existia. Só desliguei o celular quando meus olhos já ardiam de cansaço.


Belo Horizonte, 3 de março de 2014.


Abri os olhos preguiçosamente enquanto o despertador do celular gritava ao lado do meu travesseiro. Os primeiros raios de sol invadiam a janela do meu quarto e traziam consigo a promessa de uma nova etapa da minha vida. Fiquei um tempo olhando pro teto, criando expectativas boas e ruins sobre aquele dia tão importante. Era meu primeiro dia na universidade. Depois de um ano me matando de estudar, equilibrando o último ano do ensino médio com as aulas do cursinho, eu tinha conseguido passar pra Engenharia Civil numa federal — um dos cursos mais concorridos, segundo todo mundo insistia em me lembrar.
Muitos vinham me dizer que minha vida ficaria mais difícil dali pra frente, que eu teria que me matar de estudar, que seria forçado a crescer, o que só me deixava apreensivo. Outros diziam que eu ia curtir, que viveria bêbado e faria muito sexo, o que também me deixava apreensivo, porque não era muito do meu feitio e, se um lugar tinha o poder de me transformar tanto assim, eu achava que devia ter medo dele.
Me vinham também aquelas inseguranças comuns a quem entra numa universidade: o medo de não me enturmar, de ficar sozinho, de alguém perceber alguma coisa em mim que eu mesmo não sabia como explicar. Eu era uma pessoa insegura por natureza, e situações assim me deixavam fisicamente mal — dor de barriga, insônia. Às vezes eu desejava dormir e só acordar quando tudo já tivesse passado.
Respirei fundo, olhei as horas no celular e percebi que já tinha enrolado na cama o máximo que podia sem me atrasar. Levantei com dificuldade e fui tomar banho, depois fiquei na frente do espelho escovando os dentes e me arrumando. Não me achava bonito — mais por culpa da minha autoestima baixa do que da genética propriamente dita — mas também não era feio. Era normal: rosto magro, cabelo castanho curto, olhos verdes discretos, nada muito chamativo. Às vezes usava óculos de grau para enxergar de longe, o que me dava uma cara de nerd que eu não fazia jus, porque não compartilhava quase nada com aquela cultura.
Fui tomar café da manhã com o resto da família. Nada de cena de novela, com todo mundo sorridente e a mesa farta — a gente comia na cozinha mesmo, geralmente em pé, cada um correndo pro seu lado, trocando só o essencial. Eu nunca tinha parado pra pensar que viver daquele jeito, como quase estranhos dividindo a mesma casa, era estranho. Pra mim, era o normal. A gente se amava? Sim. Mas nunca verbalizava isso. Só fui entender as consequências disso tempos depois.
Morávamos eu, meu pai Olavo, minha mãe Teresa, e meus três irmãos: Tiago, mais velho, e os gêmeos caçulas, Caio e Laura. A cena de sempre: meu pai lendo alguma notícia no celular enquanto mordia um pedaço de pão, Tiago saindo correndo pro estágio, os gêmeos brigando em algum canto da casa, e minha mãe cozinhando às pressas, já com o jaleco branco impecável de médica.
— Toma cuidado hoje, viu? Primeiro dia essas coisas são uma loucura, muita gente, muito estudante novo andando perdido por aí. Se precisar de alguma coisa, procure um professor ou a coordenação.
— Uhum — concordei, tomando meu copo de leite. Não que eu fosse seguir o conselho à risca, mas era mais fácil concordar do que discutir.
— Deus me livre de acontecer alguma coisa com você lá. Você nem imagina as histórias que os alunos de medicina contam lá no hospital.
— Vou tomar cuidado, mãe.
Terminei o café, lavei a boca, me despedi e desci pelo elevador. Fui caminhando até o ponto de ônibus, e a cada passo o nervosismo crescia um pouco mais. O ônibus que ia direto pro campus estava lotado de estudantes
— uns visivelmente nervosos, provavelmente calouros como eu, outros rindo e cochichando entre si, já com aquela intimidade de quem já se conhece. O nervosismo só aumentou conforme o ônibus se aproximava do destino.
Desci junto com uma pequena multidão e fui procurar meu prédio. Não foi difícil — bastou seguir o fluxo de gente carregando mochilas novas e cara de perdidos como eu. Olhei pra fachada do prédio de Engenharia Civil pensando que ali eu ia passar os próximos cinco anos da minha vida, sendo otimista. Os cinco anos que, de um jeito ou de outro, iam definir quem eu era.
Tive que respirar fundo pra controlar a tremedeira. Passei pela roleta e segui uma placa de papel colada na parede: RECEPÇÃO CALOUROS — ENGENHARIA CIVIL, 8H, AUDITÓRIO DO BLOCO 2. Nada de auditório principal da universidade lotado de gente de todos os cursos — era só a nossa turma mesmo, uns cento e poucos alunos, apertados num auditório pequeno que cheirava a giz e ventilador velho.
Um professor, que se apresentou como coordenador do curso, falou por uns dez minutos sobre grade curricular, sobre a importância de não faltar às aulas de Cálculo, sobre os laboratórios que a gente ainda ia conhecer. Discurso seco, direto, nada de grandes frases de efeito. No fim, ele passou a palavra para um grupo de uns cinco ou seis veteranos, todos com uma camisa igual, escrito ATLÉTICA ENGENHARIA CIVIL nas costas.
Um deles, um cara moreno, alto, com um sorriso fácil que parecia já ter decorado o nome de todo mundo ali, se adiantou.
— E aí, galera! Sejam bem-vindos! Eu sou o Danilo, sou do terceiro período e também vou estar na sala de vocês esse semestre, numa das disciplinas optativas. A gente da atlética não tá aqui pra assustar ninguém, viu? Esquece aquele papo de trote que vocês devem ter ouvido falar, isso já era, hoje em dia é tudo mais de boa. A gente só quer integrar vocês com o resto do curso: hoje à tarde tem um churrasco lá na quadra, à noite tem uma resenha na república de um dos veteranos. Ninguém é obrigado a nada, mas é uma boa forma de já sair daqui conhecendo gente.
Ri baixinho, aliviado. Aquilo já tirava um peso enorme das minhas costas.
Foi enquanto o Danilo ainda falava que eu o vi pela primeira vez. Aliás, acho que todo mundo viu, porque ele era uma daquelas pessoas que você não consegue deixar de notar. Cabelo loiro, bagunçado de um jeito que parecia proposital. Olhos de um azul que se destacava mesmo de longe. Traços finos, quase simétricos demais pra parecerem reais. Ele estava sentado poucas fileiras à minha frente, de perfil, olhando pro celular com uma expressão que eu não soube decifrar — parecia entediado, ou talvez só cansado de um jeito que não tinha nada a ver com sono.
Como se sentisse que estava sendo observado, ele virou a cabeça e seus olhos encontraram os meus. Por um segundo — só um segundo — vi ali algo que eu reconheci de um jeito estranho e imediato: uma tristeza funda, quase um pedido de socorro mal disfarçado. Que garoto era aquele?
Baixei a cabeça na hora, sentindo o rosto esquentar. Não tinha sido a primeira vez que eu me pegava olhando pra outro garoto daquele jeito, e vinha tentando, havia anos, fingir pra mim mesmo que aquilo não significava nada. Desde os meus onze, doze, eu sabia que era diferente — nunca tive o mesmo interesse dos outros meninos por certas brincadeiras, e ao entrar na puberdade aquilo ficou mais claro, mais físico. Eu sabia o que sentia por eles. Mas sempre acabava me apaixonando por meninas também, e foi nisso que me agarrei durante anos: se eu conseguisse sentir alguma coisa por elas, talvez o resto fosse só uma fase, um erro de percurso. Cresci numa família tradicional, do tipo que trata esse assunto como se fosse uma falha de caráter passageira, e eu tinha decidido, muito antes de conseguir nomear a decisão, que o mais seguro era manter aquilo trancado bem no fundo.
Só levantei a cabeça de novo quando tive certeza de que o garoto loiro já não estava mais olhando. Ao caminhar entre as cadeiras, quase vazias àquela altura, notei uma garota de cabelo castanho claro dormindo desajeitada numa delas, a cabeça pendendo pro lado. Tive pena, engoli a timidez e a cutuquei de leve.
Ela acordou num sobressalto, olhando assustada em volta.
— Já acabou — falei.
Ela levou um instante pra processar aquilo, depois soltou um bocejo exagerado.
— Ai, que saco. Perdi tudo?
— Só um discurso sobre grade curricular e um convite pro churrasco da atlética.
— Então não perdi nada — falou, se levantando e pegando a mochila jogada aos pés da cadeira.
Ela era bonita, mas visivelmente pouco vaidosa, cabelo preso num rabo de cavalo torto, rosto de traços fortes que não perdiam a feminilidade. Tem aquelas pessoas que a gente simpatiza de cara, sem motivo nenhum — foi assim com ela.
— Bernardo — me apresentei.
— Alice — respondeu, apertando minha mão. — Não fica sorrindo assim, não vou dar em cima de você.
Fiquei sem graça, o sorriso desmanchando na hora. Ela era bem direta.
— Até amanhã — falou, já saindo pela porta antes que eu conseguisse formular qualquer resposta.
Ali começava uma das amizades que eu carregaria pelo resto da vida.
Saí do auditório e fui pro ponto de ônibus. Não demorou pra eu notar o mesmo garoto loiro ali também, alguns metros à frente. Ele me viu primeiro e ficou me encarando, sem demonstrar nenhuma emoção. Desviei o olhar na hora, fingindo interesse em qualquer coisa que não fosse ele. Era só o que me faltava — que aquele cara tivesse percebido alguma coisa em mim e resolvesse fazer da minha vida um inferno pelos próximos cinco anos.
O ônibus chegou poucos minutos depois. Suspirei aliviado, mas ao olhar pra trás vi que ele também estava subindo. Passei a roleta rápido e fui pra parte de trás, lotada. Ele ficou na frente, longe de mim. Pelo menos isso.
Fomos assim por um bom tempo, ele lá na frente, eu fingindo olhar pela janela. Até que, já perto da zona sul, ele apertou o sinal pra descer. Podia ter saído pela porta do meio, mais perto de onde estava — mas fez questão de vir até a porta de trás, passando bem por mim. Prendi a respiração, olhando pro lado oposto, fingindo não ter nada a ver com aquilo.
O ônibus parou, a porta abriu. Antes de descer, sem me olhar, ele falou, numa voz baixa e melodiosa:
— A propósito, meu nome é Eric.



Faca o seu login para poder votar neste conto.


Faca o seu login para poder recomendar esse conto para seus amigos.


Faca o seu login para adicionar esse conto como seu favorito.


Twitter Facebook



Atenção! Faca o seu login para poder comentar este conto.


Ultimos 30 Contos enviados pelo mesmo autor


254050 - FORA DO ESTOQUE [12] ~ LUKE NO GRINDR - Categoria: Gays - Votos: 2
253377 - FORA DO ESTOQUE [11] ~ MOTEL COM LUCAS E FELIPE - Categoria: Gays - Votos: 3
247023 - FORA DO ESTOQUE [10] ~ DE VOLTA AO CINE REX - Categoria: Gays - Votos: 2
246960 - FORA DO ESTOQUE [09] ~ VIVENDO NA FANTASIA - Categoria: Gays - Votos: 0
246511 - FORA DO ESTOQUE [08] ~ SEXO A3 COM O BERNARDO - Categoria: Gays - Votos: 2
246373 - FORA DO ESTOQUE [07] ~ MEU SOBRINHO - Categoria: Gays - Votos: 3
246288 - FORA DO ESTOQUE [06] ~ SEXO REAL - Categoria: Gays - Votos: 5
246226 - FORA DO ESTOQUE [05] ~ NO ESCRITORIO DO GERENTE! - Categoria: Gays - Votos: 2
246026 - FORA DO ESTOQUE [04] ~ BANHEIRÃO E MOTEL - Categoria: Gays - Votos: 2
245962 - FORA DO ESTOQUE [03] ~ Obsessão Doentia - Categoria: Gays - Votos: 3
245956 - FORA DO ESTOQUE [02] ~ O PASSADO DE LUCAS GABRIEL - Categoria: Gays - Votos: 1
245863 - FORA DO ESTOQUE [01] ~ SEXO NO CINE REX - Categoria: Gays - Votos: 3
245746 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [90] ~ FINAL - Categoria: Gays - Votos: 2
245744 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [89] ~ PENULTIMO CAPITULO - Categoria: Gays - Votos: 1
245505 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [88] ~ EU ESCOLHO VOCÊ - Categoria: Gays - Votos: 0
245479 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [87] ~ 15 MINUTOS PARTE 2 - Categoria: Gays - Votos: 1
245346 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [86] ~ 15 MINUTOS - Categoria: Gays - Votos: 1
245147 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [85] ~ ACORDOS - Categoria: Gays - Votos: 1
245119 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ [84] ~ 2021 DESPEDIDA DE SOLTEIRO - Categoria: Gays - Votos: 1
245034 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ [83] ~ 2020: Perdas, Amores e Recomeços - Categoria: Gays - Votos: 0
244924 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [82] ~ O ANO DO RECOMEÇO - Categoria: Gays - Votos: 2
244859 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [81] ~ SEGUNDAS CHANCES? - Categoria: Gays - Votos: 1
244805 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [80] ~ A CARTA DA CHANEL - Categoria: Gays - Votos: 2
244771 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ [79] ~ Fechando Ciclos e Abrindo Portas - Categoria: Gays - Votos: 2
244753 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [78] ~ O ESPELHO - Categoria: Gays - Votos: 1
244711 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [77] ~ VIGANÇA SERVIDA FRIA - Categoria: Gays - Votos: 1
244510 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [76] ~ A ESCOLHA - Categoria: Gays - Votos: 3
244323 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [75] ~ O DIARIO DO CARLOS PARTE III - Categoria: Gays - Votos: 2
244252 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [74] ~ O DIARIO DO CARLOS PARTE II - Categoria: Gays - Votos: 1
244230 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [73] ~ O DIARIO DE CARLOS PARTE I - Categoria: Gays - Votos: 1

Ficha do conto

Foto Perfil contosdelukas
contosdelukas

Nome do conto:
BERNARDO [01] ~ INICIO

Codigo do conto:
268296

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
26/07/2026

Quant.de Votos:
1

Quant.de Fotos:
0