Naquela década de 90, as barreiras invisíveis do preconceito racial pesavam como chumbo. Ele, um jovem negro; ela, uma jovem branca. O desejo que começava a brotar precisava se esconder nos detalhes. Mas o destino usou um telefone fixo para criar um desencontro perfeito. Amigos do rapaz passaram a ligar para a casa dela com trotes ousados. Quando questionada se desconfiava de alguém, ela disparou de primeira o nome do vizinho tímido. Os colegas confirmaram a mentira. Na cabeça dela, o rapaz finalmente havia se declarado.
A partir dali, a timidez dela se transformou em uma sedução implícita e exclusiva. As roupas ganharam uma ousadia que mexia com a cabeça do jovem: shorts jeans desfiados, lycras coladas e lingeries cavadas que deixavam o corpo em evidência. Quando bebiam vinho a sós, ela subia na cadeira e sentava-se de cócoras na frente dele, quebrando qualquer formalidade. Ele, paralisado pela insegurança e pelo respeito, apenas observava, alimentando aquela eletricidade em seus pensamentos.
Aos dezoito anos, ele se mudou daquela rua. O convívio diário terminou, mas o vínculo permaneceu intacto no tempo. Três anos depois, aos vinte e um, o rapaz enfrentou o momento mais difícil de sua vida ao ser preso. No dia do seu aniversário, no pátio cinzento da delegacia, quem apareceu para visitá-lo foi ela. A mulher reservada ignorou o julgamento do bairro, quebrou seu próprio isolamento e levou sua lealdade e afeto até aquela cela para mostrar que ele nunca havia sido esquecido.
Os anos correram, a liberdade voltou e cada um seguiu seu rumo. No entanto, o passado e o presente colidiram de forma definitiva quando o rapaz se envolveu intimamente com a ex-cunhada dela, após a separação do irmão. Para a vizinha, aquilo cruzou uma linha sagrada de lealdade familiar e feriu profundamente o orgulho da única mulher que havia quebrado todas as suas regras por ele.
O último ato dessa história aconteceu no centro da cidade. Ela, caminhando com o filho, cruzou com ele e o cumprimentou por impulso. Animado pelo reencontro, o rapaz conseguiu o número dela e ligou na manhã seguinte.
— Bom dia — disse ele.
— Quem está falando? — ela perguntou, com a voz reservada de sempre.
Ao ouvir o nome dele, toda a mágoa e o orgulho ferido voltaram instantaneamente. O telefone mudou de tom, a linha caiu e o bloqueio no WhatsApp encerrou, de forma curta e grossa, o ciclo daquele amor que viveu intensamente no silêncio e nas entrelinhas de uma juventude que nunca mais vai voltar.
Que delicia de conto amor, você escreve muito bem! Fiquei com um tesão danado enquanto lia, parabéns, teve meu voto! Postei um conto novo, adoraria um comentário seu, e se gostar vote ok? Bjinhos Ângela
ebano-