Depois daquela noite, André não tentou descobrir quem era
Talvez essa tenha sido a melhor parte
Ele poderia ter perguntado
Poderia ter insistido no nome, procurado pistas, tentado transformar aquela pessoa imaginária em alguém concreto.
Mas não fez isso
Em vez disso, começou a aproveitar
Às vezes, durante um beijo, perguntava baixinho:
— Ele está aqui?
Eu sorria
— Talvez.
— Está olhando?
— Está
E André parecia gostar da ideia de que havia alguma coisa acontecendo dentro da minha cabeça que ele não conseguia enxergar completamente
Aquela fantasia passou a fazer parte da nossa intimidade
Não todos os dias
Nem precisava
Às vezes bastava uma palavra
Um olhar
Uma pergunta
E eu percebia que, de alguma maneira, André tinha começado a dividir comigo uma parte de mim que eu mesma ainda estava conhecendo
Até que ele precisou viajar novamente
Dessa vez seriam apenas duas semanas
Quando fechou a mala, senti uma pontada de decepção
Não pela viagem em si
Mas porque, pela primeira vez, eu tinha começado a gostar daquela nova dinâmica entre nós
Antes, eu teria pensado apenas na saudade
Agora pensei:
O que vai acontecer comigo quando eu estiver sozinha de novo?
André me beijou antes de sair
— Se cuida
— Pode deixar
Ele sorriu
— E dele também
Eu ri
— Bobo
— Só estou dizendo
Fechei a porta depois que ele saiu e fiquei alguns segundos parada no corredor
Ainda estava sorrindo
Naquela noite, mandei uma mensagem para André dizendo que já estava com saudade
Ele respondeu quase imediatamente
Depois veio outra:
— E ele?
Fiquei olhando para a tela
Sorri
Não respondi
Pelo menos não naquele momento
Nos dias seguintes, percebi que alguma coisa tinha mudado
Quando André estava em casa, a fantasia pertencia aos dois
Agora, sozinha, ela voltava a ser exclusivamente minha
E parecia mais intensa
Eu não precisava imaginar uma história
Não precisava imaginar encontros
Era suficiente fechar os olhos e lembrar daquela sensação
A possibilidade
O segredo
A ideia de existir uma parte de mim que André conhecia apenas pela metade
Comecei a perceber também que gostava de ser observada
Não de maneira explícita
Era mais sutil
Um olhar demorado no elevador
Um sorriso que poderia ser apenas educação
Uma conversa que durava alguns segundos além do necessário
Eu não fazia nada
Mas também já não desviava imediatamente
Foi então que comecei a receber mensagens do vizinho de cima
Eu já o conhecia de vista
Tínhamos trocado algumas palavras no elevador, comentários sobre o prédio, coisas banais
Nada que significasse alguma coisa
Até que uma noite ele mandou mensagem reclamando algo sobre o prédio
Uma mensagem simples
Respondi sem pensar
Ele respondeu novamente
Eu respondi de novo
Parei
Olhei para a tela
Pensei em encerrar
Mas alguma coisa dentro de mim queria continuar
Não porque eu quisesse aquele homem
Era diferente
Eu queria a sensação
Queria aquele pequeno espaço onde uma conversa podia ser apenas uma conversa...
ou alguma coisa a mais
No dia seguinte, ele mandou outra mensagem
Dessa vez, um comentário sobre mim
Nada direto
Mas suficientemente ambíguo
Eu poderia ignorar
Em vez disso, respondi
E depois me peguei sorrindo
Foi aí que percebi o que estava acontecendo
Eu estava usando aquela conversa como uma espécie de extensão da minha fantasia
O vizinho não era a pessoa que ocupava minha cabeça
Ele era apenas alguém real do outro lado da tela
Uma oportunidade para sentir aquela tensão
Para brincar com a possibilidade
Para descobrir até onde eu conseguia ir sem realmente atravessar nenhuma linha
E quanto mais eu percebia isso, mais fácil ficava responder
Ele mandava uma provocação
Eu devolvia outra
Ele dizia alguma coisa que poderia ser inocente
Eu escolhia interpretar de outro jeito
E, às vezes, respondia de uma maneira que também podia ser interpretada de duas formas
Era exatamente aquilo que eu tinha descoberto semanas antes
A linha
A vontade de ficar perto dela
Sem necessariamente cruzá-la
Uma noite, enquanto conversávamos, ele escreveu:
— Você sempre foi assim?
Fiquei alguns segundos olhando para a pergunta
— Assim como?
A resposta demorou
— Difícil de entender
Sorri
Talvez fosse verdade
— Talvez você que esteja tentando entender demais
Ele respondeu:
— Talvez
Coloquei o celular sobre a cama
Fui até o espelho
Olhei para mim mesma
E tive uma sensação estranha
Eu não estava pensando nele
Estava pensando em mim
Na mulher que respondia
Na mulher que gostava de saber que alguém estava interessado
Na mulher que agora conseguia sustentar uma conversa ambígua sem imediatamente sentir culpa
Voltei para o celular
Havia outra mensagem
— Você está sorrindo agora, não está?
Fiquei parada
Não era o vizinho
Era ele!
Digitei:
— Talvez
Apaguei
Digitei novamente:
— Você gostaria que eu estivesse?
Dessa vez, enviei
Assim que a mensagem foi embora, senti meu coração acelerar
Como ele mandou mensagem na hora certa?
Mas ali, pela primeira vez, eu tinha percebido que estava começando a gostar do jogo
E talvez esse fosse o perigo
Não o vizinho
Não as mensagens
O perigo era descobrir que eu gostava de ser aquela mulher
Aquela que podia provocar
Que podia receber atenção
Que podia deixar alguém curioso
E que, mesmo sozinha, continuava carregando dentro de si aquela terceira presença que ninguém além de mim conhecia
O vizinho podia mandar mensagens
Podia flertar
Podia imaginar coisas
Mas não era ele quem ocupava o espaço mais importante
Ele apenas tinha encontrado a porta
E eu, sem perceber, começava a deixá-la aberta
Mas só entraria quem eu permitisse
ramone84