Eric!
Hoje, anos depois, eu sei nomear o que sentia naquela noite. Na época eu não tinha vocabulário pra isso, ou talvez tivesse e escolhesse não usar. Chamei aquilo de tesão porque tesão eu sabia administrar. Tesão eu podia negar, disfarçar, sufocar debaixo do travesseiro e seguir em frente. O que eu sentia por Eric não cabia nessa categoria, e uma parte de mim sabia disso desde o primeiro instante — só que admitir seria abrir uma porta que eu tinha decidido, muito antes daquela noite, manter trancada.
Já desejei outros caras. Alguns intensamente. Mas desejo, eu percebo agora, é uma coisa que se satisfaz e passa. O que eu sentia por Eric não pedia satisfação — pedia posse. Eu não queria só tê-lo numa cama por uma noite. Eu queria guardá-lo, prendê-lo, torná-lo meu de um jeito que não tinha nada de romântico e tudo de doentio. Existe uma linha fina entre desejar alguém e querer consumir alguém inteiro, e eu atravessei essa linha antes mesmo de trocar uma palavra com ele. Isso não era amor. Era algo mais parecido com obsessão vestida de paixão — e demorei anos pra aprender a diferença.
Na época, mergulhado na inocência barata da minha adolescência, era mais fácil não pensar nisso. Eu tinha um plano, e nesse plano não havia espaço pra Eric nem pra nenhum outro garoto. Eu me formaria, arrumaria um emprego decente, encontraria uma mulher bonita e gentil o suficiente pra não fazer perguntas demais, casaria, teria filhos, e enterraria tudo aquilo que sentia lá no fundo, onde ninguém — nem eu mesmo — pudesse encontrar. É engraçado como esse plano parece absurdo hoje, e como parecia perfeitamente razoável na época. Acho que é assim com todo garoto gay criado dentro de uma família que trata a própria existência dele como uma fase, um desvio, um erro a ser corrigido com paciência e oração. A gente não nasce sabendo negar quem é. A gente aprende.
Dormi mal e acordei pior. Segui a rotina de sempre até a universidade, sabendo que aquele seria o primeiro dia de aula de verdade — a primeira vez que eu veria minha turma completa, o grupo de pessoas que, quisesse ou não, se tornaria uma espécie de família adotiva pelos próximos anos. Torci, sem muita convicção, para que Eric não estivesse entre eles.
Cheguei cedo. A sala ainda estava quase vazia, só um amontoado de moletom e cabelo bagunçado ocupando uma cadeira no canto, subindo e descendo no ritmo lento de quem dorme sem cerimônia. Sorri ao reconhecer Alice. Sentei ao lado dela, e o barulho da cadeira foi suficiente pra acordá-la de mau humor.
— Aff, só sabe me acordar? Vai procurar outra idiota, já disse que não tô interessada.
— Também não tô, prefiro meninas de bom humor.
— Então parece que vamos ter uma longa relação de decepção mútua.
Ri. Tinha alguma coisa em Alice que me deixava à vontade de um jeito que ninguém mais conseguia. Não éramos do tipo carinhoso, nunca fomos de abraço ou colo, mas nossa cumplicidade não precisava disso pra ser real. Levaria anos pra eu entender o tamanho do que ela representava na minha vida — que sem ela, boa parte das decisões certas que tomei, eu jamais teria tomado sozinho.
— Já te disseram que você é um porre? — falou, se ajeitando na cadeira.
— Nunca na minha frente.
A sala foi enchendo aos poucos. Eu, que sempre falei pouco e escutei demais, fui catalogando os tipos: as garotas que se sentaram perto da janela, os atletas descolados no meio da sala, as figuras estranhas no fundo, os que pareciam inteligentes na frente. E nada de Eric. Uma parte covarde de mim relaxou. Outra, que eu ainda não tinha coragem de admitir que existia, sentiu falta dele antes mesmo de ele chegar.
O professor entrou. Homem de meia-idade, expressão séria mas não fechada.
— Bom, aqui estamos. Meu nome é Heitor, além de professor de vocês também sou coordenador do curso. Pra começar, digam o nome e o motivo de terem escolhido Engenharia Civil.
Um por um foi se apresentando. Vou apresentar aqui só os que importam pra essa história — e o primeiro deles era um dos garotos do meio da sala.
— Meu nome é Rafael — sorriu, dentes brancos e certinhos, um sorriso que parecia ter sido feito sob medida pra desarmar qualquer desconfiança. — Não faço a menor ideia do que eu tô fazendo aqui, se querem saber a verdade.
A turma riu. Eu também. Não porque fosse particularmente engraçado, mas porque havia algo em Rafael que descontraía o ambiente só de ele abrir a boca. Ele era tudo o que eu não era: extrovertido, luminoso, do tipo que entra numa sala e a sala inteira gira em torno dele sem esforço nenhum. O anti-eu, decidi ali mesmo, sem imaginar o quanto essa definição ainda ia pesar entre a gente.
A porta abriu de novo. Eric entrou, rosto corado como quem correu, e a sala inteira — não só eu — parou pra olhar. Seus olhos correram pela turma e pousaram nos meus por um segundo que durou tempo demais. Desviei o olhar rápido, com medo de que aquele instante contasse alguma coisa que eu não queria que fosse contada.
— Seu nome? — perguntou Heitor.
— Eric.
— Procure chegar no horário. Faço chamada no início da aula.
Ele foi se sentar na única cadeira vaga: ao lado de Rafael.
Fingi não acompanhar o resto, mas acompanhei tudo. Rafael puxou papo com Eric em segundos, os dois cochichando como se já se conhecessem havia anos. O ciúme que me tomou não fazia sentido nenhum — eu nunca tinha trocado uma palavra com Eric, muito menos com Rafael — mas foi real assim mesmo, e queimou. Passei o resto da aula tentando convencer a mim mesmo que aquilo não significava nada, sem sucesso algum. Meu maior defeito sempre foi esse: pensar demais, e imaginar histórias inteiras a partir do nada.
Quando Heitor nos liberou, fui buscar Alice.
— Vamos?
— Você realmente não vai me deixar descansar em paz hoje.
Caminhamos em silêncio — silêncio meu, porque minha cabeça ainda rodava em torno de Eric e Rafael. Alice notou.
— Uai, pra quem me arrastou pra fora de sala, você tá uma péssima companhia.
— Desculpa, tava pensando em outra coisa.
— Você é dessas que pensam demais, né?
Olhei pra ela, surpreso com a precisão do comentário.
— Sou eu que penso demais e ponho tudo pra fora — continuou, sem esperar resposta. — Você guarda tudo. Vou ter que te torturar periodicamente pra arrancar informação de você.
— Não precisa. É só perguntar.
— Posso perguntar qualquer coisa?
— Pode.
— Você é gay?
Senti o chão sumir. Não pela pergunta em si, mas pela certeza repentina de que eu tinha sido descoberto tão cedo, por alguém que eu mal conhecia havia um dia.
— Você é lésbica? — rebati, tentando ganhar tempo.
— Não. Mas responder pergunta com pergunta é sinal clássico de insegurança.
— Só queria te mostrar como é uma pergunta invasiva.
— Invasiva ou não, você continua enrolando.
— Óbvio que não sou gay — falei, com mais firmeza do que sentia. — Por que você pensaria isso?
— O jeito que você olhou pro menino que chegou atrasado.
— Eu não tava olhando pra ele de nenhum jeito especial.
— Tava sim.
Não havia saída.
— É que… ele é muito loiro, muito branco, os olhos são muito azuis. Chama atenção, sei lá.
— Ah, com certeza. Deve ser isso — falou, sem me olhar, e eu nunca soube dizer se ela acreditou ou só decidiu não insistir naquele dia.
Quando voltamos, Eric e Rafael conversavam na porta da sala como velhos amigos. O ciúme voltou, mais forte. Se antes eu achava Rafael simpático, ali eu já começava a cultivar por ele um ódio silencioso e completamente injusto.
— Sua desculpa é que ele é nórdico demais — cochichou Alice, entrando na sala. — Agora, qual vai ser a dele?
— Cala a boca.
Ela riu, satisfeita por ter conseguido me tirar do sério.
Rafael e Eric entraram juntos na aula seguinte, ainda conversando como se já tivessem uma vida inteira de intimidade. Eu ainda não sabia — não podia saber — que aquele ciúme bobo de primeiro dia era só o começo mais inofensivo de tudo o que Eric e Rafael ainda me fariam sentir.