O jogo das duas quitinetes



O Jogo das Duas Quitinetes

O calor de 2006 parecia estalar nas telhas daquele quintal dividido. Eram apenas duas quitinetes face a face. De um lado, ele e a esposa; do outro, ela, o marido e a filha pequena. A rotina era o cenário perfeito para o invisível: ele acordava tarde por causa do novo turno da tarde; ela, aos 23 anos, circulava pelo espaço comum com roupas de dormir leves, deixando o tempo passar antes de se arrumar para a faculdade.

Os encontros começaram na amizade, mas o desejo logo fincou raízes na sombra do carro, nos fundos do terreno. Era ali que ela ia se despedir diariamente. Vestia as calças legging coladas que eram febre na época, marcando as curvas sem pressa, jogando com a vaidade de saber que os olhos dele, aos 30 anos, estavam completamente hipnotizados por cada detalhe íntimo exposto no tanque ou sob a luz do sol.

O limite da palavra foi rompido no dia em que ele soltou a frase direta: "Você assim na faculdade vai deixar os homens doidos". A resposta dela foi um sorriso cúmplice. Dali para frente, o flerte virou lei. Havia tesão mútuo, mas um tesão de controle. Ela cobria a legging com uma camisa comprida antes de passar pelo portão para o mundo exterior; guardava a provocação apenas para o quintal.

O jogo ganhou as madrugadas. Na coincidência dos horários de chegada, as cortinas semiprecisas revelavam silhuetas pós-banho. Na tarde em que o casal vizinho transava barulhento na quitinete ao lado, ela sabia que ele ouvia cada estalo do ato na parede, usando o som como uma provocação direta.

Mas o ápice daquela eletricidade aconteceu na calada da noite. Ele havia chegado do trabalho e transava com a esposa na própria cama. O portão estalou. Os passos dela pararam exatamente embaixo da janela aberta. No escuro do quintal, ela ouviu os gemidos e o impacto bruto do ato na madrugada. Paralisada pela adrenalina, sentindo o corpo queimar de excitação e o coração disparado pelo perigo de ser descoberta, ela absorveu cada som antes de entrar em casa em absoluto silêncio, levando aquela imagem auditiva para liberar o próprio desejo na solidão do banheiro.

As investidas físicas tentadas no futuro — o pedido de beijo recusado na quitinete com um minuto de silêncio, a pizza para limpar a barra, a viagem à praia e até a visita na casa nova quando ela já estava separada — nunca se concretizaram. Faltou o passo final. O destino daquela história nunca foi o contato real, mas sim a perfeita engrenagem da fantasia de 2006, um pacto secreto de olhares e sons que ficou trancado para sempre nas paredes daquele velho quintal.


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Ficha do conto

Foto Perfil Conto Erotico ebano-

Nome do conto:
O jogo das duas quitinetes

Codigo do conto:
271201

Categoria:
Confissão

Data da Publicação:
01/09/2026

Quant.de Votos:
2

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