Principalmente quando percebo que ela também está a fim.
E foi exatamente isso que aconteceu com Renata.
Renata não era aquela mulher que entra num lugar e faz cinquenta homens virarem a cabeça ao mesmo tempo.
Era melhor.
Era o tipo que você olha uma vez e acha bonita. Olha a segunda e percebe a boca. Na terceira, repara no corpo. Quando percebe, já está inventando desculpa para olhar de novo.
Devia ter uns 39 anos.
Tinha aproximadamente 1,65, cabelos castanhos um pouco abaixo dos ombros, pele morena clara e olhos escuros. O cabelo não estava impecável; tinha alguns fios rebeldes que ela vivia colocando atrás da orelha.
O corpo também era de mulher normal.
Tinha barriga.
Tinha quadril largo.
Coxas grossas.
E uma bunda que aquela calça jeans fazia questão de anunciar para quem estivesse prestando atenção.
Eu estava.
Muito.
Renata usava uma blusa preta de decote discreto. Nada vulgar. Só que, dependendo de como ela se inclinava sobre a mesa, o discreto começava a ficar bastante interessante.
E aquela desgraçada parecia saber exatamente disso.
Estávamos num bar numa sexta-feira. Eu tinha saído para beber, conversar e voltar para casa.
Plano simples.
Até Renata sentar na mesa ao lado.
Ela estava com duas amigas.
Falava alto, ria, mexia muito as mãos e soltava algumas gargalhadas completamente sem elegância.
Gostei dela quase imediatamente.
Em determinado momento nossos olhos se encontraram.
Ela desviou.
Pouco depois aconteceu novamente.
Dessa vez, antes de virar o rosto, deu um sorrisinho.
Pronto.
Fodeu.
Não literalmente.
Ainda.
Continuei bebendo minha cerveja e fingindo que não estava interessado.
Uns quinze minutos depois fui até o balcão pedir outra.
Quando estava voltando, ouvi:
— Ei, moreno.
Parei.
Renata estava olhando para mim.
— Eu?
— Não, o Brad Pitt atrás de você.
Olhei para trás de propósito.
Ela começou a rir.
— Idiota.
— Você que chamou.
— Vem cá.
Cheguei perto da mesa.
As amigas dela trocaram aquele olhar que mulher troca quando já sabe exatamente o que a outra está fazendo.
Renata apontou para mim.
— Minhas amigas estão dizendo que você está me secando desde que chegou.
— Suas amigas são fofoqueiras.
As três riram.
Renata cruzou os braços.
— Então não estava?
Olhei para ela de cima a baixo sem fazer nenhuma questão de esconder dessa vez.
— Agora estou.
Ela abriu a boca, surpresa.
— Filho da puta.
Começou a rir.
— Gostei de você.
— Cinco minutos atrás eu era idiota.
— Pode ser os dois.
Uma das amigas levantou a taça.
— Renata, você encontrou alguém tão sem-vergonha quanto você.
— Cala a boca, vagabunda.
Mais risadas.
Foi assim que comecei a conversar com ela.
Sem cantada bonita.
Sem música romântica.
Sem aquela merda de destino.
Era cerveja, provocação e dois adultos percebendo aos poucos que estavam ficando perigosamente interessados um no outro.
Quando as amigas foram ao banheiro, Renata puxou a cadeira vazia ao seu lado com o pé.
— Senta aí.
Sentei.
Ela chegou mais perto.
— Quantos anos?
— Quarenta e dois.
— Humm.
— Esse “humm” foi bom ou ruim?
— Estou decidindo.
— E você?
— Trinta e nove.
— Está bem conservada.
Ela me deu um tapa no braço.
— Vai tomar no cu, Sandro.
Comecei a rir.
— Você perguntou.
— “Bem conservada” é coisa que se fala de geladeira, seu animal.
Foi quando percebi que Renata tinha uma sensualidade diferente.
Não fazia pose.
Não falava baixinho.
Não ficava tentando parecer fatal.
Era simplesmente ela.
Quando ria, jogava a cabeça para trás. Quando estava interessada, chegava perto. Quando discordava, xingava. E quando queria olhar para mim, olhava mesmo.
Depois de mais duas cervejas, já estávamos próximos o suficiente para nossos joelhos se encostarem.
Nenhum dos dois afastava.
— Posso falar uma coisa? — ela perguntou.
— Fala.
Renata olhou rapidamente para minha boca.
— Quando você chegou, achei você meio metido.
— E agora?
Ela chegou mais perto.
— Agora continuo achando.
— Então melhor eu ir embora.
Fiz menção de levantar.
Ela segurou minha camisa.
— Senta essa bunda aí.
Obedeci.
— Mulher mandona do caralho.
— Você não viu nada.
Aquilo foi dito sorrindo.
Mas o olhar dela mudou.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
A brincadeira tinha acabado de ganhar outra temperatura.
— Renata...
— O quê?
— Se continuar olhando para minha boca desse jeito, vai dar merda.
Ela umedeceu os lábios, deliberadamente.
— Que merda?
— Você sabe.
Ela aproximou o rosto.
— Talvez eu queira ouvir você falar.
Eu já sentia o perfume dela. Misturado com cerveja, shampoo e alguma coisa doce que vinha da pele.
Coloquei a mão em sua cintura.
Renata olhou para minha mão.
Depois para mim.
— Folgado.
— Quer que eu tire?
Ela segurou meu pulso.
Por um instante achei que fosse afastar minha mão.
Não afastou.
Apenas respondeu:
— Eu não disse isso.
Então me beijou.
Sem cerimônia.
Sem beijo delicado de filme.
Renata segurou minha nuca e me deu um beijo quente, demorado, daqueles que fazem você esquecer por alguns segundos que existem outras pessoas ao redor.
Quando se afastou, estava sorrindo.
— Caralho...
— O quê? — perguntei.
— Eu sabia que você tinha cara de problema.
— E mesmo assim me beijou.
Ela pegou a bolsa.
— Justamente por isso.
— Vai embora?
Renata levantou e ajeitou a blusa.
— Vou.
Olhei para ela sem entender.
Ela deu dois passos, virou-se e percebeu que eu continuava sentado.
— Você é lerdo assim normalmente?
— Como?
— Sandro...
Ela balançou a cabeça e riu.
— Levanta essa bunda e vem comigo.
Foi aí que percebi que minha sexta-feira tranquila tinha acabado de ir para o caralho.
sandroandarilho